Adélio Dani - Episódio XIV

por José Calheiros 0

Não muito longe, Augusto, pai de Adélio, cujo desaparecimento o incentivou à escolha de nadador-salvador, sai para mais uma noite de sedução e romantismo!

Abandona a casa de Lurdes, esfrangalhada de dor no peito. Augusto, impiedoso, bate a porta com um sorriso de “três dentes”, por mais uma mulher reduzida a quase nada pelo seu charme fatal. Lurdes, desesperada, tenta alcançar a mesinha de cabeceira onde guarda o aparelho da asma, doença que lhe provoca dores fortes na caixa torácica. No rés-do-chão, Augusto bate a porta do prédio e cantarola alto para não ouvir os gritos de um coração destroçado pelo amor, enquanto Lurdes chora por ter virado a última garrafa de whisky…Ia ter sair para comprar outra!

Augusto dirige-se para a danceteria “Arrasta o pé” e pelo caminho avisa o INEM do seu programa. Por precaução, é enviada uma ambulância com todos os meios técnicos de suporte de vida, que apanha Augusto pelo caminho, dando-lhe boleia até ao estabelecimento de diversão nocturna, cuja entrada é sujeita a rigorosos critérios de selecção. A fama e o charme nestes locais são tais, que Augusto entra de lado e ao pé-coxinho. A casa está cheia e o ambiente ao rubro, com muitas mulheres com mais de sessenta anos, de cabelos amarelos, postura formosa e pinturas carregadas, com um pormenor que Augusto apreciava…desesperadas. Na pista ouve-se Gianni Morandi!

Desce os dois degraus que dão acesso à pista. Faz uma vénia a todas as mulheres por quem passa e faz um esforço para não se assustar com as feições de algumas. Estrategicamente, coloca-se num sítio qualquer da pista e baloiça o corpo com um swing próprio de quem não faz ginástica há imenso tempo. Duas semanas antes, tinha recusado o convite de uma velha loira, num outro local, para dançarem agarradinhos, uma música da Mafalda Veiga, dizendo: – Agradeço o convite, mas não gosto destes rocks puxadinhos!

No final da música de Gianni Morandi, o DJ Costa Curta, faz uma passagem que faz dele um dos melhores na arte de passar música nas danceterias do Grande Porto…começa a tocar Vitor Espadinha. O mulherio, quase todas avós, levanta os braços no ar em total devaneio em devoção ao DJ, que nessa noite completa setenta e três anos. Augusto arrisca e mexe-se um pouco mais, fazendo por vezes um movimento sensual com a anca, enquanto passa a mão nos cabelos grisalhos. Ao mesmo tempo que faz um beicinho com os lábios…uma mosca passa-lhe ao lado, que ele afasta com um movimento de cabeça, o que Mila, uma senhora que estava ao fundo da disco e totalmente desconhecida de Augusto, encara como um sinal. Levanta-se e avança na pista, cheia e sufocante, em direcção a Augusto.

- Olá! – Diz Mila.

Augusto, que para se concentrar na sequência anca, mão no cabelo e beicinho, cerra os olhos, abre-os e diz:

- Olá, como está minha senhora? – Cumprimenta, educadamente.

- Bem, aliás, muito bem, com o seu chamamento!

- Chamamento?! Desculpe, mas que chamamento? – Pergunta Augusto.

- Então, o sinal que me fez com a cabeça para vir ter consigo.

Entretanto o DJ Costa Curta faz a passagem para o Quarteto 1111 e ouve-se a canção “El Rey Dom Sebastião”.

- Estranho, porque eu não estava a vê-la!

- Então o Sr. não fez assim… com a cabeça? – E Mila repete o movimento.

- Ah, esse movimento! Desculpe, esse movimento não era para si, era para uma mosca!

Após este esclarecimento de Augusto, Mila, já com alguma idade, estatela-se no chão, fruto de uma quebra de tensão, mais uma, que lhe provoca desmaios regulares, devido à sua fraca alimentação, porque quer perder peso depressa sem recorrer ao concurso “Peso Pesado”.

-Poça, mais uma! Elas tombam como tordos…depois não querem que eu seja convencido! – Diz Augusto, baixinho, para si mesmo.

Augusto olha para fora da pista e seus olhos buscam Tito Morres, segurança do espaço e quando o avista faz-lhe um sinal com o polegar esticado e virado para baixo. Este sinal combinado entre Augusto e os seguranças das casas que frequenta significa “mais uma a quem deu uma fraqueza no coração e tombou aos meus pés, por me desejar mais que tudo e capaz de abandonar a casa de campo e as jóias e extremamente necessitada de auxílio técnico apropriado. Chamem a ambulância!”

Tito Morres já estava habituado àquele sinal desde que Augusto começou a frequentar o “Arrasta o Pé”! Segurança, com 72 anos, desloca-se o mais depressa possível até ao exterior da casa de diversão nocturna, lento, devido a uma zaragata que ocorreu três meses antes entre o Sr. Tavares, que sem querer, calcou com a sua bengala o Sr. Arménio, cuja reacção foi baixar-se de dores e sem intenção, deu uma cabeçada no peito do Sr. Tavares, que por sua vez, sem querer, projecta um pivô, que cai em cima do pescoço do Sr. Arménio, que ao sentir algo no pescoço ergue-se e, mesmo sem querer, dá uma cabeçada nos queixos do Sr. Tavares. Tito Morres, ao desapartar a zaragata, dá um jeito na coluna e ganha uma hérnia discal. Ainda hoje se mexe vergado e devagar e relembra: “pareciam dois galos pegados…completamente loucos!”

Chegado ao exterior, Tito Morres faz sinal com o polegar esticado e virado para baixo, aos paramédicos da ambulância do INEM. Estes imediatamente percebem a mensagem e vão em auxílio da nova presa de Augusto, que é transportada para o hospital e Augusto vai junto. Estava garantida mais uma noite debaixo de um tecto, desta vez numa enfermaria!

 

Nasce um novo dia.

Muito próxima de uma depressão nervosa, Dália saiu para o mercado com o arranjo de flores. Ao final da manhã, Adélio Dani acorda, quando Rubi já brincava com o seu amigo hamster.

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