Encontro com o passado

por Alexandra Santos 0

 

(o presente texto é uma obra de ficção)

    O encontro estava marcado. Seria no café ao lado da Escola Secundária da Trofa, aquele que tantas vezes tinha sido palco de alegrias e dramas próprios da idade.

    Mariana reencontrou-o na rede social mais conhecida do mundo, o facebook. Tinha sido ele a pedir-lhe amizade e, por pouco, nem o tinha reconhecido. O corpo franzino de adolescente tinha-se transformado e, pelas fotos, parecia ter-se tornado num homem atraente.

      A mulher de 37 anos recordava-o com carinho, um rapaz de 17 anos, tímido, que nunca lhe dirigira a palavra, mas que tinha tido a ousadia de olhar para ela sem nunca desviar o olhar. Lembrou-se como corava sempre que isto acontecia e sorriu como se revivesse todo esse momento. Recordou inclusive o facto de ele estar muitas vezes próximo e de escutar muitas das suas conversas com as amigas! Ela poderia não saber nada dele, mas ele sabia muito sobre ela!

    Ela ainda tinha as cartas que ele lhe tinha escrito a pedi-la em namoro. Era engraçado pensar que agora já ninguém escreve cartas. As mensagens de um telemóvel mais tarde ou mais cedo acabarão por desaparecer, por ser eliminadas, mas as cartas não. As palavras que lá moram, lá permanecerão e ela poderá revisitá-las sempre que uma certa nostalgia a tocar.

    Na altura respondeu-lhe, por delicadeza, através do mesmo meio utilizado por ele: a carta. Mariana rejeitou-o da forma menos cruel que pensava ser possível, já gostava de outra pessoa. Vítima de um casamento falhado, ela imaginava como teria sido se lhe tivesse dito que sim. Se aquele rapaz tímido e franzino que olhava insistentemente para ela a poderia ter feito feliz. A palavra “se” é muito forte quando as escolhas tomadas não conduzem aos sonhos planeados. Mas que sabia ela dele na altura? Nada! Não valia a pena ficar a pensar no passado e nas hipóteses que na altura não teriam feito sentido! E ele agora já se encontrava casado, tinha filhos e parecia feliz ou fazia por parecer nas fotos que apresentava na sua página.

    Decidiu usar roupa casual e ir ao seu encontro sem maquilhagem. Não era um encontro romântico e o facto de ele ser um homem casado teria que estar sempre presente na sua mente. Decidiu estacionar o carro em frente à sua antiga escola, mas não a reconheceu. Demoliram o espaço físico que representava os seus anos de adolescência e no seu lugar colocaram um edifício que a ela nada lhe dizia. “Como tudo se transforma e nada permanece igual”, murmurou ela. Este pensamento deprimiu-a, ela gostava de planos, de coisas certas com as quais podia contar e a mudança na escola era mais uma lembrança de que só temos o dia de hoje, o ontem já passou e o amanhã não existe.

    Quando entrou no café, ele já lá se encontrava à sua espera e parecia ansioso. Talvez tivesse chegado muito cedo. Depois de uma fase inicial de partilha da vida atual de cada um, conversaram, incrivelmente, como velhos amigos, recordando histórias do liceu e professores que tiveram em comum. No momento da despedida,  ela não resistiu e, em tom de brincadeira, perguntou-lhe a razão do seu olhar insistente nos tempos da adolescência. Mariana esperava uma resposta humorística ou uma relativa ao facto de ele a considerar bonita, mas aquilo que ele disse desarmou-a: “ Porque gostava de ti!”. Uma resposta simples, completamente natural, mas que não tinha passado pela sua cabeça. Nessa mesma altura, percebeu que, para ele, ela seria sempre aquela que escapou e, para ela, ele seria sempre a hipótese que nunca aconteceu.

    Antes de entrar no carro, olhou novamente para a escola e apercebeu-se de que pensar no passado não valia a pena. A transformação do edício representava para ela a mudança que estava a decorrer na sua vida e as transformações são necessárias para a nossa evolução como pessoas, como seres humanos. Lembrou-se de que a felicidade dependia somente dela, da forma como ela encarava o que a vida lhe trazia e sorriu. Daquele encontro com o passado levava consigo esperança num futuro.

 

 

 

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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