Adélio Dani - Episódio IX

por José Calheiros 0

São quase onze da manhã, Dália já tinha saído há muito para o mercado vender flores e Adélio Dani, acorda estremunhado por um pesadelo no qual era uma cabine telefónica que apanhou um vírus e só conseguia fazer chamadas locais!

 

À tarde, Adélio Dani vai novamente passear para o monte, sozinho, e pela quinta vez consecutiva não encontra o grupo de escuteiros. Decide deixar de ir para o monte para pensar na vida. Quanto aos escuteiros, deixaram de rezar e enveredaram pelo mundo do crime! Foram todos presos.

 

Passaram três anos. Um dia, à noite, Dália desabafa com o filho:

- Adélio, filho, acho que vou deixar de fazer o jantar para o teu pai! Ele nunca aparece!

- Realmente! Será que aconteceu alguma coisa?

- Se calhar a traineira naufragou, meu filho! Que chatice, estava a contar com umas postas de bacalhau! – Exclama Dália, indo ao encontro do filho e abraçando-o.

Abraçado à mãe, Adélio Dani, solta, de forma moderada, algumas lágrimas pela triste constatação do desaparecimento do pai e de repente solta um berro vindo do fundo do seu ser e exclama em choque:

- Quando mamã? Mas quando? - E chora!

- O quê meu filho, o quê? – Pergunta Dália.

- Quando? Quando é que eu vou comer bacalhau…quando mamã…uaaaaaaaaaa, uaaaaaa! – E continua a chorar.

- Pronto filho, pronto! – E para tentar distrair o filho – Já viste filho, como já tens um andar normal?! Valeu a pena os sapatinhos ortopédicos do Gonçalo.

- Já, mamã? Achas? – Pergunta Adélio, parando com a choradeira.

Dália não respondeu à pergunta do seu filho, porque, de repente, lembrou-se que era pecado mentir e desvia a conversa perguntando:

- Ó Adélio, a lua daqui é a mesma de Barroselas? – Ainda hoje, Dália mantém esta dúvida e é assolada pelo pensamento “Se não fosse o esgotamento que o meu Adélio teve aos cinco anos, sabia-me responder!”.

Com a ausência do pai, Adélio aproximou-se do seu tio Narciso, irmão de Dália, que assumiu, pouco a pouco, a figura paternal.

Até a esse reencontro entre Adélio e o Tio Narciso, eles não se viam há mais ou menos catorze, quinze anos, apesar de Narciso viver num anexo, sem nexo, nas traseiras da casa onde mora Adélio e a família.

Narciso passava longas temporadas fora de casa. Viajava muito, ou para a baixa do Porto, ou para a Foz, às vezes para a Rotunda da Boavista. Um dia até passou uns dias na Senhora da Hora! Com ausências tão longas, Dália pensava que o irmão era comissário de bordo e sabia que ele ainda era vivo, sempre que, de vez em quando, ouvia o barulho da sua motorizada.

Quando Dália se apercebeu que o marido não aparecia para o jantar, deixou um quadro com caixilharia em madeira pintada de dourado e talhada em estilo Rococó, pendurado na porta do anexo do seu irmão, com a seguinte mensagem: “Como é?! Está tudo? O teu cunhado não aparece em casa há três anos! Não temos bacalhau”.

Um mês e duas semanas depois, Narciso chega a casa vindo de viagem, da rua Vieira da Silva, paralela à rua onde mora! Quando vê a mensagem, comove-se e pensa: “O quadro fica melhor do lado de dentro da casa!”

No dia seguinte, Narciso, vai a casa da irmã:

- Olélé, está alguém em casa? – Pergunta Narciso, à porta da casa da irmã.

E aparece Dália, que se preparava para sair.

- Olélé! – Repete Narciso.

- Ui, quem és tu?! – Pergunta Dália.

- Moro ali, nas traseiras da tua casa, sou o… - E é interrompido.

- Se moras ali atrás na casa do meu irmão, então, tu és o meu irmão Baltazar?! Anda cá irmão, abraça-me! – Diz Dália, comovida, avançando para Narciso, de braços abertos.

Narciso dá um passo para trás, estranhando a situação, e diz:

- Ui, eu moro ali atrás, mas sou Narciso! Não podemos ser irmãos!

Dália trava o avanço para o seu irmão e exclama: – Aaahhh! – E grita:  – Adélio, rapaz, anda cá fora!

Adélio aparece à porta, estremunhado, revoltado e com as mãos nos genitais, por ter sido acordado e o seu sonho erótico interrompido. Ia ser a primeira relação sexual consentida de Adélio Dani.

- Que foi! – Pergunta Adélio.

- Conheces este homem, filho? – Pergunta Dália.

Adélio tenta arregalar os olhos e – É o Sr. Dinis, da estamparia!

Narciso olha para trás, para verificar se estariam a falar de alguém que não estivesse a ver.

- Ouça lá, o que faz na casa do meu irmão Bal…? Dinis? Tu disseste Dinis, meu filho?

- Sim, mas se quiseres digo outra coisa, mamã!

- Ora diz!

- Avestruz!

- Ui, o que é isso? – Pergunta Narciso.

- É uma ave migratória, que se desloca daqui para acolá, aos pulinhos, com as asinhas a dar a dar, parecida com as pombinhas! – Explica Adélio.

Ao ouvir esta explicação de Adélio Dani, o coração de Dália enche-se de comoção, pela possibilidade do seu filho estar a recuperar a hiperdotação! Entretanto, na rua passa a vizinha Zulmira, que cumprimenta os presentes:

- Olá Dália, bom dia. Tudo bem Adélio? Então Narciso, está tudo? Já não te via há algum tempo! Vieste visitar a tua irmã? – E prossegue rua abaixo.

- O quê, Narciso? Não és Baltazar? Tu és o meu irmão Narciso e moras naquela casa?

- Sim, eu moro naquela casa e se for Narciso, somos irmãos!

- Mano!

- Mana!

E os dois precipitam-se um para o outro e abraçam-se!

Após o abraço afectuoso entre os dois irmãos, Dália conta toda a história da sua família, desde a última vez que se viram, na apresentação do trabalho de final de curso de Adélio Dani, até ao desaparecimento de Augusto.

- Que triste história! – Desabafa Narciso.

- É verdade mano, mas eu lá me vou aguentando…o pior é o Adélio! Ele precisa de uma figura masculina, de um segundo pai, e tu és o mais próximo!

- Mas mana, eu já não vos via há muitos anos…sempre estive distante!

- Mentira, tu moras ali! Distante era se morasses em Aljustrel! Não negues o destino!

Esta chamada de atenção geográfica, tocou Narciso no coração. Adélio continuava à entrada de casa a ouvir a conversa entre a mãe e o tio que desconhecia.

- Conta comigo, mana. Eu vou ser o pai que aquele nabo não tem há três anos!

- Obrigado mano!

- De nada. Quando posso começar?

- Já! – Diz Dália, encolhendo os ombros.

- Rapaz, anda cá. Já! – Ordena Narciso.

Adélio Dani, rapidamente chega próximo do tio e leva numa primeira vaga, meia dúzia de tabefes, logo seguidos de uma segunda vaga de chapadões e da primeira lição do tio: “Não há duas sem três”, e leva com a terceira vaga de "landras"!

- Mas o que é que eu fiz?! – Pergunta Adélio Dani.

- Ainda perguntas? – E Narciso repete as três vagas em Adélio.

No final, Adélio Dani, para não correr riscos, nada diz, apenas olha para o tio.

- E ainda olhas, seu malandro?! – E Narciso termina com chave de ouro, a lição de que “não há duas sem três”, e espeta a terceira vaga de três vagas de tabefes, chapadões e "landras".

- Muito bem! – Exclama Dália.

Sentindo-se incentivado, Narciso prossegue:

- Como é rapaz, estudas?

- Não! – Responde Adélio a medo.

- Trabalhas?

- Não! – Responde Adélio a medo e mais aninhado do que um cão.

- Então vai pedir, seu inútil! – E Adélio Dani desaparece da vista do tio e da mãe.

 

 

O tempo passa e quando esta relação estava mais forte do que nunca, Narciso continuava a pregar uns açoites a Adélio por tudo e por nada, a tragédia aconteceu.

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