Sr. Sousa

por Alexandra Santos 0

     Chovia e o Sr. Sousa gostava de ver a chuva a cair. Podia passar horas a observar a paisagem que se transformava com cada gota. Era belo e apaziguador. Da sua janela do terceiro andar, conseguia ver as pessoas a correr com os seus guarda-chuvas, um pequeno parque deserto para onde as crianças, em dias de sol, iam brincar, e um prédio exatamente igual ao seu do outro lado da rua. Em dias escuros como aquele, a luz dos apartamentos iluminava o ambiente e o coração do Sr. Sousa que, através de muitas janelas sem cortinas, vislumbrava a vida dos outros e se recordava de como fora a sua. Lembrava-se especialmente da sua querida esposa, a quem tinha pedido a mão com apenas vinte anos, dos seus filhos, que agora já tinham as suas próprias famílias, e de quão cheia e repleta de amor a sua vida tinha sido. Quando fechava os olhos, apesar de dois anos já terem passado após a sua morte, ainda era o rosto da sua mulher que via, ainda era nos seus braços que ela estava, a ser amada, acarinhada ou a dançar. Como ambos gostavam de dançar! Tinham-se conhecido assim, num baile, e dos braços de outro pretendente ele a roubou. O Sr. Sousa sorriu com tal recordação e desejou tê-la ali, mais uma vez, mesmo que fosse apenas para discutir com ele. Até o seu refilar era preocupação e amor.

     No momento em que decidiu olhar novamente pela janela, reparou que tinha parado de chover e ficou surpreso ao ver uma figura feminina a dançar no meio da rua. Dançava sozinha, quase como uma bailarina, com uma elegância que lhe era familiar. Seria possível? Seria ela? O Sr. Sousa, sem saber como, pois já tinha oitenta e dois anos, viu-se a descer as escadas com a maior agilidade e rapidez, e dirigiu-se a correr até aquela bela dançarina. Sim, era ela, era ela que lhe esticava a mão e o convidava a dançar. Sim, era ela, o amor da sua vida, que tinha regressado para o levar. Sim, era ela e ali estava ele, com um sorriso nos lábios, para se deixar transportar.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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