Adélio Dani - Episódio V

por José Calheiros 0

O senhor de meia idade que, de pé, aplaude Adélio Dani, é Victor Incertâncio, representante de um grupo de banqueiros, que está acompanhado na palestra pelo reitor.

- Formidável o cachopo. O raio do puto é tramado, só vê dinheiro! É disto que estamos à procura! – Comenta Victor Incertâncio com o reitor.

- Ele é o melhor dos melhores! – Diz o reitor.

- Quero falar com o gajo! – Diz Victor  Incertâncio, com o seu palavreado agressivo e pró-activo, adquirido após um curso de duas tarde sobre PNL (Programação Neuro Linguística). Antes disso falava baixinho e timidamente, sem nunca confundir a pronúncia dos V’s com os B’s.

- Trato já disso! – Responde o reitor.

Depois de enfiarem uma chupeta em Adélio Dani, este cala-se e é levado juntamente com os pais, para um escritório, onde já estava Victor Incertâncio. São colocados frente a frente, numa secretária de onde mal se via a cabeça de Adélio.

- Pois é pá! – Diz Victor Incertâncio, num tom viçoso e prosseguindo no mesmo tom. – Arrasaste! Adorei o teu discurso que abre novas linhas de pensamento para a economia moderna. Tocaste na palavra-chave:  SE-MA-NA-DA! A malta antes não recebia nada e de um momento para o outro começa a receber mesadas! Isto há décadas. Há que mudar outra vez de paradigma e a solução para a crise passa pela SE-MA-NA-DA! És um rato de cofre, nasceste para tramar os outros…aaahh, gosto disso!

Após estas palavras, Adélio Dani continua sentado e a mamar na chupeta! Rubi sente que tem de fazer algo:

- Obrigado! – Ladrou Rubi.

- De nada rapaz, és um génio. Quero-te comigo no meu Banco, tenho um contrato para ti! Vais ser rico e aldrabão! Que idade tens? – Pergunta Victor Incertâncio.

Adélio Dani percebeu a pergunta e levanta a mão com os dedos abertos, indicando os seus cinco anos.

- O quê? Só tens cinco anos? Assim não dá! – Exclama, surpreso, Victor Incertâncio.

- Cinco e meio, Sr. Victor Incertâncio, cinco e meio, já não é uma criancinha de quatro ou cinco anos! O meu rapaz está um homem! – Argumenta Augusto.

- Pois, mas nos Bancos que represento, ninguém trabalha com menos de dezasseis anos! Quer dizer, tirando os cinco negros e oito chineses de nove anos! Mas brancos, só na legalidade!

- Ó Sr. Doutor Victor Incertâncio, o meu Adélio fica moreno muito depressa, o sol pega-lhe bem. Ele com quatro ou cinco sessões de solário parece um pretinho! – Diz a mãe.

- Pois é! E no verão passado é que foi cómico, ao terceiro dia de praia ele já estava tão escuro, que quando entrávamos no nosso sector as pessoas levantavam os braços, hi, hi! – Reforça o pai.

- Ui, e vocês, como lidavam com a situação? – Pergunta Victor Incertâncio.

 - Muito bem, aproveitámos e assaltámos as pessoas! Foram umas férias que ficaram muito em conta! – Explica o pai Augusto.

- Sim, sim, sim, sim…. – Diz Victor Incertâncio, quando é interrompido por Augusto.

- Sim, sim, ele é contratado? – Pergunta.

- Não, não, não! Mas sim, sim, sim, ele pode parecer pretinho, mas na realidade é um branco hiperdotado, com cinco anos e meio…e eu sei-o!

Após estas palavras, Victor Incertâncio levanta-se e abandona a sala para nunca mais ser visto. Corre o boato de que mudou o nome para Victor Constâncio e começou a usar óculos. Nasceu a lenda!

Na sala, os pais de Adélio Dani e o reitor ficaram atónitos e sem reacção. O reitor telefona novamente para o seu amigo médico e pede a sua comparência com urgência na sala de reuniões da Faculdade de Economia. Nas calmas, o amigo médico apareceu:

- E então?! – Diz ele.

- Só agora? – Pergunta o reitor.

- Ainda me deves 100 €. Por isso tenho tempo para apanhar outro calote! Que me quereis, caro amigo? - Pergunta o médico.

- Cortaram as pernas ao Adélio, o hiperdotado! – Explica o reitor.

- Mas ele está a correr atrás do cão! – Repara o médico.

- Não percebe Sr. Doutor? Cortaram as asas ao nosso menino! – Diz a mãe.

- Mas ele é um menino, não tem asas. No máximo podem cortar-lhe os bracinhos ou as perninhas! – Repara novamente o médico.

- Não o deixaram voar! – Diz o pai.

- Ainda bem que houve alguém com juízo! Olhe que o resultado não ia ser muito bom! Então, pôr o menino a voar?! Tem algum jeito?! – Diz o médico.

Enquanto os adultos conversam, Adélio Dani continua a brincar com o seu maior amigo, o Rubi.

- Vocês estão loucos? Quanto ao miúdo, tenho de o examinar! – Diz o médico.

Após algum tempo de auscultações, o médico dita o veredito:

- Tenho boas notícias. A hipertensão detectada há cinco anos atrás passou, hipercondríaco parece-me que já não é!

- E hiperdotado?! – Perguntam os pais Augusto e Dália.

- Como há cinco anos atrás…não me parece! – Diz o médico.

- Mas, não tem nada de hiper?! – Pergunta Dália.

- Sim, tem! Parece-me hiperactivo! Dêem-lhe Hiperrastosoi, uma pastilha por dia. É um boião de 45625 pastilhas. Guarde o boião num local fresco e arejado e isto dá até aos cento e trinta anos da criança! – Aconselha o médico.

- Ó, ó amigo médico, quanto é da consulta? – Pergunta o reitor.

- 1200 €. – Diz o médico.

- Aahh, o quê? Eu pedi uma consulta, não foi um assalto! – Diz o reitor, indignado.

- 1000 € da primeira consulta, há cinco anos atrás, que foi 100 € mais juros de mora, e 200 desta! 1200€! – Explica o médico.

- Obrigado meu amigo médico, já podes ir. – Diz o reitor ao médico, acompanhando-o à saída e empurrando-o para fora do gabinete e fechando a porta.

- São 1200 €! – Ouve-se do lado de fora da porta.

De volta ao centro da sala e virado para os pais de Adélio Dani, o reitor prossegue:

 - A idade do Adélio foi um percalço, vamos manter a calma! Vamos usufruir da inteligência do menino, vamos fazer-lhe umas perguntas difíceis!

- É isso, bem visto! – Dizem os pais.

Adélio Dani continuava a brincar com o Rubi. O reitor pega nele e senta-o na cadeira.

- Adélio, vamos brincar às perguntas difíceis! Se eu apanhar uma nave espacial e for daqui à lua, lá compro três rebuçados a 3 € cada um, por causa da falta de gravidade, depois vou a Marte e não vendo nenhum, mas troco dois por uma cratera e depois regresso à Terra. Perante este cenário, qual é a inflação na Zona Euro?

- Olááááááá! – Responde Adélio com um sorriso rasgado.

- Acertou?! – Perguntam Augusto e Dália ao mesmo tempo, entusiasmados.

-Aaaah, não, não acertou! Esta devia ser fácil demais para ele, que nem quis responder! – Diz o reitor, e prossegue: – Bem aqui vai outra…puxadinha! Adélio, qual é o cosseno de x, sabendo que o seno de y é igual a 20 + cosseno de x?

- O papá ressona! – Responde Adélio.

- Acertou, ele é mesmo fino! – Diz a mãe com um sorriso e toda vaidosa do seu menino.

- Não, não acertou!  - Diz o reitor, começando a sentir-se confuso.

- Então qual é a resposta? – Pergunta o pai.

- Não sei, mas “O papá ressona”, não é com certeza! – Diz o reitor e lança nova pergunta. – Adélio concentra-te. Quanto é 2+2?

- 7. Quero brincar! – Responde Adélio.

- O menino deve ter tido um esgotamento! – Palpita o reitor.

 

É final de tarde, após completar um curso superior exigente, Adélio Dani, o menino de cinco anos e meio, hiperdotado, comporta-se como um menino normal de cinco anos e meio! Augusto e Dália, juntamente com o filho, o tio Narciso e o cão Rubi, abandonam as instalações da Faculdade de Economia e dirigem-se para casa, abananados com a partida que o destino lhes pregou. Na rua Joaquim Azevedo, já em Campanhã, avistam na porta de uma garagem um cartaz que anuncia: “Neto, o vidente, adivinha o passado e o presente.”

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