Adélio Dani - Episódio XVII

por José Calheiros 0

Nessa mesma noite, o padre Rodolfo iria sair. É “Special night” no “J.D.” e não entram velhas loiras com mais de setenta anos! Rodolfo sabe que vai encontrar Augusto o “Rebola a Bunda”.

São 21horas, o padre Rodolfo está em frente ao espelho. Já penteou o cabelo e chegou creme à cara, só lhe falta o adereço que o torna irreconhecível: um foco pendurado na orelha esquerda! Eis o Alex!

São 21h45m, Alex chega ao “J.D.” e há grande confusão à entrada! Martim, o porteiro (há mais de cinquenta anos), tem que pedir o “Cartão do Cidadão” às senhoras que na sua maioria estão na fronteira dos setenta anos!

Alex entra, dá uma vista de olhos e não vê Augusto, apenas nove senhoras, que falsificaram o “Cartão do Cidadão”, para poderem participar nestas noites longas e loucas!

Às 22 horas, com a falta de clientela, Martim suspende a selecção e o espaço de diversão nocturna enche num ápice.

A abertura da pista dá-se ao som de “Cinderela” de Carlos Paião e a seguir o DJ Matos, começa a bombar com os “Gipsy Kings”. Entre as músicas “Jobi Jobá” e “Maria Dolores”, chega Augusto o “Rebola a Bunda”, de costas e aos pulos! Todas as mulheres apreciavam o rabo de Augusto…e ele sabia disso!

Próximo do bar da entrada, Augusto avista Carol, uma senhora viúva e de posses, que o tinha convidado para sair. Augusto tinha negado, dizendo que nessa noite não ia sair, por motivos de doença!

Rapidamente vira a cara e segue para o lado oposto da danceteria. Sem saber, estava a ser seguido por Alex.

- Augusto, Augusto! - Chama Alex.

Augusto pára e olha para trás – É você Alex? Como está?

- Bem, obrigado! Tenho que falar consigo! – Diz Alex. – Vamos para aquela mesa.

Os dois vão para uma mesa, num canto onde podem conversar com alguma privacidade.

- Tenho algo para lhe revelar! – Diz Alex. De repente e sem aviso prévio tira o foco da orelha esquerda!

- O quê?! Não posso crer! Padre Rodolfo??!! – Exclama Augusto, torrencialmente espantado!

- Sim Augusto, sou eu! Tal como o Augusto, também gosto de arrastar a perna pelas pistas de dança! Mas tenho que me disfarçar, a igreja não permite e é por isso que uso esta “capa”! – Explica Rodolfo enquanto segura o foco na mão, e prossegue: – Você compreende-me Augusto, também sou um sedutor das pistas de dança!

- Que estranho! – Exclama Augusto – Mas a igreja permite que os padres tenham “sobrinhas” e “afilhadas”…. hi, hi, hi…

- Estranho é o que tenho para lhe dizer! Está preparado?

- Eh pá, não sei! Se for para ir jogar à bola, agora, não! Não trouxe equipamento, e mesmo que tivesse não dava, já não aguento noventa minutos a correr, agora faço treino específico para duas horas de dança seguidas! – Responde Augusto.

- Poça, duas horas a dançar?! Muito bom! E aguenta??

- Não. Por enquanto só vinte minutos! – Esclarece. – Mas é para jogar à bola?

- Antes fosse uma peladinha, Augusto! Andam à tua procura!

- Elas…humm! Mas qual é a novidade? Às vezes tenho que fugir…eu sei que sou perseguido! Não me deixam em paz, mas também são o meu modo de vida! – Diz Augusto enchendo o peito e esvaziando-o lentamente.

- Quem te procura Augusto, é o teu filho, o Adélio! – Diz o padre Rodolfo em tom dramático.

- O meu filho! – Diz Augusto pensativo, enquanto olha para o ar.

Augusto começa a rebobinar o filme da sua vida. Vai-se lembrando dos relacionamentos tidos até aquele momento e parece-lhe impossível! Muitas das mulheres maduras com quem se tinha relacionado, a natureza já lhes havia fechado a torneira da procriação faz tempo e as raras que estavam ainda no limiar do “procrio não procrio” afinal também não contavam porque a fraca ereção de Augusto não lhe permitia consumar o acto devidamente, por causa dos problemas de próstata, embora Augusto sempre se desculpasse com um “Não me atrais. Vestida és uma coisa, tiras o soutien ficas outra!”

O flashback ainda não tinha terminado e quase perdida no baú das recordações aparece-lhe a memória de Dália, sua mulher, de Adélio Dani, seu filho e do Rubi, o cão amigo!

- Caramba, ao fim de tantos anos! O que é que ele quer?! – Pergunta Augusto.

- Foi uma surpresa saber que o “Rei das pistas” tem um filho! Ele pensa que o Augusto está preso no mundo do além, numa espécie de cortina espiritual e pediu-me ajuda para o trazer para o mundo de cá! – Explica o padre Rodolfo, que entretanto coloca o foco luminoso na orelha, antes que seja descoberto.

- O rapaz tem cada uma! Nunca mais foi o mesmo depois do esgotamento que teve aos seis anos! – Diz Augusto.

- Mas o que vos aconteceu no passado? – Pergunta, o agora, Alex.

Augusto recorda o que queria ter enterrado para sempre – Há muitos, muitos anos, depois de o meu filho ter acabado os estudos superiores, deu-lhe um esgotamento, tinha ele seis anos! A partir daí, a nossa vida começou a andar para o lado…

- Para trás. – Interrompe o Alex.

- O quê? – Pergunta Augusto.

- É para trás que se diz, para trás. - Corrige Alex.

- Não, não, a vida começou a andar para o lado. Eu ia para o trabalho de mota com o Tino, mas ele comprou um carro e comecei a ir ao lado dele. Na mesma altura, na traineira, acabaram com os beliches e começamos a dormir ao lado uns dos outros e…esta… custa…participei numa prova de atletismo para veteranos e pensei que tinha ficado em segundo, mas…o photo-finish mostrou que fiquei em primeiro, lado a lado com o outro primeiro!

- Aaahhh, e depois? – Pergunta Alex.

- Um dia decidi ir para mais longe para melhor sustentar a família! Decidi ir para a faina do bacalhau! Na madrugada seguinte tentei acordar o meu filho e a minha mulher para me despedir e eles…e nem um beijo, continuaram a dormir! Não aguentei tamanha indiferença e não embarquei…comecei a viver à custa das mulheres! – Relata Augusto, com o semblante triste.

Alex levanta-se e antes de partir faz um ultimato a Augusto: – Nunca se atreva a fazer-me o mesmo, nunca pense em acordar-me de madrugada! – E vai.

Augusto atarantado com as novidades, levanta-se e vai para o meio da pista onde, alheio ao mulherio, aplica um novo passo de dança: o movimento “broca” ao som de Jean Michel Jarre.

 

Nesta mesma noite e não muito longe, no salão de jogos de um café havia a reunião dos líderes do novo partido político de esquerda, com liderança repartida por todos os elementos, cinco, que desenhavam a estratégia para as próximas eleições da Junta de freguesia de Campanhã.

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