Um grupo de pessoas estranhas

por Alexandra Santos 0

(o presente texto é uma obra de ficção) 

    Dona Alzira provinha de uma família perfeita. Residente no concelho da Trofa, de raça branca, católica, desde cedo aprendeu os bons costumes de uma pessoa de bem: ia à missa todos os domingos, rezava todas as noites, ajudava a angariar fundos para as reparações da igreja, era asseada, decente e dava esmolinhas aos pobrezinhos que lhe apareciam na rua. Dona Alzira vivia feliz na sua pequena comunidade, rodeada de pessoas tal e qual como ela, já com filhos e netos que educou da mesma forma e acreditava ter o seu lugar no céu garantido.

    Um dia, apareceu um grupo de pessoas estranhas à sua comunidade, com um tom de pele diferente do seu e com um aspeto muito pouco higiénico. Uma família dessa gente esquisita instalou-se mesmo em frente à sua casa, num pequeno casebre, e Dona Alzira sentiu-se ultrajada. Pelas imensas conversas com as vizinhas, tinha descoberto que era gente má, das terras dos que acreditam noutro Deus e que usam bombas amarradas ao corpo para matarem todos aqueles que não têm as mesmas crenças. “São todos terroristas e querem conquistar o Ocidente”, ouvia, sem saber exatamente o que era um terrorista ou onde começava o Ocidente, mas era coisa muito má, isso sabia ela. Dona Alzira ficou tão assustada que decidiu proteger a sua comunidade contra gente tão infame. Para isso, foi fazer queixa à Câmara Municipal da Trofa, mas não lhe deram a devida atenção. Foi depois falar com o padre, que a aconselhou a acreditar na bondade de todos até prova em contrário, conselho que ela desprezou. Não conseguia acreditar como aqueles que mais poder tinham nada faziam para evitar uma catástrofe que ela estava certa que iria acontecer. Decidiu, por conseguinte, tratar do assunto com as suas próprias mãos. Falou com todas as pessoas que conseguiu e ajudou a que todos ficassem convencidos que aquela família de seis elementos, um casal e quatro filhos, ainda crianças, eram iguais ao demónio, com capacidade para dizimar todo o concelho. Fizeram então uma marcha até casa deles com cartazes e cânticos bem chamativos onde se podia ouvir frases do género: “Vai-te embora, terrorista”, “Não vos queremos aqui, demónios!” ou “Lancem as vossas bombas noutros locais!”. Não se sabe bem como, mas os ânimos exaltaram-se e um elemento do grupo, do sexo masculino, repleto de ódio dentro de si, pelo mal que nunca ninguém lhe fez, mas acreditava que iam fazer, lançou a primeira pedra contra a pequena casa degradada, partindo uma janela. Outras pedras se seguiram depois dessa, até que se ouviu um grito lá de dentro. Alguém se tinha magoado. Naquele momento, fez-se silêncio e as pedras pararam. Todos queriam saber o que tinha acontecido. Dali a poucos segundos, a porta abriu-se e saiu o homem com uma criança nos braços. Dona Alzira nem conseguia acreditar, será que tinham atingido uma criança? À medida que o homem avançava, Dona Alzira começava a sentir um terror maior dentro dela, a criança era-lhe familiar, muito familiar… era o seu neto mais novo, de seis anos, que gostava de se escapulir para brincar com os filhos daquela família que odiava. Tinha sido atingido na cabeça, derramava sangue e o seu pulso parecia fraco. Diante de uma multidão perplexa e paralisada, o homem deitou, cuidadosamente, o rapaz no chão e o seu olhar acompanhou os movimentos da Dona Alzira, que se ajoelhou diante do rapaz, a chorar.

    No olhar daquele homem não havia raiva, nem vontade de vingança, apenas pena. Virou costas, regressou a casa e trancou a porta, enquanto desta vez era Dona Alzira que o observava, pensando que, afinal, apesar de não ser da sua religião, tinha sido mais cristão do que todos eles.

 

Moral: O preconceito gera medo e o medo gera violência. Não julgue ninguém sem o conhecer.


Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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