A minha causa

por José Calheiros 0

Num mundo casa vez mais estranho (para mim), apesar da juventude dos meus 44 anos, em que se trocassem a ordem das velas no meu bolo de aniversário, tal engano, não me envelhecia nem rejuvenescia, eu, tenho uma causa.

E a estranheza do mundo actual, para mim, começa precisamente nas “causas”, em que na defesa de géneros, minorias, classes, grupos, ..., defende-se a causa A, para sem perder tempo acorrermos à defesa da causa B e se ainda ouver tempo darmos o corpo às balas pela causa C..tudo isto antes da hora do almoço. Da parte da tarde até ao deitar a saga continua, dependendo do numero de petições que aparecerem para aderirmos. Neste corrre-corre causídico, se parassemos para pensar, provavelmente entenderiamos que a defesa de umas invalida a defesa das outras.
Eu, por exemplo, que defendo a emancipação das mulheres, o respeito pelos homossexuais e a liberdade religiosa, tudo isto em qualquer ponto do globo terrestre, defender o Islão é tão incongruente como pertencer à Juventude Leonina e ser sócio do Benfica.

Mas no meio de causas tão elevadas eu tenho a minha, a que chamo de “causa primordial”, mas que se fica pelo “rés do chão” das causas. Quero que a mim, Homem, Heterossexual, Claro (não me imcomoda que me chamem de Branco) e pertencente à minoria das minorias que ainda dá o “pisca” quando conduz, seja reconhecido, e não tem que ser por todos, apenas pela minha esposa, o direito à minha condição básica de distraído.
E num constante esforço de combate a esta característica genética para manter o equilibrio familiar, faço o que para o meu avô era impensável:
Depois de tirar a louça da máquina, colocar a roupa no armário e alinhar os meus chinelos, distanciados um do outro 4 centimetros e orientados para sudoeste, conforme a minha Senhora gosta, ela, quando chega a casa, exclama:

- Oh, e não aspiraste?!!!

- Não. Procurei o aspirador e não o encontrei.

- Pois não, foi para arranjar. Não sabias? – pergunta-me, como se eu tivesse uma bola de cristal.

Claro que não sabia, ela não me disse! Mas não respondi, senti que a pergunta tinha rasteira e havia uma procura óbvia pelo confronto. Numa tentativa de estabelecer uma trégua, pelo menos até ás 21 horas, hora em que iria sair de casa para um jogo de bola com os amigos, alinhei dois pares de sapatos e arrisquei tudo ao dizer:

- O teu cabelo está muito bonito! Foste à cabeleireira?

(parecia-me)

- O cabelo está feio e já marquei na cabeleireira amanhã de manhã. TU NÃO REPARAS EM MIM?!!!

Bem, não chegou a haver nenhum tipo de trégua. Para evitar males maiores fui preparar-lhe o jantar e antes de sair para a bola, arrisquei (aliás, tudo o que nós homens dizemos é arriscado) o seguinte reparo:

- São novos esses brincos?

(pareciam-me)

A expressão na cara dela, fez-me lembrar a menina possuída do filme, “O exorcista”.

- Seu banana! Estes brincos são os que me ofereceste há três semanas!

Com medo que a Cristina vomitase em cima de mim (a menina do exorcista vomitava muito) fugi para o futebol onde encontrei amigos na mesma aflição.

No dia seguinte enviamos uma queixa para a SOS racismo, a pedir protecção e defesa para o Homem, Heterossexual, Claro e Distraído, das nossas Senhoras!

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.