Borboleta

por Alexandra Santos 0

     (o presente texto é uma obra de ficção)

 

     Madalena ia de autocarro para o trabalho, a única altura do dia só para si. Normalmente, na viagem até à Trofa, entretinha-se a ver a paisagem, ou simplesmente a ouvir a conversa das outras pessoas. No entanto, naquele dia, ia demasiado triste e pensativa. Teve vinte minutos para refletir sobre a sua vida e desejou não os ter tido. Não gostou da conclusão a que chegou. Estava cansada, cansada do marido que não a apreciava, cansada dos filhos adolescentes com quem já não conseguia comunicar, cansada das tarefas domésticas que só a ela cabiam, cansada do trabalho castrador de sonhos e aspirações, cansada de viver apenas para a vontade dos outros. Por isso, naquele dia, às nove horas da manhã, ninguém a encontrou onde ela devia estar. Por isso, às nove horas da manhã, como que conduzida por uma urgência divina, decidiu não entrar no local onde trabalhava há mais de quinze anos e, mesmo em frente à porta do edifício, decidiu entrar noutro autocarro.

     Foi ter ao Parque da Cidade do Porto e lá parecia que conseguia finalmente respirar. A natureza fazia-lhe falta, fazia-lhe bem. Era um dia de outono atípico, ainda com sabor a verão, sentia-se apenas uma pequena brisa, e o céu azul e branco formava imagens na sua imaginação. Uma borboleta que se recusou a seguir as exigências da estação surpreendeu-a, esvoaçando um pouco em seu redor, e ela não conseguiu deixar de sorrir e pensar em quanto a vida era incrível. Olhando ao seu redor, via crianças, muitas famílias que lhe recordavam a sua e todas as alegrias esquecidas do passado.

     Por volta das nove horas da noite, Madalena regressou a casa. Todos a esperavam inquietos, pois não era usual que a esposa e mãe que todos conheciam desaparecesse e permanecesse incontactável, sem deixar uma nota, um recado. Diante de um interrogatório insistente, pediu ao seu marido e aos seus dois filhos que se sentassem no sofá. Entregou-lhes um horário com todas as tarefas domésticas a desempenhar por cada membro familiar, onde constava igualmente o tempo que ela dedicaria a si própria por semana a atividades de lazer à sua escolha. Contou-lhes que pediu uns meses de licença do trabalho, que já não queria ser a assistente administrativa que tinha sido até então e queria tentar abrir um pequeno negócio na área do design. Depois de uma pausa sem reação por parte dos ouvintes, Madalena continuou a surpreender e mostrou-lhes bilhetes para uma viagem em família a Itália. A cada nova revelação, a família olhava para ela estupefacta, nunca a tinham visto tão firme, tão determinada, com tal brilho no olhar. O marido, com receio, mas orgulhoso daquela nova mulher que se encontrava à sua frente, não resistiu e perguntou-lhe o significado e a razão daquilo tudo. Ela abraçou-o e respondeu-lhe: “É o acordar da apatia. É a mudança. É o amor, a borboleta e a esperança”.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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