A história de um povo faz-se todos os dias

por João Mendes 0

Nascido de um parto difícil, o concelho da Trofa ocupa hoje uma área geográfica que encerra em si a história de um país. Por cá passaram os romanos, responsáveis pela construção do primeiro eixo entre Porto e Braga, e aqui se fez a vida negra às tropas napoleónicas do General Soult, surpreendidas por uma irredutível resistência popular. Com a revolução industrial chegou também a via-férrea, central para o desenvolvimento que trouxe consigo o progresso, e que, aliado à fertilidade das suas terras e ao querer das suas gentes, foi moldando uma Trofa dinâmica, empreendedora e orgulhosa.

Mas o progresso teve também o reverso da medalha. O rio Ave, outrora rico e cristalino, foi vítima do crescimento desenfreado da indústria e da falta de bom senso. De igual forma, as freguesias que hoje constituem o nosso concelho foram também alvo da exploração e da ganância daqueles que aqui encontraram uma importante fonte de rendimento sem nunca retribuir, de forma justa e proporcional, com o necessário investimento para que a sua população pudesse beneficiar do fruto do seu trabalho na igual medida em que outros beneficiavam do suor dos nossos antepassados.

Com o tempo, a indignação deu lugar à revolta, e a revolta organizou gerações de trofenses que conspiraram por um futuro melhor para si e para os seus. Os anos passaram, e a inquietação abriu caminho a movimentações de natureza verdadeiramente revolucionária, focadas num objectivo supremo de independência. Irreversível.

Com o 25 de Abril de 74, a luta pela criação do concelho da Trofa conheceu um novo ímpeto. Insubmisso, um grupo de Homens valorosos decidiu desafiar o status quo e ousou sonhar com a liberdade. Do outro lado, quais soldados de Napoleão, estavam o poder instalado e as maquinações partidárias, incapazes de perceber a magnitude daquilo que estava já em marcha.

Dez anos volvidos, a aldeia da Trofa era elevada a Vila, encerrando em si as freguesias de São Martinho e Santiago de Bougado. O crescimento industrial e a sua localização geográfica eram, por aqueles tempos, factores de atracção e fixação de uma população que não parava de aumentar. No final da década surgia a Associação Pró-Concelho da Trofa, e com ela a formalização de um sentimento que já não era possível ignorar.

Com os anos 90, as conspirações e a insubordinação deram lugar materialização de um processo que haveria de desembocar na criação da Comissão Promotora do Concelho da Trofa, estrutura que está na génese do Grito do Ipiranga de Novembro de 98. Pedro Alves da Costa, José Pereira Serra, Aníbal Costa, Mário Pinto Ribeiro, José Costa Ferreira, Armindo Martins e Eugénio Gomes foram os homens escolhidos, provenientes das estruturas de poder local e da sociedade civil de São Martinho de Bougado, para comporem a histórica comissão.

Meses depois, a comissão alargar-se-ia a Santiago de Bougado, e aos membros iniciais, grupo do qual entretanto saiu Eugénio Gomes, juntavam-se José Gregório Torres, Manuel Rodrigues da Silva, Augusto Vaz e Silva, António Sousa Pereira, Francisco Ferreira Lima, José Luís Reis e Adélio Pereira Serra, representando dignatários eleitos e sociedade civil bougadense. A comissão era agora composta por 13 representantes.

As negociações prosseguiram. No ano de 1992, foi a vez de Guidões, Alvarelhos e Covelas aderirem ao processo, algo que resultou num novo alargamento da comissão para 19 membros, Presidentes de Junta e das respectivas Assembleias de Freguesia. De Guidões chegaram Óscar Campos e Manuel Cruz, de Alvarelhos Francisco Sá e Bernardino Rodrigues e de Covelas Fernando Moreira e Fernando Melo Ferreira. É neste mesmo ano que a primeira petição pela criação do Concelho da Trofa é entregue na Assembleia da República.

O ano de 1993 é um ano marcante em todo este processo, não só pela elevação da Trofa a cidade mas essencialmente pelas eleições Autárquicas que se disputariam. O clima era tenso e as freguesias do Vale do Coronado não demonstravam uma intenção clara de querer integrar as movimentações em curso. A comissão sofria novo alargamento, fruto das alterações que decorriam dos resultados eleitorais, a vitória do Movimento Independente pelo Muro abriu portas a integração desta freguesia no projecto de criação do concelho. Em 1995, após o voto favorável da Assembleia de Freguesia de terras “para lá da Peça Má”, São Cristóvão do Muro oficializava o casamento com o processo em curso, e chegavam à comissão o seu presidente, José Maria Moreira da Silva, bem como o presidente da Assembleia de Freguesia, Manuel Assunção Maia.

Das Autárquicas de 1997, e subsequente adesão de São Romão e São Mamede do Coronado à Comissão Promotora do Concelho da Trofa, até ao grande Dia da Independência, como gosto de lhe chamar, quando, a 19 de Novembro de 1998, 10 mil trofenses literalmente invadiram Lisboa e entupiram o largo em frente à Assembleia da República, e de onde não arredaram pé até que o sonho fosse realidade, tudo se passou num ápice. Orgulho-me de ter sido uma das pessoas que presenciou esse momento, ainda que sem compreender, na plenitude, tudo aquilo que representava para a Trofa e para os trofenses. Íamos buscar o concelho, diziam os mais velhos, e não é que fomos mesmo? Fizemos capas de jornais, abrimos noticiários e superamos os obstáculos que nos colocaram no caminho. Fizemos história. Mostramos ao país de que rija matéria somos feitos.

A história de um povo faz-se todos os dias. Nas tertúlias conspirativas em que se discutem sonhos, nas movimentações abnegadas em nome de um futuro melhor para os que estão para vir, nos movimentos das massas que corporizam um querer, na manifestação do exercício da liberdade. A história da Trofa, feita de romanos e exércitos invasores, de progressos e regressões, de homens e mulheres combativas em busca dos seus sonhos, não se esgotou no dia 19 de Novembro de 1998. Não está terminada. É um livro aberto, no qual todos os dias se escrevem novos capítulos, no qual personagens se eternizam e onde novas lutas serão narradas. Compete-nos a nós, trofenses, continuar aquilo que os nossos antepassados sonharam e conseguiram, sonhando e conseguindo também nós, de espírito livre e abnegado, em nome de algo maior que a pessoa humana. A liberdade para traçar e seguir o nosso destino. E seremos, todos nós, eternos.

 

Fotografia via Trofamais

(este texto é uma adaptação do prefácil que escrevi para o livro A História da Criação do Concelho da Trofa: Contributos, da autoria do meu amigo e autor deste blogue, José Maria Moreira da Silva)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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