Adélio Dani - Episódio VIII

por José Calheiros 0

Nasce um novo dia e bem cedo, Augusto, o chefe de família, é o primeiro a sair. Ia embarcar numa nova aventura e distante, ia para a pesca do bacalhau, nos mares do norte.

Enquanto os outros dormem:

- Ó mulher, já vou, dá-me um beijinho.

- Aaahhh, que horas são?

- São seis da manhã!

- Deixa-me dormir! – Responde Dália, virando-se na cama e ficando de costas para Augusto.

- Nem um beijinho?! Eu vou estar fora três semanas!

- Aaahhh, não te esqueças de fechar a porta! – Diz Dália, mais a dormir do que acordada.

Augusto sai do seu quarto e vai à arrecadação da casa, onde dorme o seu filho Adélio.

- Adélio, Adélio, acorda filho. Já vou para a faina, dá-me um abraço!

Adélio acorda completamente estremunhado e assustado. Quando se apercebe de um vulto no seu quarto, pensa tratar-se do chefe dos escuteiros e diz: – Rubi, ataca! – E deixa-se cair novamente na cama!

Augusto é corrido da sua própria casa, por Rubi, o fiel amigo e proctetor do filho.

Ferido no coração, com o tratamento que teve por parte da família, Augusto em vez de embarcar, foi para a Areosa, onde mora o seu melhor amigo, Zé Kalanga, um angolano que conheceu ainda nos tempos do ultramar. Toca à campainha, são sete da manhã e a porta abre-se às dez:

- Zé Kalanga, amigo, a casa deve ser grande. Estou a tocar à campainha há três horas!

- É pequeninha, é um T0! A campainha está avariada, por acaso ia sair agora!

- Vais trabalhar, amigo?

- És burro, pá?! Para trabalhar ficava na minha terra, aqui tenho casa e subsídio! Mas eu conheço-te? – Pergunta Zé Kalanga, intrigado com este desconhecido.

- Sou eu o Augusto, conhecemos-nos no ultramar e depois aqui. Ainda éramos jovens, tu tiravas-me as namoradas todas! Lembras-te?

- Fogo! E tu ainda és meu amigo?

- Sou!

- Então, não casaste?

- Casei! Mas aí não fui burro, casei com uma mulher muito feia, que de bonito só tem o nome, e tu não quiseste nada com ela!

- Eh pá, mas eu não me lembro de ti!

- Estás a brincar Zé Kalanga? Ainda há três dias falamos ao telefone e deste-me esta morada!

- A sério? – Exclama Zé Kalanga.

Zé Kalanga, já há muito tempo que se sente com algumas falhas de memória, mas desconhece que tem uma doença rara. Só tem memória dos últimos dois dias! Augusto tenta relembrar um momento inesquecível que os dois tenham passado juntos.

- Sabes esta moda dos velhos andarem fora de mão nas auto-estradas? Nós fomos os pioneiros, quando éramos jovens e descemos a circunvalação no mesmo carrinho de rolamentos, em contramão.

- Fogo, não me lembro!

- Então?! Íamos a descer e enfaixámos-nos numa motorizada que transportava todo o agregado familiar! Não te lembras? Fomos sete para o hospital e dois cães para o veterinário!

- Caneco, grande acidente! Éramos tolinhos, Augusto?

- Não, amigo Zé Kalanga, éramos muito burros!

- Aaahhh, então muita coisa não deve ter mudado! Mas o que te traz aqui? – Pergunta Kalanga.

- O que me traz aqui, nem lembra o diabo!... - E Augusto conta a história da sua saída para a faina e o desprezo com que foi tratado pelos elementos mais queridos da sua família. – E não apanhei o barco! Tinha que desabafar com alguém!

- Tu és um mariquinhas Augusto, tens a certeza que somos amigos?! Eles estavam com sono. Merecias uma coça por acordar as pessoas às seis da manhã, para pedir beijinhos!

- Seja como for eu não quero voltar para casa! Posso ficar em tua casa?

- Não! – Responde Kalanga.

- Não?

- Não!

- E então? – Pergunta Augusto.

- E então, nada!

- Nada? – Pergunta Augusto.

- Nada!

- Poça, e agora? – Pergunta Augusto.

- Poça, o quê? – Responde Zé Kalanga com outra pergunta.

- Pensei que éramos amigos!

- Ainda duvido Augusto! Mas tenho solução para ti! Vais ser gigolo!

- Vou ser o quê? – Pergunta Augusto, sem perceber o significado de gigolo.

- Vais sacar gajas e viver à custa delas! Vou-te dizer aonde ficam as melhores danceterias da zona, aonde param velhas loiras com algum dinheiro e…

 

São quase onze da manhã, Dália já tinha saído há muito para o mercado vender flores e Adélio Dani acorda estremunhado por um pesadelo no qual era uma cabine telefónica que apanhou um vírus e só conseguia fazer chamadas locais!

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