A viagem de comboio

por Alexandra Santos 0

    (o presente texto é uma obra de ficção)

    Joana vivia em S.Romão do Coronado e fazia oito minutos de percurso de comboio, todos os dias, para a Trofa. Trabalhava lá, perto da rotunda do Catulo, numa loja de perfumes.

    Estava habituada a lidar com todo o tipo de clientes, os que são extremamente exigentes, os que não sabem o que querem, os que experimentam tudo e não levam nada, os que querem oferecer algo à sua cara metade e nem sequer conhecem a sua fragrância favorita, os carentes que só lá vão para conversar, os apaixonados que lá vão para a tentar conquistar...  A tudo estava habituada e só de olhar já sabia que tipo de cliente alguém seria. Saber isto ajudava-a sempre a fazer uma venda. O segredo de um bom comerciante é conhecer o seu cliente. No entanto, era durante aquela viagem de comboio, durante aqueles breves oito minutos, que Joana mais observava. Gostava de imaginar vidas e segredos escondidos por detrás das pessoas com quem se cruzava.

    Um dia, viu-a no comboio, uma senhora na casa dos sessenta anos. Não era habitual vê-la ali. A rapariga de vinte e três anos reconhecia-a, vivia em S.Romão, era uma das suas vizinhas, mas pouco sabia da sua vida. Uma semana antes tinha entrado na perfumaria, queria oferecer um presente à sua neta e ela ajudou-a. Recordava-se o quanto ela tinha sido simpática e sorridente. Parecia entusiasmada com a vida e com tudo o que a rodeava e Joana retribuiu esse entusiasmo. O que mais apreciava eram pessoas alegres, com espírito positivo. Contudo, naquele dia, naquela tarde, ela não parecia a mesma, parecia desorientada, confusa e triste, muito triste. Joana ponderou se deveria sentar-se junto a ela, conversar um pouco, tentar perceber o que se passava e quem sabe ajudá-la. Mas seria isso invasão da privacidade? Seria isso o que ela desejaria? Com tanto ponderar, a viagem chegou ao fim, a S.Romão. Joana saiu, mas a senhora, que também lá vivia, não. A jovem rapariga achou isso estranho, mas o que sabia ela da sua vida? Talvez tivesse assuntos a tratar noutro local ou fosse visitar alguém.

    Naquela noite, Joana pouco conseguiu dormir, arrependia-se de não ter falado com ela, talvez precisasse realmente de ajuda.

    No dia seguinte, já depois de ter esquecido o assunto, tornou a vê-la no comboio, exatamente no mesmo local, no regresso para casa, com o mesmo semblante deprimido. Desta vez, Joana decidiu intervir. Sentou-se junto a ela e, sem nada dizer, olhou-a nos olhos e sorriu. Nessa altura, a rapariga teve um vislumbre da senhora alegre e simpática que tinha encontrado na perfumaria, pois um sorriso tímido rasgou-lhe um pouco o rosto taciturno. Iniciou então uma conversa com ela, falaram do tempo, da vida, e da neta... neta essa de 14 anos que não gostou do perfume. Queria um telemóvel! Joana tinha descoberto a razão da sua tristeza. Não entendia como a riqueza da companhia dos mais velhos poderia ser tão descartada pelos mais novos. Joana tinha perdido os seus avós muito cedo e daria tudo para ter assim uma avozinha, para poder usufruir das lições de vida daqueles que seguramente sabem muito mais do que ela.

    Quando se aperceberam, já estavam quase a chegar ao Porto, mas decidiram lá continuar a agradável conversa, enquanto passeavam pelas ruas próximas da estação de S.Bento. Iam trocando histórias antigas e histórias recentes e descobriram que, de facto, poderiam aprender muito uma com a outra.

    Naquele momento, Joana era sua neta e tinha descoberto a avó com quem nunca tinha tido o prazer de conviver e as duas, juntas, tentavam decifrar a viagem da vida.


Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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