Adélio Dani - Episódio XVIII

por José Calheiros 0

Nesta mesma noite e não muito longe, no salão de jogos de um café havia a reunião dos líderes do novo partido político de esquerda, com liderança repartida por todos os elementos, cinco, que desenhavam a estratégia para as próximas eleições da Junta de freguesia de Campanhã.

Os líderes, João Inseguro, Pietra Anda Lebre, Quico Porcelana, Joaquim Portão e Jerónimo Setúbal, nesta primeira reunião do SP-CPVT (Sou Preguiçoso-Com Pouca Vontade de Trabalhar), acordaram por unanimidade e como verdadeira política de esquerda e igualitária, que todos deviam ser líderes. Quanto aos outros pontos da agenda, todos queriam impor a sua opinião e não havia entendimento…excepto num…teriam de arranjar alguém para colocação dos cartazes para a campanha!

 

Nasce um novo dia no Porto, Adélio pensa que no resto do país também. Para exercitar o corpo e a mente, Adélio, à porta de casa, vira o corpo para a direita e para a esquerda e repete este movimento quatro vezes, graças à sua excelente preparação física. Antes de sair de casa para ir dar uma volta, como bom filho, chama pela mãe, mesmo sabendo que ela já tinha saído bem cedo para o mercado!

Nesse seu passeio com o seu fiel amigo Rubi, foi avistado pelo quinteto do SP-CPVT, que estava sentado na esplanada da pastelaria “Romrom” a desenvolver trabalho, que entre outros, consistia em “ver quem passa”. João Inseguro, o mais sóbrio, que já tinha pedido um copo de leite, avista Adélio parado no outro lado da rua a ver uma montra de material eletrotécnico.

- Pessoal! – Chama João Inseguro.

- O que é que foi? – Perguntam os outros.

- Qual é o perfil do tipo que queremos para colar os cartazes do nosso partido? – Pergunta João Inseguro

- Eh pá! Sei lá! – Respondem os outros em uníssono.

- Pode ser um tipo de aspecto débil e nabo?! – Volta a perguntar João Inseguro.

- Convém que tenha essas características! – Diz Quico Porcelana - Esses geralmente são nabos e comem pouco.

- Então descobri a nossa massa trabalhadora! Venho já.

João Inseguro levanta-se, atravessa a estrada e vai ao encontro de Adélio Dani. Este continua a contemplar a montra com o Rubi.

- Bom dia! – Diz João Inseguro.

- Bom dia! – Responde Adélio.

- Au, au, au. – Responde Rubi.

- Estava a apreciar a forma como admirava aquele micro chip que está na montra! – Diz João Inseguro – Por acaso não está à procura de trabalho?

- Eu não percebo nada destas coisas, quem gosta de ver esta montra é o meu cão, o Rubi! - Esclarece Adélio – Mas eu posso trabalhar!

- Muito bem! Podes aparecer logo no café do Sousa? – Pergunta João Inseguro.

- Sei aonde é. A que horas?

- Ao fim da tardinha. Até logo.

- Até logo.

João Inseguro regressa para a companhia dos seus camaradas e conta o sucedido, depois de terminar o seu copinho de leite. Adélio Dani continua a comtemplar a montra com o Rubi e a pensar que horas seriam “ao fim da tardinha”!

Para não se atrasar e como o assunto parecia importante, depois do almoço, Adélio já estava no café do Sousa. Umas horas depois, ao final da tarde, aparece o quinteto político.

 - Olá jovem vigoroso! – Diz João Inseguro – Quando falámos de manhã não nos chegámos a apresentar! Eu sou o João, este é o Pietra, este é o Quico, este é o Joaquim e este é o Jerónimo. E tu?

 - Eu sou o Adélio e este é o meu amigo Rubi!

Após as apresentações, o quinteto senta-se. Pedem umas cervejolas e João inseguro um copo de leite morninho.

- Adélio, nós somos líderes partidários e o nosso partido vai candidatar-se à Junta de Freguesia de Campanhã. No nosso staff precisamos de operacionais ágeis e competentes para o desempenho de uma função crucial para o crescimento do partido e para o bem-estar da população! – Declara Quico Porcelana.

- O quê? – Pergunta Adélio Dani.

- Bem, precisamos de alguém para colar cartazes. – Diz Jerónimo Setúbal.

- E quanto pagam? – Pergunta Adélio, inocentemente.

- O quê?! – Diz João Inseguro, sentindo-se afrontado com a pergunta, quase virando o copinho de leite – Hoje de manhã falámos de trabalho! Quem falou de remuneração, hein? Sê sério rapaz, sê sério!

- Não sei se te queremos! – Diz Pietra Anda Lebre.

- Desculpem! Dêem-me mais uma oportunidade! Só mais uma, por favor! – Pedincha Adélio.

- Não sei, não sei! Só se pagares o meu copinho de leite! – Propõe João Inseguro.

- E as nossa cervejas! – Remata Quico Porcelana.

Adélio Dani e Rubi terminam o final de tarde a lavar pratos e a varrer o chão do café do Sousa.

 

Dois dias depois desta reunião, Adélio inicia o trabalho de colagem dos cartazes, que tem as iniciais do partido, SP-CPVT, o símbolo do like e a frase “Vamos fazer desaparecer a concorrência”. Na execução deste trabalho tem a ajuda do seu amigo Rubi, que segura o balde da cola e segue as indicações dos líderes, colando os cartazes do SP-CPVT por cima dos cartazes dos outros partidos concorrentes, fazendo do SP-CPVT o partido que diz a verdade!

Apesar do SP-CPVT concorrer à Junta de Campanhã, Adélio Dani, distraído, ia colando cartazes sem ter noção da divisão territorial e sem espanto estava a colar um cartaz por cima de outro pertencente a um partido concorrente à Junta de Paranhos, na parede lateral da igreja!

 

São 19h e a igreja está cheia de fiéis da missa das 18, que ainda não começou por falta do padre…estava atrasado…outra vez. O padre Rodolfo, quando chega vindo de um jogo de poker, ao entrar para a igreja vê alguém na lateral desta e desvia-se para lá.

Conforme se aproxima, vai reconhecendo a pessoa.

- Adélio, és tu? – Pergunta.

- Ó Sr. padre, olá! O que é que faz por aqui? – Pergunta Adélio.

Sem perceber a pergunta, o padre Rodolfo responde. – Então?! Eu sou daqui de Paranhos, dou missa nesta igreja!

- Chiça, estou fora de Campanhã! Desperdicei este cartaz que colei aqui na parede!

O padre Rodolfo afasta-se um pouco da parede, mira, avalia e sentencia – Gosto, deixa estar!

Mais aliviado e pondo as politiquices de lado, Adélio pergunta – Sr. padre, do meu pai, tem novidades?

- Adélio, ainda bem que falas nisso. Pedi ajuda a um amigo, padre também, e numa cerimónia secreta no “PN”, descobrimos que o teu pai não está preso numa cortina espiritual!

- Ai não?!

- Não!

- E então?

- Então, o quê?

- Está preso aonde?

- Ah, sim! O teu pai está preso numa colcha rendada, com folhos a toda a volta, em tons de pérola! É pior do que eu pensava! – Diz o padre Rodolfo.

- Meu Deus! E agora? – Pergunta Adélio.

- Não está nas minhas mãos, nem do meu outro amigo padre! Isto é trabalho para uma bordadeira de Arraiolos! Tenho uma amiga que pode ajudar! – Remata o padre Rodolfo.

Os dois despedem-se. Adélio e Rubi tomam o caminho para Campanhã. O padre Rodolfo acelera o passo com três preocupações: Primeira - Evitar bater o recorde de atraso, segunda - livrar-se desta história Adélio/Augusto e terceira – como perdeu o dinheiro todo no poker, espera que ainda esteja gente na igreja à espera da missa, para fazer um peditório de esmolas para os pobrezinhos.

 

Nessa noite, é “noite da mulher” no “BL Show”. São 22h. O padre Rodolfo estaciona a viatura paroquial próximo da danceteria “BL Show” e antes de sair do carro olha-se no espelho retrovisor e apercebe-se que não colocou o foco na orelha esquerda.

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