Adélio Dani - Episódio II

por José Calheiros 0

Nos dias seguintes, apesar das insistências de Dália e Augusto para fazerem conversa com o filho recém-nascido, Adélio Dani apenas chorava, dormia e mamava.

 

Quando completou uma semana de vida, os pais de Adélio Dani, perante as capacidades intelectuais do bebé, decidem matricular o filho na Faculdade de Economia do Porto.

Nesse dia à tarde, entram na Faculdade e dirigem-se à portaria.

- Boa tarde, eu e a minha senhora, gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio”, para o porteiro.

- Subam a escadaria e dirijam-se à receção. – Indica o senhor da portaria.

Chegados à receção:

- Boa tarde, eu e a minha senhora gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio", para a senhora da receção.

- Dirijam-se ao Conselho Diretivo, ao fundo do corredor. – Indica a senhora da receção.

Chegados ao Conselho Diretivo:

- Boa tarde, eu e a minha senhora gostávamos de falar com o reitor da Faculdade! – Diz Augusto, de “papo cheio”, para a menina que o atendeu.

- Isso tem que ser na receção. A Dona Alzira é que tem que marcar o encontro.

- Mas já estivemos lá e ela disse para virmos aqui! – Diz Augusto.

- Isso é bom! Assim já sabem o caminho para a receção. – Diz a menina com um sorriso rasgado, enquanto Dália pensa: “Pregava-te era com uma faneca nas trombas!”.

Chegados novamente à receção:

- Outra vez! – Exclama dona Alzira, a rececionista.

- Pregava-te com uma lampreia nas trombas! – Resmunga Dália, baixinho com os dentes serrados a tentar manter a calma.

- Pois é, no Conselho Diretivo, disseram-nos para virmos aqui para marcar um encontro com o reitor. – Explica Augusto.

Dona Alzira, a rececionista, “passa-se”:

- É sempre a mesma coisa...tudo para mim. Queria ver como é que esta mer…esta Faculdade funcionava sem mim! Sempre eu, sempre eu! Tudo o que é trabalhinho, sempre, sempre para mim! Sempre a mesma coisa…mais uma caixinha, mais uma caixinha!

Nesse dia de trabalho, dona Alzira tinha feito dois telefonemas, um deles para o marido, e tinha passado o resto do dia a fazer croché! Faz a ligação para o Reitor:

- Tou, Sr. Reitor, está aqui um casal com um bebé, para falarem com o Sr. Doutor!

- Um bebé?! Ui, é meu filho ou afilhado? – Pergunta o Sr. Doutor.

- Só um momento! – Diz a dona Alzira ao Reitor e dirige-se para Augusto e Dália. – A criança é filha do Reitor, ou tem alguma relação de parentesco com ele?

- Não, o filho é do meu Augusto, e aqui, só a senhora conhece o Sr. Reitor! – Responde Dália chateada com a insinuação.

De novo ao telefone:

- Sr. Doutor, a criança não é nada a si. – Diz Alzira.

E do outro lado da linha:

- Então o que é que eles querem? – Pergunta o Reitor.

De novo virada para o casal, Alzira pergunta:

- O que é que querem?

 - Diga ao senhor Reitor, que temos aqui um fenómeno! – Diz Augusto.

E de regresso ao telefone:

- Senhor Doutor, o fenómeno! Eles dizem que têm aqui o fenómeno!

- O CR7 está aí? – Pergunta o Reitor.

- Não! Já lhe disse, aqui está um casal com um bebé! – Diz Alzira, com cara de parva.

- Eles que esperem! Eu desço já! – Disse o Reitor intrigado.

Chegado à receção o reitor pergunta:

- Então dona Alzira, é este o casal?

- É , Sr. Reitor!

- E o fenómeno? – Pergunta o reitor, virado para o casal.

- É isto…o bebé! – Responde Augusto em tom sepulcral, elevando o filho com os braços.

- Não se importa de baixá-lo para eu poder vê-lo? – Pede o reitor.

- Ah, sim, sim. – Responde Augusto, como que voltando à realidade, e baixa o bebé.

- A mim parece-me normalzinho…uma cabeça, duas pernas, duas mãozinhas, uma pilinha…porque é rapaz…normal! – Aprecia o reitor.

- Normal o quê? É o mais bonito de todos! – Responde Dália, chateada.

- E um fenómeno! – Repete Augusto.

- Mas ele é superdotado? – Pergunta o reitor.

- Não, o meu menino é hiperdotado! – Responde Dália, com firmeza.

- Vamos até ao meu gabinete! – Diz o reitor

Todos sobem ao gabinete do Sr. Reitor, de onde ele faz um telefonema para um amigo médico, especializado em pediatria, que tinha tirado uma hiperespecialização em pediatria fenomenal, a quem pede para ir à Faculdade, para analisar o bebé Adélio Dani.

 

- Hum, hum, hum, hum, sim, sim, sim, nha, nha, nha, ooooohhhhh, este bebé realmente é hiper… - Diz o médico, quando sem ter acabado, é interrompido por Augusto.

- É hiperdotado!

- Não! Mas não fiquem tristes, pois o bebé, tão novinho e já é HIPERtenso e HIPERcondríaco! – Diz o médico.

- Obrigado meu amigo médico, já podes ir. – Diz o reitor ao médico, acompanhando-o à saída e empurrando-o para fora do gabinete. Fecha a porta.

- São 100 €! – Ouve-se do lado de fora.

Voltando para a beira de Dália, Augusto e Adélio Dani, o Reitor mais esclarecido, diz:

- Pois nada garante que ele seja hiperdotado.

- Mas é, Sr. Reitor. O nosso bebé com três minutos de vida já falava! – Diz Augusto.

- Eh pá, realmente isso é fenomenal! – Exclama o Reitor.

 - Pois é, por isso é que viemos aqui. Para matriculá-lo na Faculdade! – Explica Augusto.

- Hi, hi, não pode ser! – Diz o Reitor.

 - Mas ele é mesmo fenomenal, pode vir a ser Presidente! – Diz Dália.

 - Da República? – Diz o Reitor admiradíssimo.

- Não! O meu sonho é que ele seja presidente de uma mesa de voto numas eleições autárquicas! – Diz Dália, com o pensamento no mundo dos sonhos.

- Bem, ele pode ser hiperdotado, mas tenho que lhe fazer uma prova oral! – Diz o reitor.

- À vontade. – Dizem Dália e Augusto.

- Como é que o bebé gosta de ser tratado? – Pergunta o reitor.

- Élio, Adélio! – Responde Augusto, cheio de orgulho.

O reitor pega no bebé e senta-o numa cadeira enquanto ele se senta noutra. Quando se vira para Adélio, ele já estava tombado. Augusto, prontamente pega no filho e:

- Bebé mimado. – Repara o reitor, e continua: – Muito bem Adélio, se realmente queres entrar na Faculdade de Economia, vou fazer-te umas perguntinhas. Se acertares, és matriculado, percebes?

Adélio Dani, sorri!

- Muito bem. Adélio, qual é a tua opinião sobre os princípios da economia política e da tributação, baseada na teoria da distribuição do excedente entre as diversas classes sociais? – Pergunta o reitor, tendo noção que fez uma pergunta difícil.

Adélio Dani, atacado pela fome, porque estava na hora de mamar, desata a berrar. Ao fim de um minuto de berros, o reitor intervém:

- Adélio, chega! Tens razão, eu acho o mesmo. “Os princípios da economia política e da tributação” são de berros! Agora cala-te e vamos à segunda pergunta. Descreve-me a “Teoria das vantagens absolutas”.

Dália estava ao lado do seu filho, e este agarra-se à sua mama para saciar a fome.

- Muito bem Adélio, tens uma semaninha apenas e pensas exatamente como eu. A “Teoria das vantagens absolutas” é para mamões! Sabes mais do que alunos que estão no último ano!

Neste momento a expressão do reitor é de enorme espanto, enquanto os pais sorriem, como se já estivessem à espera daquele desempenho.

- Vou fazer mais uma pergunta, cuja resposta está ao alcance de poucos! – Diz o reitor, e pergunta: - Bebé Adélio, o que achas da relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein?

Mal o reitor termina a pergunta, Adélio acaba de mamar e arrota e de seguida lança um pequeno vómito.

- Hei pá, é isso! O que Arrighi e Wallerstein disseram é um vómito, um arroto de porcaria! – Exclama o reitor.

Sem perder tempo telefona para um colega que lhe estava a preparar um discurso para ser apresentado no “Congresso Ibérico de Economia":

- Tou, Pires, sou eu. Já escreveste a parte do discurso sobre a relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein?

- Mal acabei de por o “ponto final”, tu ligas-te. Queres que te envie por e-mail? - Pergunta o Pires do outro lado da linha.

- Esquece, apaga e refaz essa parte! Vais escrever que “a relação entre política e economia, nas teorias de Arrighi e Wallerstein”, são um arroto, um verdadeiro vómito de leite! – Dita o reitor, desligando de seguida. Vira-se para a família maravilha e continua: – Muito bem meus senhores, vamos tratar da matrícula do vosso Adélio Dani, e certamente vai ter direito a bolsa!

- Ó, ó, ó Sr. Reitor, eu e a minha senhora tentamos acompanhar o evoluir dos tempos, mas não dá para oferecer uma bola de capão ao nosso menino? – Pergunta Augusto.

- Não percebo! – Diz o reitor.

Dália baixa as calças do menino, aponta para a pilinha de Adélio Dani e diz:

- Ó Sr. Reitor, está a ver isto?

- Um pénis! – Diz o reitor sem estar a perceber nada.

- Acha adequado uma bolsa para um menino? Não é melhor uma bola ou até uma fisga?! Mais um bocadinho oferece-lhe uma tatuagem no “Tania’s Tatoo Body”! – Remata Dália.

- Não, não estão a perceber! O que eu quis dizer é que o vosso filho receberá dinheiro para estudar. – Esclarece o reitor.

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