Não sou da Trofa

por João Mendes 0

Guardiã da passagem entre Douro e Minho, a Trofa é uma terra de registo ancestral que remonta à Idade do Bronze. Por cá passaram romanos que abriram estradas e invasores estrangeiros corridos à pedrada. Anos mais tarde, as locomotivas abriram caminho para o salto tecnológico e a indústria prosperou. Mas faltava qualquer coisa, as exigentes e orgulhosas gentes da Trofa não se sentiam realizadas.

Quando a aldeia se tornou grande demais para o ser, a 16 de Maio de 1984, a Trofa foi elevada a vila, sendo poucos anos depois, precisamente a 2 de Julho de 1993, elevada a cidade. Um crescimento ímpar que reflectia o dinamismo e o carácter empreendedor das suas gentes, que, da agricultura ao têxtil, potenciavam um crescimento assinalável e sustentado. Mas faltava qualquer coisa, as exigentes e orgulhosas gentes da Trofa não se sentiam realizadas.

Reza a lenda que, no dia da Revolução dos Cravos, um forte impulso de liberdade motivou um conjunto de orgulhosos trofenses a fazer da elevação a concelho a sua missão. Depois de 16 anos de clandestinidade, a 14 de Dezembro de 1990, forma-se então a Comissão Promotora do Concelho da Trofa, um grupo de 13 corajosos visionários preparados para das tripas fazer coração e lutar pela total autonomia dos seus pares. Volvidos 8 anos, sob a liderança destes homens, 8 mil trofenses marcharam sobre Lisboa e não arredaram pé da soleira do Parlamento enquanto não lhes fosse dado aquilo que lá tinham ido buscar: uma Trofa elevada a concelho.

Que história admirável, que povo valoroso! Orgulhosas e exigentes, as gentes da Trofa fizeram o seu caminho e tomaram aquilo que era seu por direito. Sentir-se-ão elas realizadas, tendo conseguido todas estas conquistas em tão curto espaço de tempo? Com certeza que não. Está na natureza das suas gentes querer o melhor para os seus e para a sua amada terra. Outras conquistas virão. Eu não sou da Trofa, mas ela também já é minha e eu, humilde, já sou pertença dela.

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Estas linhas foram escritas em parceria com o meu amigo Francisco Sousa Barros, por ocasião da estreia do projecto Orquestra Urbana do André NO, no qual participou com a leitura deste pequeno texto, durante as celebrações do 17º do concelho da Trofa.

O Francisco é a partir de hoje o mais recente membro do painel do E a Trofa é Minha. Com um percurso motivado desde muito cedo para e pela música, é com apenas 13 anos de idade que inicia a sua aventura em rádios locais e piratas. Tendo o seu 1º programa de autor, "Rockodromo", surgido logo no ano de 1992, tinha ele apenas 15 anos de idade. Com passagens por outras rádios locais e o envolvimento em algumas bandas de garagem, abre no ano de 2000 a Crash-Discos, uma emblemática loja de música que o levou também à organização de alguns eventos. Por essa altura era possível encontrá-lo a passar música num ou noutro local. Nunca levando muito a sério essa vertente, mantém durante muitos anos uma postura discreta, apenas passando música em raras ocasiões/locais. Já em 2008, regressa às lides musicais sendo vocalista e fundador do projecto de Intervenção "Model". Em 2012 nasce o projecto Robotic Sessions. O Francisco é também co-fundador do projecto editorial Irreversível, uma magazine online na qual tenho também o prazer e a honra de com ele partilhar o painel. Como o texto em cima refere, ele não nasceu na Trofa mas à muito que está entre nós a dar o seu melhor por esta terra. A Trofa também é dele! Bem-vindo Francisco! 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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