Adélio Dani - Episódio IV

por José Calheiros 0

Quando tomou consciência de si como pessoa materialista e se apercebeu que não pertencia a uma família bafejada pela sorte, de imediato se revoltou com os pais, não lhes dirigindo a palavra durante três meses. Victor Incertâncio não entendia como sendo o pai e a mãe, pobres, nem um nem outro procuraram alguém rico para se casarem.

Foi para a primária aos sete anos, um pouco mais tarde que os outros meninos, pois tinha que levar os dois bois e a vaca da família para o campo logo pela manhã. Só quando o irmão mais novo fez cinco anos e, segundo os pais, já estaria na idade de assumir responsabilidades e deixar as brincadeiras de canalha, foi substituído na actividade de levar os animais para o campo e ingressou na Escola Primária de Campanhã.

Mais por burrice dos coleguinhas do que por inteligência própria, Victor Incertâncio distinguia-se dos restantes.

Quanto é 2x1? – Pergunta a Professora Luísa ao Nando, que se encontra no quadro.

O tempo passa e a hora para o recreio aproxima-se. Todos os meninos pensam, “Responde”.

A vontade de que Nando respondesse era para poderem ir para o intervalo e por medo que a professora direccionasse a pergunta para outro. O único com alguma certeza do resultado é Victor Incertâncio, que tem a certeza que o resultado é “dois” ou “três”.

- Ninguém sai da sala, enquanto o Nando não responder. – Impôs a professora.

Com o Nando cada vez mais nervoso, a matutar qual será o resultado da conta de “vezes”, a professora perde-se nos seus pensamentos, revelando um sorriso, na expressão austera, preso ao passado, em que recorda o boato transmitido por uma prima, de que um primo do amigo do primo, irmão da prima, estaria apaixonado por ela e com intenções sérias de casar. O casamento nunca chegou a acontecer, porque eles nunca se chegaram a conhecer! Ainda hoje, a professor Luísa diz-se solteira por opção, apesar de ter vivido um grande amor!

Já muito depois da hora do recreio, Luísa “desperta” e fecha a expressão:

- Menino Nando, 2x1?

- Não sei, professora! – responde Nando, a chorar.

- São “2”! – Dispara a resposta, Victor Incertâncio, sem ter a certeza, num golpe de sorte.

- Muito bem! – Elogia a professora, confundindo o golpe de sorte, com inteligência.

E assim seria a sua vida, feita de golpes de sorte e “chico-espertices”, que determinariam a sua ascensão. Durante a adolescência pagou os estudos superiores com o dinheiro ganho a jogar bilhar, sempre com o mesmo adversário, escolhido a dedo, o Abílio, portador de Trissomia 21, na altura chamado de mongoloide. Os pais de Abílio, não se importavam com o facto de o filho perder muito dinheiro no jogo, esta era a forma dele ter um amigo, nem que fosse interesseiro. Mas a amizade ficaria para a vida.

Pouco depois de se ter formado em Economia e tudo perspectivar uma carreira profissional a “chular” o Bilinho, este, numa tarde quente e aborrecida de Verão, parte o polegar da mão direita a lançar um pião. Quando Victor Incertâncio recebe a notícia, o mundo quase que desabou com a forte possibilidade de ter que trabalhar, mas rapidamente arranjou solução...fundou um banco, vivendo à grande, sempre com o dinheiro dos outros!

 

Actualmente, em Campanhã, encontra-se a sede do BISCAA, Banco de Investimentos Seguros com Alguns Azares, cabeça de um importante grupo financeiro, com monopólio em todas as actividades em que o dinheiro possa ser ganho com práticas pouco claras, usando tráfico de influências e à custa dos melhores talentos que Vitor Incertâncio “busca” nas Universidades.

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