Adélio Dani - Episódio I

por José Calheiros 0

Adélio Dani é um jovem de trinta e três anos que sonha ver a família unida, e seus pais sonham que ele seja bem sucedido na vida. Mora com a mãe, Belaflor, carinhosamente chamada de Dália, florista de profissão. O pai, para melhorar a qualidade de vida da família, saiu de casa há dezasseis anos para embarcar numa traineira para ir à pesca do bacalhau…ainda não voltou.

A vizinha da frente, diz que o barco naufragou e ele morreu. Esta possibilidade foi o click para Adélio Dani pensar durante quinze segundos, em seguir a carreira de nadador-salvador. A vizinha do lado diz que tem visto o pai de Adélio Dani, nos últimos dezasseis anos, na freguesia da Areosa, sempre acompanhado de mulheres! Esta segunda possibilidade mantém, em Dália, a esperança secreta de que Augusto regresse a qualquer momento da faina…com o bacalhau!

 

A noite carregada de cinzento e a chuva persistente fazia o ribeiro que atravessa Campanhã rasgar as margens, quando num barraco, bem próximo, rompem as águas de Dália. Sem nenhum sinal celeste no céu, nem um sequer relâmpago, nesta noite de tempestade a anunciar um nascimento especial, no momento do parto, a mãe berra, bem alto, o nome do seu ídolo de sempre: - “ALAAAAAAIN DELONNNNNN!”. O berro termina quando sai o último pedacinho de bebé do ventre. Em choro é colocado num berço de palha por Rubi, que apanha o recém-nascido pelo cachaço. Durante este momento de ternura entre o cão e o novo membro de família, Augusto, possuído pelos ciúmes, sentimento superior à paternidade, berra com a mulher:

- Sua tola, até no nascimento do nosso filho tu pensas nesse gajo?! – Grita Augusto enquanto rasga a camisa.

- Boa! Não te compro outra! – Diz Dália.

- O quê?! – Augusto olha para si mesmo, e continua – O que é que eu fiz?! A minha melhor camisa! – E voltando a fixar a mulher, muda o tom de voz para berros: – Visto a minha melhor camisa para o pato e…

- Para o parto, para o parto. – Corrige Dália, num tom de paciência.

- Para o parto e tu dizes o nome desse Alain Delon, sua vadia!

- O quê?! Seu pescador de meia tigela… tu deves ter escamas nas orelhas. O que eu disse foi: “ Pelo meu querido filhinho, suporto qualquer dor. Sou uma leoa!” – Esclarece Dália, num tom exaltado.

- Aaahh, leoa! Tu és uma leoa! Enganaste-me bem, para me apanhares no altar… eu era o teu amor, eras do FCP, sabias fazer bainhas…e agora és leoa? Só falta jogar um Alain Delon no Sporting! Sua minhoca! Enganaste-me bem, enganaste!

- Tu é que me enganaste quando te conheci! Dizeres-me que praticavas pesca desportiva no teu barco, e eu a pensar que eras rico, e tu ias era à apanha da sardinha…seu falso!

- Aaahh, falso eu?! Iludida! Tu ouvias o que querias! Eu disse-te, e várias vezes, que praticava pesca da tainha, na traineira do meu primo Angelino!

Rubi, o cão da família, achando que aquele ambiente não era propício para um bébé, apesar de ser um pouco mais colorido do que cá fora, decide intervir e pôr um ponto final na discussão:

- Papá, mamã! – Ladrou Rubi!

Dália e Augusto, pasmados olham para trás, em direção ao berço de madeira onde está deitado o bebé.

- Oi… isto é milagre! O nosso menino falou! – Exclama Dália.

E os dois aproximam-se do berço:

- Mas ele está a dormir! – Diz Augusto.

- Mas falou, não ouviste? – Pergunta Dália.

- Ouvi, ouvi… temos que lhe dar já um nome. Se calhar amanhã vai-nos perguntar como se chama! Tens alguma ideia? – Pergunta Augusto.

A vontade de Dália era de pôr o nome do seu ídolo de sempre, Alain Delon, por quem se apaixonou muito nova, quando no quiosque onde costumava comprar o almanaque trimestral de ponto-cruz, viu-o do lado de lá, pendurado na capa de uma revista, foi amor à primeira vista. Mas isso iria trazer discussões diárias ao seio da família, devido aos ciúmes de Augusto.

- Não, não tenho nenhuma ideia! E tu?

- Sei lá, deixa-me pensar…humm… já sei. Podíamos pôr o nome do meu primo Angelino! – Propõe Augusto.

- Estás louco. Para me lembrar sempre desse chato, não?! – Retorquiu Dália.

- Então podia-se chamar Emília! – Diz Augusto.

De repente, furiosa, Dália agarra a pilinha do bebé e diz:

- Estás a ver esta ferramenta? Isto é macho! – Depois aponta para Augusto – Tu, burro!

- É que eu sempre gostei do nome Emília! Podíamos chamá-lo de João Emília! – Defende-se Augusto.

Dália, por momentos, entra no domínio do delírio e imagina-se feliz com Alain Delon e o filho de ambos. De volta ao mundo real, para ela não muito melhor do que o tempo lá fora, não por não gostar do marido, mas por não ter o seu amor próximo, responde-lhe:

- Esquece, já sei como ele se vai chamar. O nosso menino vai-se chamar Adélio Dani!

Dália acha este nome parecido com Alain Delon. Desta forma evita os ciúmes de Augusto e sente o seu ídolo mais presente.

 

Nos dias seguintes, apesar das insistências de Dália e Augusto para fazerem conversa com o filho recém-nascido, Adélio Dani apenas chorava, dormia e mamava.

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