Outra vez os livros…

por João Mendes 0

No Portugal ideal com que às vezes sonho, existem jazidas de petróleo com fartura, o sistema partidário actual foi profundamente reformado e passou a gerir o país de forma responsável, sem boys nem outro tipo de clientelas, há inúmeros políticos do bloco central atrás das grades, os portugueses deixaram de fugir aos impostos e serviços como a saúde ou a educação são efectivamente gratuitos. Depois acordo e estou outra vez num país flagelado por corrupção, clientelismo, obras públicas que derrapam, partidos políticos irresponsáveis com dirigentes criminosos e zero barris de petróleo. Uma maçada…

É claro que eu gostava de viver num país onde os manuais escolares fossem gratuitos. Os manuais escolares, a frequência no ensino universitário, os cuidados básicos da saúde e os transportes públicos. Mas como o meu país foi governado por gente muito incompetente, corrupta e irresponsável desde que existe, tal não é possível. Posto isto,  e por muito que eu gostasse que todas as crianças do ensino primário tivessem os seus livros gratuitamente, infelizmente não temos dinheiro. Ou se calhar até temos mas temos outros gastos. E como temos outros gastos, não faz muito sentido pagar os livros a famílias abastadas. E é precisamente isto que separa as posições da coligação em funções na CMT do Partido Socialista da Trofa: o executivo quer pagar a quem precisa, o PS Trofa quer dar a todos, puxando do chavão de uma igualdade que neste caso roça o populista e demagógico.

Instituída durante o consulado do PS Trofa à frente dos destinos da autarquia, a atribuição gratuita de manuais escolares a todos os alunos do ensino primário foi, desde a sua implementação, uma medida muito popular porque, convenhamos, oferecer coisas é sempre popular, sejam elas livros, garrafas de vinho ou instrumentos de medição. Claro que, como toda e qualquer medida instituída pelo anterior executivo, contou desde o início com a oposição do PSD e CDS. Com a chegada da coligação ao poder, esta medida sofreu uma alteração, a meu ver coerente: os livros continuam a ser atribuídos, mas apenas e só a quem desse apoio efectivamente necessita. Podemos e devemos discutir os requisitos a cumprir por aqueles que precisam e são elegíveis para receber este apoio. É uma discussão importante e central para a boa aplicação desta medida e que nenhum partido fez, pelo menos de forma pública. Mas se os recursos são escassos e a autarquia está altamente endividada, pagar livros a quem deles não precisa é, na minha opinião, um completo absurdo.

A questão é que o PS Trofa faz disto o seu cavalo de batalha, batendo na mesma tecla até à exaustão. Acusa o executivo de falhar nas políticas de Educação mas o único exemplo destas más práticas que consegue referir é a questão dos livros. Não tem outra. É um autêntico “vira o disco e toca o mesmo“. Claro que podemos discutir se outros recursos, mal empregues, poderiam ser investidos nos livros para todas as crianças do concelho. O dinheiro que executivo usou para favorecer o “seu” Correio da Trofa num ajuste directo, por exemplo, dava para pagar muitos livros. Mas se queremos ser rigorosos, e caso esse favorecimento não tivesse acontecido, os 20 e tal mil euros teriam outros destinos mais importantes do que pagar livros às classe média-alta e alta. Mas, na falta de críticas mais construtivas, ou da coragem necessária para fazer as que realmente deveria chamando os bois pelos nomes em vez de atirar sugestões tímidas para o ar, quiçá por ter rabos entalados semelhantes, o PS Trofa refugia-se neste decoy e insiste nesta retórica demagógica e, repito, populista. Profundamente populista. E de certa forma anedótica: com pessoas a passar profundas dificuldades, ver estes socialistas a sugerir oferecer livros a quem vive no luxo é no mínimo humorístico. Faz lembrar a Isabel Moreira no Parlamento a gritar pelas subvenções vitalícias…

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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