Susana

por Alexandra Santos 0

(o presente texto é uma obra de ficção) 

    Ali estava ela, no quarto do hospital, sozinha. Havia mais duas camas, mas o sentimento de solidão confortava-a. A última coisa que queria era alguém ao seu lado que fosse o espelho de tudo aquilo que estava a sentir, de todo o sofrimento que ainda andava a evitar. Iria ser operada naquela manhã e precisava de tempo para respirar, tempo para pensar, tempo para refletir em tudo aquilo que a operação implicaria. Tudo aquilo que representava a sua feminilidade seria removido naquele dia, naquela manhã, dali a poucas horas. Seria menos mulher por causa disso? O seu marido continuaria a amá-la e a desejá-la como até ali? Seria ela capaz de se olhar ao espelho? Os seus seios sempre foram a parte do seu corpo que a ela mais agradava, da qual mais se orgulhava e de um momento para o outro tudo se transformaria, tudo seria diferente...

    Susana possuía uma pequena loja de lingerie na Trofa e tudo fazia para que as suas clientes saíssem do seu estabelecimento a sentirem-se mais belas e atraentes. Ela própria adorava usar tudo aquilo que favorecesse as suas curvas... as suas lindas curvas... que deixariam de existir...

    Ela sempre fora uma mulher alegre, descrita pelos outros como uma pessoa cheia de vida, capaz de animar qualquer alma inerte. Sempre viu o copo meio cheio, nunca meio vazio, mas naquele dia, naquele momento, não era capaz de o fazer.

    Susana tinha um rapaz de cinco anos e uma rapariga de quatro e era neles que tentava pensar, eles ainda eram tão novinhos, ainda precisavam tanto dela...

    Quando o seu marido e os seus dois filhos entraram no quarto, ela tentou ser a pessoa alegre e forte que todos conheciam, mas a preocupação e a tristeza eram evidentes no seu olhar.

    - Mamã, não fiques triste! – disse o menino – Vais ficar boa num instante. Eu vou dar-te muitos miminhos!

    - Eu também, mamã! – sussurrou a menina, fazendo sinal ao pai para a colocar na cama, junto à sua mãe.

    A mulher de quarenta anos abraçou os seus dois filhos com toda a força que era possível e olhou para o seu marido que tentava evitar que as lágrimas lhe corressem pelo rosto. Uma troca sussurrada da palavra “Amo-te” aconteceu entre os dois e em nenhum momento ela tinha sido sentida de forma mais forte! Foi nessa altura que ela descobriu que podia cair, pois teria quem a ajudasse a levantar; foi nessa altura que ela descobriu que o seu corpo podia mudar, mas sempre teria alguém para a amar; foi nessa altura que ela descobriu finalmente que nunca esteve só e só nunca iria querer estar.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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