A política dos comes e bebes

por João Mendes 0

O sistema eleitoral existente em Portugal é uma bênção para PS e PSD. Do total de subvenções atribuídas pelo Estado, 80% são distribuídas de forma proporcional ao número de votos dos partidos. Isto equivale a dizer que PS e PSD vão controlar o dinheiro eleitoral até que um evento de elevada magnitude mude radicalmente o curso da política portuguesa. E porquê? Porque num ciclo permanente em que estes dois partidos se alternam no poder, as suas máquinas partidárias recebem a esmagadora maioria do dinheiro o que lhes permite garantir mais recursos para as próximas eleições. Se associarmos a isto a promiscuidade conhecida entre o Bloco Central e os grandes escritórios de advogados de Lisboa e Porto, os “pesos-pesados” do PSI-20 e alguns órgãos de comunicação social então acho que estamos conversados sobre como as “aristocracias” laranja e rosa controlam o poder em Portugal.

É claro que isto se reflecte no cenário eleitoral autárquico. Olhem bem à vossa volta: acham mesmo que PS e PSD concorrem em igualdade de circunstâncias e oportunidades quando comparados com o MIT, o BE ou o PCP? É claro que não. Os partidos pequenos não têm sede no Catulo, não têm dinheiro para entupir o concelho com cartazes inúteis (alguns acabam por colar os seus próprios cartazes), não tem dinheiro para contratar empresas de comunicação para preparar a estratégia (e controlar a estupidez de alguns energúmenos que não sabem estar mas que fruto dos alinhamentos partidários têm que constar nas listas para os órgãos autárquicos), não tem dinheiro para várias viaturas e acima de tudo não tem dinheiro (ou pelo menos tanto) para investir na infalível política dos comes e bebes.

A política dos comes e bebes é uma instituição na realidade eleitoral autárquica portuguesa. Queres juntar muita gente para lhe venderes a tua propaganda? Organiza uma festa, traz um cantor conhecido e coloca bebida e comida com fartura à disposição de quem quiser vir. E claro que não falta quem não queira comer e curtir um bailarico. E mesmo que no meio disto tudo o candidato em questão queira efectivamente falar de política e dos seus projectos para o concelho, coisa que raramente acontece, a maior parte da malta já está meia tocada ou simplesmente não liga nenhuma ao que o candidato estiver a dizer. Mas votam neles de qualquer forma! Afinal de contas, o futuro não interessa nada, o que interessa são aquelas minis geladinhas! O resto a gente pensa nisso mais tarde…

E o que fica disto tudo? Fica a ideia que o candidato X é o máximo porque ofereceu umas bifanas, um caldo verde e vinhaça à descrição. Vale votar nele? Claro que vale! Afinal são todos iguais e este pelo menos encheu-nos a barriga e ainda nos deu 5 aventais, 4 isqueiros, uma t-shirt com o nome dele e uma bandeirinha.

A política das bifanas é um cancro no corpo debilitado da sociedade portuguesa. É a expressão máxima de que a política portuguesa se baseia, regra geral, na ideia romana de “pão e circo”. Porque isto efectivamente dá votos e pode mudar o curso das eleições. E como sabemos, tal não está ao alcance de todos. As eleições jogam-se num campo inclinado onde as vantagens comparativas daqueles que controlam o sistema eleitoral são usadas para distrair em vez de elucidar o eleitor. Não é à toa que chegamos onde chegamos e que determinados corruptos ainda são vistos como divindades políticas. Depois queixemo-nos que o político mentiu ou está a fazer diferente daquilo que promteu. Soube bem a bifaninha não soube?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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