Adélio Dani - Episódio XVI

por José Calheiros 0

É meio da tarde, Adélio Dani tem uma ligeira ideia de que há missas ao final da tarde. Arrepia caminho com Rubi e o hamster e chega ao Largo Paroquial de Paranhos às 19h45m. Na porta da igreja, olha para o horário das missas e apercebe-se que está a decorrer uma, que tinha começado às 19h. “Deve estar a terminar, vamos entrar!” – Pensou Adélio Dani.

Adélio e os bichos entram e deixam-se ficar ao fundo da igreja. A missa afinal ainda não tinha começado e todos os paroquianos bufavam, pela falta de paciência. O padre Rodolfo estava atrasado!

Às 20h o padre Rodolfo entra na sacristia. Na nave da igreja já estavam amontoados os fiéis das 19h juntamente com os das 20h. Os das 19h pensam: “Que puto de atrasado”, enquanto os das 20h, pensam: “Certinho como um relógio”!

- Aos das 19h, peço desculpa pelo atraso, mas a culpa não foi minha! Fui ver a final hiper-amadora entre o Grémio do Silo Auto versus Ordem do Carmo F. C. Aquilo começou às 16h e dava para chegar à vontadinha à missa das 19, mas aquilo deu para a porrada, depois empataram, foram a prolongamento, deu para a porrada outra vez, e… - entusiasmado o padre Rodolfo continua: – dei lá uns chapadões, aquilo é que foi! – Apercebendo-se do que acabara de dizer, cala-se com o relato e inicia a missa.

-…e Cristo na última ceia disse – “um de vós vai-me trair, mas não faz mal, porque só podem entrar em campo onze jogadores. Tu, Pedro, vais ser o capitão!” - Ao ouvir isto Paulo interrompe e diz: “- Ó mister e eu?” – Ao qual Cristo responde: – “Eu é que sei. Se continuas a meter nojo, vais para o banco e o Judas entra outra vez na equipa!” – Ao ouvir isto, Judas esfrega as mãos e… - Bem está na hora de um break, quinze minutos para ir à casa de banho e fumar um cigarrinho. – Diz o padre Rodolfo.

-E eu, senhor padre? Eu não fumo, nem tenho vontade de ir à casa de banho! Para mim a missa continua? – Pergunta Anselmo, o maior tótó do Distrito do Porto, natural de Paranhos.

-Vai cheirar ânus de cães! – Responde o padre Rodolfo, farto das tretas do Anselmo, enquanto se encaminha para o exterior da sacristia.

No exterior, o padre Rodolfo vai para as traseiras da igreja, onde já se encontra a sacristã Rosa. Os dois acendem um cigarro e segredam coisas um ao outro.

Adélio Dani e os bichos seguiram o padre Rodolfo. Ao presenciar a intimidade entre o padre Rodolfo e a sacristã Rosa, Adélio não sabe como interromper. Ao fim de dez minutos de intervalo, Adélio lembra-se: “Já sei, vou interromper de forma dramática!”.

Adélio Dani contorna a esquina da igreja, dá uma cabeçada na parede e berra: - Ui, ui, ai ai! – Estatela-se no chão e exclama, bem alto, para ser ouvido: - Caneco, não vi a igreja!

O padre Rodolfo e Rosa olham para o céu e exclamam: -Pareceu-me ouvir algo!

Pela última vez segredam ao ouvido um do outro e dirigem-se para o interior da igreja para dar início à segunda parte da missa. Neste curto trajecto, Rodolfo, o padre, tropeça em Adélio Dani:

- Ui rapaz, a simular faltas no recinto da igreja?! Deus não gosta… - E é interrompido por Rosa.

- Nem eu!

- Não Sr. Padre, o que aconteceu foi que não vi a igreja e dei uma grande cabeçada na parede e caí em desmaio!

- Meu bom rapaz, se és ceguinho, devias usar uma bengalinha ou usar esse belo cão para te guiar!

Rubi e o hamster estão sentados ao lado de Adélio.

- Eu não sou cego, Sr. Padre, sou só um bocadinho distraído! – Explica Adélio Dani.

Ao ouvirem isto, o padre Rodolfo e a sacristã Rosa, olham para o edifício imponente da igreja e pensam: “O gajo não viu isto?”

- Precisas de ajuda? Queres que chame a ambulância? – Pergunta o padre.

Num instante, Adélio Dani levanta-se.

- Não Sr. Padre, eu preciso é de falar consigo. Estes dois bichos estão possuídos e o meu pai está preso numa cortina espiritual! – Explica Adélio.

- Heinn?! – Exclama Rodolfo, não percebendo nada, e prossegue: – Deita-te outra vez e fica aqui quietinho e no fim da missa falamos!

Adélio Dani assim fez, deu outra cabeçada na parede da igreja e berra: - Ui, ui, ai, ai! – Estatela-se no chão e exclama: - Caneco, não vi a igreja!

Rodolfo e Rosa abanam a cabeça e entram no estádio…na igreja, para a segunda parte.

Já no interior da igreja, repleta de gente, o padre Rodolfo não se lembra em que ponto estava da missa quando foram para intervalo e sem saber o que dizer, termina: - Bem, por hoje é tudo, amanhã há missa à mesma hora.

Todos desmobilizam, mas não sem que antes, Anselmo, o maior tótó do Distrito do Porto, natural de Paranhos, repare: - Para isso, quando terminou a primeira parte da missa, tinha acabado a missa toda!

- Vai cheirar ânus de cães! – Responde o padre Rodolfo, enquanto se encaminha, com Rosa, para as traseiras da igreja ao encontro do jovem estranho, que lá tinha ficado deitado!

Já no exterior da igreja, Adélio Dani, ao avistar a comitiva clerical, levanta-se. O padre Rodolfo aproxima-se, tira uns óculos de ver filmes a três dimensões, comprados no Arrábida Shopping quando foi ver o Godzilla com a Aurora, e espeta-os na cara de Adélio Dani.

- Assim, vês melhor? – Pergunta.

- Não! – Responde Adélio Dani.

- E agora? – Pergunta novamente o padre Rodolfo, depois de lhe tirar os óculos da cara.

- Aaahh, agora já vejo bem!

Rodolfo vira-se para Rosa e exclama: – Salvei a vista deste rapaz! – E vira-se novamente para Adélio. Rosa já está de joelhos e de braços esticados para o céu, para agradecer mais um milagre não milagre!

- Então?! Ora explica-me a história maluca de que falaste há pouco! – Pergunta o padre.

- Sr. Padre, estes dois bichos que aqui estão – diz apontando para o Rubi e o hamster – estão possuídos e não me deixam dormir à noite!

- Não me parece! – Contraria o padre.

- Mas estão! – Insiste Adélio.

- Pois estão! – Decide concordar o padre Rodolfo.

Aproxima-se de Rubi e do hamster, põe-lhes a mão em cima e solta uma frase arrepiante, com ritmo caliente: – Largai, espíritos malvados, este cão e rato, oléééééééé! – Volta-se novamente para Adélio, e diz: – Já está!

Rosa cai novamente de joelhos ao tropeçar numa couve, que cresceu miraculosamente na pedra granítica, e estica os braços, para alguém a ajudar!

- Obrigado Sr. Padre, este problema já está resolvido! Falta o outro!

- Que outro, meu filho? – Pergunta Rodolfo.

- O do meu pai. Ele está preso numa cortina espiritual!

- Humm, ora conta-me a história! – Pede o padre Rodolfo.

- Bem senhor padre, foi assim: Eu quando nasci era muito inteligente e…blá, blá, blá, blá, blá…aos seis anos estava formado e tive um esgotamento…blá, blá, blá, blá, blá…o meu pai para melhor sustentar a família saiu para a pesca do bacalhau…blá, blá, blá, blá, blá…uma vizinha diz que o meu pai morreu afogado, outra diz que o tem visto no Porto com outras mulheres…blá, blá, blá, blá, blá…fui pensar na vida e decidi salvar vidas em memória do meu pai…blá, blá, blá, blá, blá…o Neco disse-me que os bichos estavam possuídos e o meu pai preso numa cortina espiritual, e que o padre Rodolfo o pode fazer voltar!

Ao ouvir esta história Rodolfo pensa – O Neto só me lixa!

- E como se chama o teu pai? – Pergunta.

- Augusto, filho de José e de Maria!

Ao ouvir isto, Rodolfo fica atónito! Ele conhece muito bem Augusto dos clubes dançantes do Porto, ele conhece muito bem Augusto o ”Rebola a Bunda”.

-Meu rapaz, vai demorar tempo para salvar o teu pai e mesmo assim não sei se o consigo trazer de volta!

- Por favor Sr. Padre, por favor! – Implora Adélio.

- Bem…nos próximos dois dias não posso fazer nada, vamos receber muitos romeiros para rezar e prestar honra à Couve…Passa por cá depois! – Diz Rodolfo

- Obrigado Sr. Padre! Adeus! – Responde Adélio e feliz por ter os amiguinhos de volta ao mundo dos vivos despossuídos.

Com a felicidade, dá um abraço a Rubi e uma lambidela ao hamster que apanha uma cárie de Adélio e entra em coma nesse mesmo dia, morrendo à noite, rodeado pela família.

 

Nessa mesma noite, o padre Rodolfo iria sair. É “Special night” no “J.D.” e não entram velhas loiras com mais de setenta anos! Rodolfo sabe que vai encontrar Augusto o “Rebola a Bunda”.

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