Adélio Dani - Episódio XV

por José Calheiros 0

Nasce um novo dia.

Muito próxima de uma depressão nervosa, Dália saiu para o mercado com o arranjo de flores. Ao final da manhã, Adélio Dani acorda quando Rubi já brincava com o seu amigo hamster.

“Vou ver os pombos, os quatro fantásticos!” – Foi o primeiro pensamento de Adélio Dani. Sai da cama e aproxima-se da caixa, pousada em cima de uma cadeira, onde estão Perez, Eros, Matias e Manel, os quatro pombos fabulosos, oferecidos por Alfredo. Com muito cuidado levanta a tampa, para os pombos não fugirem quando repentinamente escapam quatros hamsters, que fogem pelo quarto fora e em sua perseguição seguem Rubi e o seu novo amigo, que também persegue os da mesma espécie!

Aflito, Adélio dá pulos de irritação enquanto grita: – Nãããããooooooooooooo!

Passados cinquenta e seis minutos, Rubi chega a casa e entra no quarto, com o seu amigo hamster ao lombo, mais os outros quatro, que após longa conversa, descobriram que tinham algo muito forte em comum, todos gostam de escrever!

- Rubi, meu amigo! – Diz Adélio, ofegante e preocupado.

- Au, au.

- Esses quatro hamsters que estão pendurados em ti eram pombos. Durante a noite foram transformados em ratos…esta casa está assombrada…temos que resolver isto! – Dita Adélio Dani.

- Auuuuuuuuuuuuuuuu! – Responde Rubi, mostrando sintonia com o seu amigo humano.

Adélio, Rubi e os cinco hamsters dirigem-se para a rua Joaquim Azevedo, ao encontro de Neto. Chegados à porta da garagem, um cartaz anuncia: “Neto, o vidente, adivinha o passado e o presente, por questões pessoais foi à Suíça, contrair matrimónio com uma vaca de tetas rijas. Regresso amanhã.”

- Que azar! Vamos embora! – Diz Adélio Dani.

Os sete regressam a casa e todos os barulhos que Adélio ouvia, desde o ranger da porta empenada até ao chiar das molas do seu colchão, associava a almas penadas.

Nasce um novo dia e como costume Dália é a primeira a sair e bate a porta. Com o barulho, Adélio acorda e pensa: “Os espíritos andam aí!” – Olha para o lado e vê Rubi e os hamsters a brincar. – “E a bicharada está possuída…tenho que fazer algo! É isso, vou dormir mais um bocadinho e depois vou ao Neto!”.

Mais tarde, acorda assustado, mas já sem sono, e a bicharada continua a brincar.

- Continuam possuídos, tenho que ir já para o Neto! – Diz corajoso.

Adélio Dani enceta caminho, enxotando a bicharada à sua frente. Chegados à porta da garagem, um cartaz anuncia: “Neto, o vidente, adivinha o passado e o presente. Já cheguei.”. Colada ao cartaz está uma fotografia do matrimónio, onde se vê Neto, de sorriso rasgado, com a sua vaca, e atrás, toda a família da noiva, tendo como cenário, os Alpes.

Adélio, Rubi e os hamsters entram. Ao centro, a mesma mesa de sempre com as mesmas cadeiras e ao fundo as mesmas motorizadas. Num canto da sala, uma novidade, uma cadeira em metal reforçado, onde estava Neto, sentado, com a sua amada ao colo. Foi este romantismo que seduziu Sissi, a vaca!

- Meu amor, tenho clientes! – Diz Neto.

- Muuuu! – Diz Sissi. Levanta-se do colo de Neto e vai para um anexo da garagem.

- Esperem um pouco! – Diz Neto a Adélio e à bicharada, enquanto estica as pernas.

Depois de restabelecida a circulação sanguínea nas pernas (não é fácil ter ao colo 6oo Kg de chicha), Neto dirige-se para a mesa ao centro da sala e senta-se.

- Tu outra vez, meu rapaz! – Diz Neto para Adélio sem tirar a sua expressão de extrema felicidade, com olhos esbugalhados e sorriso de orelha a orelha, que na Suíça lhe valeu a alcunha de Sapo Sorridente.

 - Sim Sr. Neto. Tenho um problema muito sério!

- Não me digas que aprendeste a nadar! – Diz Neto admirado, sem tirar a sua expressão de extrema felicidade!

- Pior, pior, pior, Sr. Neto, você nem imagina!

- O quê, seu rapazola? – Pergunta Neto extremamente exaltado e sentindo-se afrontado na sua competência, sem perder a sua expressão de extrema felicidade – Achas que eu não imagino?! Eu sou o Neto, o vidente! Percebes?!!!

- Desculpe Sr. Neto, eu não quis dizer isso, é óbvio que você imagina… - E é interrompido por Neto.

- Imagino o quê?! – Pergunta com violência e continuando: – Por acaso disseste-me o que vieste cá fazer? Achas-me bisbilhoteiro para saber da vida dos outros? – Termina, recuperando a expressão de extrema felicidade.

- Bem, o que me trouxe aqui Sr. Neto, é que a minha casa está assombrada e aqui o meu amigo Rubi e o amigo dele estão possuídos e os outros quatro ratos eram pombos campeões! – Explica Adélio Dani, prosseguindo: – Até desconfio, que o meu pai Augusto não tenha chegado a ir para a faina do bacalhau, porque os espíritos fizeram-no desaparecer!

- Estás tolo rapaz? – Pergunta Neto.

- Defina tolo!

- Pessoa mentalmente destrambelhada, capaz de fazer coisas estranhas! – Responde Neto, com a sua expressão de extrema felicidade, fruto do matrimónio com Sissi, a vaca.

- Acho que não, Sr. Neto! Sou um bocado destrambelhado e às vezes faço coisas estranhas, mas as duas coisas ao mesmo tempo, não! – Explica Adélio.

- Então podemos continuar com a consulta! – Diz Neto, mais sereno, com a expressão de Sapo Sorridente. Olha atentamente para a bicharada, e: – Parecem-me todos normais, não havendo sinais de fenómenos para além do normal! – E em pensamento, continua: “Tirando tu, seu anormal!”.

- Não, não! – E apontando para os bichos – Isto é um cão possuído! Isto é um hamster possuído! E isto são quatro pombos transformados em hamsters… - E é interrompido por Neto.

- E possuídos também!

- Não, não! São só quatro pombos transformados em hamsters! E como já lhe disse, o meu pai está preso por um espírito qualquer! Coitadinho!

-Bem, tenho que consultar o depósito de chapa, o meu “Oráculo”. – Diz Neto.

-Heinn! – Responde Adélio Dani.

Neto levanta-se e dirige-se para o fundo da garagem, onde tem as motorizadas encostadas, enquanto pensa: “Mais um que quer ouvir só o que lhe interessa”. Coloca o “quico” na cabeça, monta a Famel e durante breves momentos acaricia o depósito de combustível da motorizada! Desmonta a motorizada, saca de pente, penteia o cabelo para o lado e dirige-se novamente para a mesa, no centro da sala. Senta-se e diz:

-Tens toda a razão meu rapaz, a bicharada está toda possuída! – Diz Neto, com a expressão de Sapo Sorridente.

-Bem me parecia! E o meu paizinho, coitadinho! – Pergunta Adélio.

- Hi pá, esse…coitadinho… O teu pai está preso numa cortina espiritual que não o deixa ir para casa…mas ele está próximo!

-E agora Sr. Neto, como é que resolvo este problema?

-Só há um capaz de o fazer! – Diz Neto em tom solene, mas com uma expressão de extrema felicidade.

-Quem? – Pergunta Adélio Dani.

-O padre Rodolfo, da paróquia de Paranhos! O último grande exorcismo que fez foi a uma estátua que estava possuída no largo principal de Miragaia! Mas também me lembro dos tempos em que ele era defesa-central do Canelas F.C., e de forma magistral, despossuía os avançados, da equipa adversária, à sarrafada…que bonito!

Após a explicação Adélio levanta-se e:  – Bicharada, vamos! Até logo Sr. Neto.

-Até logo, o tanas! O meu pagamento? – Pergunta o Neto, com uma expressão de arreliado.

-Mas eu não tenho dinheiro!

-O quê? Seu estupor. Então vens a uma consulta altamente especializada, de elevada performance, que foi como assistir a uma peça de teatro…e não trazes dinheiro?! Fico com os pombos possuídos. – Ordena Neto.

Assim foi.

Adélio Dani já não precisava dos pombos possuídos para salvar vidas como nadador-salvador, porque afinal o seu pai estaria por perto e não teria morrido no naufrágio da traineira! Neto, no final da consulta, já estava cheio de saudades das tetas rijas de Sissi, e ia oferecer-lhe os quatro hamsters!

 

É meio da tarde, Adélio Dani tem uma ligeira ideia de que há missas ao final da tarde. Arrepia caminho com Rubi e o hamster e chega ao Largo Paroquial de Paranhos às 19h45m. Na porta da igreja, olha para o horário das missas e apercebe-se que está a decorrer uma, que tinha começado às 19h. “Deve estar a terminar, vamos entrar!” – Pensou Adélio Dani.

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