Natal

por Alexandra Santos 0

 (O presente texto é uma obra de ficção)

 

    José não gostava do Natal. Era um dia como outro qualquer. Desde que os seus pais faleceram que já não o celebrava. Não havia razão para isso e sentia-se bem assim. Tinha cinquenta e cinco anos e sempre vivera a vida como quis, ao lado da companhia efémera que quis. Era livre e livre também continuava naquele dia, sem ninguém que o prendesse em casa com festejos de Natal, sem ninguém que o aborrecesse com presentes, sem ninguém que lhe pedisse um afeto ou um abraço…

     Era livre, sem dúvida que era livre, tinha poder de escolha e tinha escolhido momentos de felicidade passageiros aos problemas de uma relação. Talvez por isso ainda permanecesse um homem jovial e atraente, sem os problemas capilares próprios da idade. No entanto, essa liberdade trazia muitas vezes consigo um companheiro indesejado a quem, nos últimos anos, já não tinha força suficiente para impedir a entrada. Ano após ano foi-se apoderando de mais espaço e agora parecia que era só aquilo que sentia: solidão. A lâmina pungente que parecia trespassá-lo fazia-o recordar o passado e pensar numa mulher com quem quase casou. Era alguém que o adorava, que estaria disposta a tudo apenas para estar ao seu lado, a quem ele simplesmente rejeitou. Deixou-a à espera no altar, nunca mais olhou para trás e nunca mais tiveram contacto. Por mais que a amasse, a palavra compromisso era uma gravata demasiado apertada que o sufocava e não o deixava respirar. Mas era nela que ele agora pensava, era ela que ele agora queria ao seu lado, na noite de Natal, era ela a quem gostaria de abraçar, beijar e amar.

     Ao observar, pela janela, as decorações da rua que iluminavam a penumbra da noite, lembrou-se do seu sorriso e da sua alegria inocente quando, há trinta anos, distribuíam comida, roupa e presentes pelos mais carenciados. Foi com ela que ele aprendeu que existe mais felicidade em dar do que em receber. Mas quando se separaram, essa foi uma das lições de vida que depressa esqueceu. Todos aqueles anos de trabalho árduo a gerir uma empresa de informática tornaram-no num homem rico, cujo dinheiro ia gastando num estilo de vida que agora lhe parecia pobre e medíocre.

     Nessa noite de véspera de Natal, José deitou-se cedo e adormeceu com uma foto antiga dela na sua mão. Todas aquelas emoções deixaram-no exausto e seria de esperar que apenas acordasse de manhã. Contudo, despertou a meio da noite com aquilo que lhe pareceu um beijo no rosto. Deveria ter sido um sonho com certeza, mas mal abriu os olhos, iluminada pelas luzes da rua que lhe penetravam no quarto, ali estava ela, sentada na extremidade da cama a olhar e a sorrir para ele. Morena, de cabelos longos e olhos grandes, imune à passagem do tempo, permanecia igual à foto que ele ainda tinha na sua mão. José não conseguia acreditar no que via e decidiu ligar a luz, mas, mal o fez, ela desapareceu.

     O empresário não entendia o que se tinha passado. Só poderia ter sido um sonho, mas ele estava agora bem acordado e a visão do seu antigo amor tinha sido demasiado real. José não conseguiu voltar a dormir, tinha que falar com ela e tinha que descobrir o que lhe tinha acontecido ao longo de todos aqueles anos. Estaria casada? Teria filhos? Seria feliz?

     Esperou de forma ansiosa até amanhecer e ligou para o número de casa dos pais dela, o único contacto que ainda conservava, mantido numa antiga agenda que sempre guardou. Depois de tantos anos, os seus pais já poderiam ter falecido ou mudado de residência, mas tinha que tentar. Após cinco longos toques, a voz de uma mulher mais velha surgiu do outro lado da linha:

     - Estou?

     - Bom dia! Peço desculpa por estar a ligar tão cedo, mas precisava de falar urgentemente com a Ana, ela está? Ou poderia dizer-me onde a posso encontrar? - perguntou o José de forma aparentemente calma, enquanto o seu coração batia freneticamente.

     - Mas isto é algum tipo de brincadeira?! Querem matar uma mulher de oitenta anos? – respondeu a senhora de maneira rude.

     - Peço imensa desculpa, mas eu sou o José… lembra-se de mim? Queria apenas saber como ela está… falar um pouco com ela – desculpou-se o homem de cinquenta e cinco anos, sem perceber a razão de tanta agressividade por alguém que apenas lhe perguntava pela filha.

     - José? És mesmo tu? Como pudeste deixar a minha menina daquela maneira? Ela sofreu tanto! Não teve mais nenhum namorado depois de ti! Dizia que tu um dia regressarias para ela! Continuou sempre à tua espera, até ao dia… Nunca chegaste a saber o que aconteceu?

     - Não… o que aconteceu? – questionou o José, já bastante preocupado.

     - Cinco anos depois do vosso casamento, aquele que nunca aconteceu, a Ana faleceu… foi encontrado um tumor maligno no seu seio, mas já se descobriu tarde…

     - Cancro… - sussurrou, não conseguindo evitar as lágrimas que lhe percorriam pelo rosto.

     - Sim, cancro… - confirmou a mãe de Ana.

     Quando terminaram a chamada, José sentou-se no chão, desfeito com tudo aquilo que lhe tinham dito. Ela nunca tinha deixado de o amar e ele tinha sido o sacana que a abandonou e não esteve presente quando ela mais precisou dele. E agora era tarde… era muito tarde para compensar todo o mal que tinha feito.

     Lembrou-se então da visão que tinha tido e perguntou-se a si próprio se não teria sido mesmo ela, a sua alma, que apesar de todo o mal que ele lhe fez, surgiu para o perdoar ou talvez para lhe enviar outro tipo de mensagem… Limpou então as lágrimas e decidiu agir. Estava na altura de ser o homem que ela sempre acreditou que ele era, estava na altura de seguir todas as lições que ela lhe transmitiu, estava na altura de dar em vez de receber e de ser merecedor de todo o amor que ela tinha tido por ele.

     Anos mais tarde, depois de ter vivido como prometera, podia ler-se na sua lápide:

     José Silva, grande benemérito do concelho, serás sempre recordado como o maior amigo dos desfavorecidos e o Natal dos solitários.

 

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      A todos os leitores, desejo um Natal repleto de luz, magia e felicidade na companhia dos que mais amam.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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