Adélio Dani - Episódio XII

por José Calheiros 0

A viagem de regresso começa ao final da tarde. Quinze minutos depois chegam a casa. Dália ainda não chegou, Adélio Dani e Rubi esperam na soleira da casa.

Três horas depois, Dália chega.

- Mãããee, sou eu! Lembras-te do teu filho? – Diz Adélio de forma apoteótica e abraça-a.

- Claro que me lembro, tu és o meu filho! – Responde, espantada com a pergunta e dando umas palmadinhas nas costas.

- Mas o tempo mudou-me mãe! – Diz, alterando a voz para um tom mais compenetrado.

- Estás igual meu filho, cheiras é pior! Por onde andaste não tomavas banho?

- Tomava, mãe, quando chovia! – Responde, ainda agarrado à mãe, em tom melodramático.

- Então por onde andaste a precipitação era fraca. E aquele quem é? – Pergunta, apontando para o cão.

- É o Rubi minha mãe, ele é que mudou! Subiu ao pinheiro onde passámos quatro anos, preto, e desceu branco!

- Adélio, filho, e se me largasses? Vamos para dentro.

- Vamos mãe, tenho uma coisa importante para te contar!

- Não tenho jantar para vós. Não estava a contar!

- Não te preocupes, ainda temos bolachas!

Antes de ouvir as novidades do seu filho, Dália deu um valente banho aos dois. Adélio ficou bem cheiroso e Rubi perdeu a sujidade e já estava preto outra vez. Depois deu uma arrumação à casa, jantou e foi dar mais um jeito no arranjo de flores que andava a fazer desde há quatro anos. Para a cliente, o arranjo ainda não estava bem! No final foi à sala ter com o filho, que esperava, juntamente com Rubi.

- Então meu filho, queres-me contar as tuas férias? Estiveste fora, quê, duas semanas?

Rubi e Adélio olham um para o outro e Adélio responde:

- Mãe, eu estive quatro anos longe, nas terras além rua Torres Couto, em meditação profunda, no alto de um pinheiro…a pensar na vida! Decidi…vou ser nadador-salvador!

Dália levanta-se, vai ao quarto e regressa com três termómetros, mete um debaixo do braço de Adélio, enfia outro na boca de Rubi e enfia o último no seu ouvido. Passados cinco minutos, retira os termómetros e verifica a temperatura. Todos pareciam estar bem!

- Filho, pensei que aqui alguém estivesse doente ou choné da cabeça, mas não!!!! Tu queres ser nadador-salvador?! Depois de um início de vida brilhante…tu devias era estar-me a dizer que queres ser cientista da NASA, Presidente dos Estados Unidos da América…ou assistente do Manuel Luís Goucha…

- Mãe, a causa é pobre, mas nobre…o pai morreu afogado, eu quero salvar vidas no mar!

- A Mirinha ainda ontem me disse que o tem visto em Paranhos!

- E a dona Zulmira, enquanto esperava que chegasses, disse-me: “Coitadinho, perdeu o pai no mar”. – Retorquiu Adélio.

- Faz o que quiseres rapaz, vou dormir!

Dália dá um beijo no seu filho e vai-se deitar, a pensar: “Espero que desta vez o arranjo esteja bem, preciso daquele dinheiro para pôr umas unhas de gel”. Adélio Dani deitou-se a pensar nas palavras da mãe: “E se ela tem razão e o meu destino é ser importante?” E Rubi, para não tirar protagonismo a Adélio Dani, deita-se sem pensar em nada.

 

Nasce um novo dia e como de costume, bem cedo, Dália vai para o mercado. Já Adélio Dani acorda ao início da tarde, come uma bolacha e dá outra ao seu amigo Rubi. Após o almoço, arranja-se, faz um penteado a Rubi e comunica: – Rubi, hoje é o dia mais especial da minha vida, vai ser o tira-teimas: Ou vou para assistente do Nel Gócha, ou vou para nadador-salvador! Vamos à rua Joaquim Azevedo.

Saem de casa e encetam a caminhada. Chegados à rua Joaquim Azevedo, vão directos ao estabelecimento do vidente Neto, depois de passarem por uma pastelaria, onde Adélio foi urinar às escondidas, enquanto Rubi distraía o dono.

Entram. Ao centro, a mesma mesa com cadeiras, ao fundo, as mesmas três motas encostadas à parede mais a sua motorizada que lá tinha ficado quatro anos antes. Entre a mesa e as motorizadas estava Neto, enrolado numa vaca insuflável, que imitia “muuus”, comprada num salão erótico, e que diz, quando Neto lhe aperta as tetas: “Hola, yo soy Laura, una gran vaca, tira-me leche”.

Perante este cenário, Adélio e Rubi, não quiseram interromper e ficaram a ver! Duas horas depois, as pilhas da vaca acabam e esta deixa de falar. Neto, louco de desejo, sai de cima da vaca e monta a V50, de 1956, e aperta as manetes rijas da motorizada, enquanto sussurra: – Ai Laura, as tuas tetas! Uiiiiiiiiii! Adélio Dani, já cansado dos devaneios de Neto, estala os dedos, como vê os mágicos fazerem na televisão. Neto volta à realidade e exausto, vem a rastejar para a mesa, senta-se e diz:

– Estava à vossa espera!

- Ui, como é que sabia que vínhamos cá? Entrámos por acaso, viemos ver as montras e eu disse para o meu amigo: “Ah, já vimos tudo, vamos ali!”.

- Engano teu, rapaz, eu estou à espera de toda a gente, porque toda a gente entra uma segunda e terceira vez no meu estabelecimento do oculto, nunca uma primeira vez! Acabei com as primeiras vezes, são sempre chatas! – Diz Neto, em tom solene.

- Poça! – Exclama Adélio Dani, arregalando os olhos.

- Que queres saber, meu rapaz?

- Bem, é o seguinte…tenho dúvidas sobre que carreira profissional seguir… -E é interrompido por Neto.

- Espera, espera, se estás com dúvidas – e coloca as mãos na testa – aaahhhh…tu tens duas opções de escolha, pelo menos!

- É isso! – Diz Adélio entusiasmado e com a certeza de que veio ao sítio certo.

- Conta-me! – Diz Neto, abrindo os braços.

- Bem, tenho duas hipóteses, ou vou para assistente do Nel Gócha, ou vou para nadador-salvador!

- Sabes nadar? – Pergunta Neto.

- Não!

Neto, o vidente, levanta-se e dirige-se para uma das motorizadas que estão ao fundo da garagem! Coloca o “quico” na cabeça, monta a Famel e durante breves momentos acaricia o depósito de combustível da motorizada! Desmonta a motorizada, saca de pente, penteia o cabelo para o lado e dirige-se novamente para a mesa, no centro da sala, senta-se e diz:

- Não interessa, vais só para nadador, esquece o salvador. É preferível isso a trocares de roupa no mesmo camarim do Nel Gócha!

- Obrigadinho! Vamos Rubi.

- Vamos, o caneco, seu nabo, deixa a gratificação do Neto.

Como Adélio Dani não tinha dinheiro, tentou deixar três bolachas Maria, algo que Neto não aceitou. A solução, foi deixar os sapatos ortopédicos, herdados de Gonçalo há muitos anos atrás. Apesar de sair descalço, saiu com as ideias arrumadas. Iria ser nadador…salvador! O Verão estava a chegar.

 

Com urgência, apresenta-se a necessidade de aprender a nadar. Adélio Dani começou a ler livros técnicos sobre a concentração de sal dos mares e aprendeu que para não se afogar, mesmo sem saber nadar, a salinidade do mar tem que ser superior a 55 %. Mares com estas características apenas se encontram em alguns locais do Médio Oriente e Ásia, mas Adélio ainda não se acha preparado para imigrar, nem mesmo para concretizar o objectivo de ser nadador-salvador… tem que arranjar outras alternativas.

- Au, au, au, au, au, au, auuuuuuu, au, au!

- É isso Rubi, perfeito! – Exclama Adélio Dani, que percebeu mal o latir de Rubi.

Foi de imediato a casa de Alfredo, um columbófilo romântico de meia-idade, famoso por ter mais hamsters do que pombos.

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