Adélio Dani - Episódio X

por José Calheiros 0

O tempo passa e quando esta relação estava mais forte do que nunca, Narciso continuava a pregar uns açoites a Adélio por tudo e por nada, a tragédia aconteceu.

Certo dia, o tio Narciso, ao deslocar-se de manhã cedo na sua motorizada ao centro de emprego, é surpreendido por um coelho que atravessa repentinamente a estrada. Para evitar o atropelamento, Narciso trava a fundo e é projectado, indo embater com a cabeça numa cabine telefónica, provocando-lhe um traumatismo craniano, faz ricochete e cai sobre o ombro à beira da motorizada, partindo a clavícula. Neste momento, Narciso abre os olhos e vê o coelho a ser atropelado por um camião na outra faixa da estrada.

Quando chegam os bombeiros, Narciso apenas se queixa das dores intensas no ombro, sendo depois tratado no hospital apenas à fractura da clavícula. É mandado embora e dois dias depois… morre em casa…vítima de traumatismo craniano.

 Adélio Dani herda a Famel do tio, que escapou ao acidente sem um arranhão.

A alegria de Adélio Dani em ter uma motorizada era superior à relativa tristeza de ter perdido o tio que se tinha tornado o segundo pai. Acha-se o maior!

 

Como continuava desempregado, um dos problemas de Adélio era dar de "beber" à motorizada para as suas deslocações. Nas descidas desligava sempre o motor e quando entrava em estrada plana deixava a Famel ir até onde o embalo a levasse, e sempre que esta estava quase a parar, impulsionava o corpo para a frente em movimentos contínuos para a fazer andar mais uns metros. Só depois voltava a ligar o motor da motorizada, voltando o barulho e a fumarada a sair pelo escape. Tanto barulho e fumo faziam com que todos olhassem para ele, e a moral de Adélio Dani era tanta, tanta (superava a de Casanova) que pensava ser a sua classe o alvo das atenções. Pensava que eles olhavam por inveja e elas por fascínio.

A motorizada era a alegria de Adélio Dani, até que três dias após ter herdado o motociclo, este avaria à porta de casa, quando se preparava para ir brilhar pelas ruas de Campanhã.

- Ó mamã, mamããããã!

E Dália aparece à porta de casa.

- Que foi, filho?

- A “Graciosa” não pega!

- Hein?!!

- A motorizada! Não pega!

- E o que é que eu tenho a ver com isso? – Pergunta Dália, encolhendo os ombros.

- Nada, até logo! – E baixinho, diz: – Que mãe…como ela mudou!

Adélio Dani vai dar a sua volta de motorizada, mas desta vez a empurrá-la. Ao passar na rua Joaquim Costa Azevedo vê à entrada de uma garagem uma placa a dizer: “Neto, o vidente, adivinha o passado e o presente”. Adélio Dani não se lembra, que quase vinte anos antes tinha estado naquele mesmo local com os pais e o seu amigo de sempre, o Rubi. Decide entrar com a motorizada e vê um homem, já entradote na idade, a acariciar as manetes de uma V50, de 1956.

- Bom dia! – Cumprimenta Adélio.

- Bom dia! Estava à tua espera! – Neto diz sempre isto quando entra alguém, para impressionar, e continua: – As tetas da Laura na década de sessenta eram como estas manetes… rijas. Que saudades… davam o melhor leite!

Confuso, Adélio Dani pergunta – E quem era a Laura?

-Oh, a Laura! Era uma vaca leiteira, que eu tinha no meu quintal…já morreu. Morreu enquanto lhe tirava leite e viu a minha aliança. Morreu de desgosto, não sabia que eu era casado! Sempre que lhe ia tirar o leite, tirava a aliança…mas naquele dia…esqueci-me!

- Poça, que história triste! – Exclama Adélio Dani.

Neto prossegue: – E não é tudo…depois a minha mulher descobriu porque é que a Laura morreu, deu-me uma coça e morreu…

- De desgosto também? – Pergunta Adélio.

- Sim. O desgosto associado ao vinho que ela bebia, provocou-lhe uma cirrose…morreu trinta e quatro anos depois!

- Hiiii, um mal nunca vem só! – Sentencia Adélio Dani.

- Com a morte da minha mulher aguentei bem, o vinho começou a dar para mais tempo. Comecei a dar umas festas…agora, a Laura… Que saudades! – Diz Neto com um olhar distante.

- A vaca devia dar um leite mesmo muito bom! – Adivinha Adélio Dani.

- E as tetas?! Ai, as tetas da Laura! – Diz Neto, como se estivesse mergulhado num sonho.

De repente desperta, desmonta da V50, senta-se à mesa que se encontra no meio da garagem e diz:

- Senta-te rapaz. O que queres?

- A sua história é mesmo triste…Pode ser um pão com manteiga!

- Ó meu, isto não é o supermercado! Eu sou adivinho! Tu perguntas-me coisas que não sabes e eu adivinho a troco de uma quantia em pecuniário ao teu critério, mas nunca inferior a 0,5 €!

- Pode-se negociar o valor mínimo? – Pergunta Adélio, porque não tem dinheiro com ele.

- É inegociável! – Diz Neto, bastante firme.

- E pode-se deixar algum bem material em vez de dinheiro? – Pergunta Adélio Dani.

- Única e apenas se esse bem material tiver valor comercial. Estás a pensar em quê?

- Na minha motorizada… - e sem Adélio Dani terminar, é interrompido por Neto:

- Ah, Ah, Ah! – Ri Neto de forma teatral e continua: – Isso não vale 0,20 €, quanto mais 0,50 €!

E eis que então Adélio Dani, num jogo psicológico de consequências imprevisíveis, pergunta:

- Ó Sr. Neto, mas já reparou que tesos e rijos são os pedais da minha motorizada?

Neto levanta-se, dirige-se para a motorizada, baixa-se e toca com as mãos nos pedais…rijos. Adélio continua com o jogo psicológico:

- Eram assim as tetas da Laura? Hein?

Neto começa a delirar e a soltar frases soltas: – Ai as tetas…duras, como os bíceps da Cândida Branca Flor…ui,ui,ui. Laura, dá-me leite para o pequeno-almoço…dei-te com um martelo na teta e ele empenou…múúúúúúúú, esqueci-me de tirar a aliança…

Adélio Dani estala os dedos, como vê os mágicos a fazerem na televisão. Neto volta à realidade e exausto, vem a rastejar para a mesa e senta-se.

- Rapaz, a tua mota vale muito dinheiro…

- Quanto? – Pergunta ansioso, Adélio Dani, sem ter deixado Neto terminar.

- Pá, assim ao primeiro toque, mais de 1 €! Quem diria!

- Eh pá, boa! Então já lhe posso contar o meu problema? – Pergunta Adélio Dani.

- Sim, agora que estás financeiramente calçado, podes desabafar! O que te traz por cá?

- Ó Sr. Neto, eu herdei esta motorizada há três dias e tenho rolado todos os dias sem problemas, mas hoje de manhã ela não pegou! Estranho, não é?

- Pode ser…ou não ser, eis a dúvida!

Neto levanta-se da mesa, dirige-se à motorizada de Adélio Dani e abana-a, de seguida põe-se em cima de uma das motorizadas encostadas na sua garagem e começa a acariciar o depósito de combustível. Neto entra em estado de transe…Adélio Dani assiste, assustado!

Terminado o estado de transe, que durou tempo suficiente para Adélio Dani fazer chichi nas calças, Neto regressa à mesa, e:

- Rapaz, tenho uma pergunta a fazer-te, para confirmar uma forte suspeita!

- Pergunte! – Diz Adélio Dani, ainda meio assustado!

- Desde que andas na tua motorizada, alguma vez meteste combustível?

- Ufa, essa é fácil! Não, ainda não meti. É preciso? – Pergunta Adélio Dani.

- É provável, se queres andar em cima dela… e só não digo que sim, porque há um boato de que existe uma motorizada-chimpanzé nas selvas de África que anda sem combustível! Se há a hipótese de haver uma que anda sem combustível em África, por que razão não pode haver uma motorizada-palerma que ande sem combustível em Campanhã?! Como te disse, pode ser…ou não ser!

- E??

- E?? Paga. - Diz Neto.

- Sem dinheiro?

- Deixas a motorizada.

- E??

- E… Levantas-te e vais-te embora com cara de nabo!

- Isso é fácil. – Diz Adélio Dani.

Assim fez, colocou a sua melhor expressão de nabo, levantou-se e abandonou o estabelecimento do Neto. Já na rua e enquanto se dirige para casa, Adélio Dani pensa:

“Agora que já sei a possível causa raiz da avaria do meu motão, e agora que tenho a certeza que fiquei sem motão, e com a certeza de que estou há muito tempo sem ocupação…tenho que pensar na minha vida!”

Chega a casa por volta do meio-dia e recolhe-se no seu quarto. Pensa, pensa e ao fim de cinco minutos já dorme e sonha, sonha!

É um novo dia e Adélio Dani está decidido a pôr em prática tudo aquilo com que sonhou.

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