Era desnecessário senhor presidente

por João Mendes 0

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Eu compreendo (diferente de concordar) a necessidade da “diplomacia partidária interna”. Como não sou, nem de longe nem de perto, um opositor do modelo democrático assente na existência de partidos políticos, acredito que nos partidos, como em todo o lado, existe gente boa e gente que não interessa sequer ao menino Jesus. Por este motivo, acredito também que a gente boa que existe nos partidos do centro tem que engolir sapos diários. Um verdadeiro social-democrata, por exemplo, deve ter a garganta entalada de batráquios quando percepciona que a social-democracia do PSD foi literalmente remetida para a gaveta. Um verdadeiro social-democrata deve sentir alguma repulsa por indivíduos como Miguel Relvas ou Dias Loureiro. Um verdadeiro social-democrata, ainda que não o diga, sente o peso das mentiras com que Pedro Passos Coelho conquistou o voto da maior parte dos portugueses nas Legislativas de 2015 cujo resumo surge no vídeo que abre este escrito.

Posto isto, penso que as declarações que se seguem do presidente da CMT Sérgio Humberto, na cerimónia de apresentação da mini-variante rebaptizada de circular, eram completamente desnecessárias:

“…no futuro, a gente tenha cá, também, o primeiro-ministro e o secretário de estado, vamos ver um dia se calhar a defender o metro até à Trofa que foi uma promessa que na altura a secretária de Estado Ana Paula Vitorino (para para aplauso), essa, essa sim senhor primeiro-ministro e senhor secretário de Estado, essa veio em campanha eleitoral um mês antes anunciar o concurso da metro do Porto e passados dois meses anulou o concurso. Isto é que é “descaradez” e eu sei que essa “descaradez” é uma coisa que não lhe assiste porque nós temos um primeiro-ministro íntegro, sério e correcto.”

Por dois motivos.

Em primeiro lugar porque a calendarização da obra tem contornos eleitoralistas: arranca em cima das Legislativas e terminará, se os prazos forem cumpridos, em cima das próximas Autárquicas. E eu subscrevo na íntegra as críticas feitas por Sérgio Humberto ao eleitoralismo descarado do Partido Socialista relativamente à questão do metro. Mas a verdade é que também o PSD se aproveitou eleitoralmente da mesma questão por altura do consulado de Bernardino Vasconcelos e não me lembro de ver o actual presidente da câmara incomodado com o facto.

Em segundo lugar, e principalmente, porque Portugal não tem um primeiro-ministro “íntegro, sério e correcto”. Se Passos Coelho fosse tudo isso, não teria afirmado em campanha, entre outras coisas, que os impostos não eram para aumentar, que os “anéis” – leia-se empresas públicas – não eram para vender o que apoios sociais que não eram para cortar, enfim, o vídeo em cima é claro, não preciso de me alongar.

Várias eram as hipóteses que o presidente da CMT tinha à sua disposição para fazer um mimo ao primeiro-ministro sem cair no erro de pactuar com algo que pura e simplesmente não corresponde à realidade. Um homem íntegro, sério e correcto não engana um país com falsas promessas que sabe de antemão que não pode cumprir. E valores como a integridade, a seriedade ou correcção não podem ser parciais. Ou se é ou não se é. Principalmente quando falamos de altos responsáveis políticos da nação. Puxar destes atributos, no momento que o país atravessa, mais do que um erro de cálculo crasso era totalmente desnecessário.



João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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