Adélio Dani - Episódio XX

por José Calheiros 0

Nasce um novo dia em Campanhã, Adélio cada dia que passa está mais seguro que o dia nasce também para todo o país.

 

Dália já saiu para o mercado sem a preocupação do arranjo floral enquanto Adélio está na casa de banho a fazer chichi, para depois voltar para a cama. A meio da manhã acorda e toma um pequeno-almoço vigoroso, para o último dia de colagem de cartazes: um copo de leite e um pão, que seria com manteiga se ela não tivesse acabado no dia anterior.

Nesse dia, a sua acção seria bastante selectiva, estilo sniper, colaria cartazes apenas aonde ainda houvesse cartazes dos adversários à vista. Quanto aos líderes do SP-CPVT, inovaram, e em vez da tradicional campanha de feira, optaram pela campanha de esplanada, sentadinhos e com cervejola na mão…ou copo de leite morninho.

Chega a meia-noite e o fim de campanha. A cúpula do partido e o seu militante tinham combinado reunirem-se na tabacaria do Viriato. Enquanto não estão todos reunidos, os presentes vão fumando e vendo revistas porno e riem-se com algumas posições acrobáticas dignas de “circo”.

O último a chegar é Adélio, que colou a última metade do último cartaz dois segundos depois da meia-noite, sendo apanhado em incumprimento por um dos inspectores de campanha e que perante os regulamentos, Adélio pode sofrer, à sua escolha, uma de três advertências, a saber: Primeira - pagar uma multa ou subornar o inspector; segunda - pagar uma coima ou subornar o inspector; terceira – se tiveres uma irmã boa, apresenta-a ao inspector, se não tiveres, pagas uma multa e uma coima ou subornas o inspector, hoje e amanhã.

Adélio escolheu a terceira opção e tem dezoito anos para a pagar. Torna-se desta forma ainda mais urgente libertar o pai da “colcha rendada espiritual”, juntá-lo com a mãe e esperar que esta prenhe de uma menina!

Adélio chega à tabacaria a correr, às 00:30 horas. Está tudo muito alegre, menos João Inseguro que está a ressacar pela falta de um copo de leite morninho. Viriato, na sua tabacaria só vende bens de consumo para homens. Mais de metade da sua clientela já morreu de cancros diversos e cirrose…a venda de leite está proibida!

- Chegou o homem! Adélio, não percas o lanço e vai depressa à bomba comprar um litro de leite! – Diz Pietra Anda Lebre.

Sem parar, Adélio dá meia volta e corre em direção à bomba de gasolina mais próxima. Pelo caminho pensava: “Como é que vou fazer? Não tenho dinheiro e roubar não roubo!”.

Inexplicavelmente, Adélio cruza-se por um biberão cheio de leite e morninho e grita: – “Que sorte!”.

Dá meia volta e regressa à tabacaria. Quando chega:

 - Depressa, dá-me isso! – Diz Pietra Anda Lebre e enfia o biberão na boca de João Inseguro, que já revirava os olhos.

Após a recuperação de Inseguro, juntam-se à volta de uma mesa. Combinam, sem consenso, quem representaria o partido na mesa de voto no domingo, dia de eleição. Não que não quisessem estar presentes, mas ninguém queria ter que se levantar tão cedo, pois todos tinham “cenas” combinadas para sábado à noite. Jerónimo Setúbal relembra os fundamentos de esquerda, massificadores e com pouco respeito pela individualidade do SP-CPVT e propõe: – Vamos todos para a mesa de voto!

A moer, os restantes concordam!

 

Chega o domingo, dia de eleições. São sete da manhã. Adélio está a fazer chichi para voltar para a cama e os líderes partidários do SP-CPVT estão a acordar para se apresentarem na mesa de voto colocada na Escola Primária de Campanhã, que abre às 8 horas. Às 07:40 todos os líderes do SP-CPVT estão à porta da escola.

- Preparados, camaradas? – Pergunta Jerónimo Setúbal.

- Hum! – responde Pietra Anda Lebre.

- Eu ainda não tomei o meu leitinho! – Diz João Inseguro, amuadinho.

- Eu vi na televisão que o tempo para hoje vai estar muito bom! – Diz Joaquim Portão.

- E se nós, como verdadeiros defensores da ideologia de esquerda do nosso partido, fôssemos todos a reboque uns dos outros para a praia… que eu quero?!

- Boa ideia! E quem representa o partido? – Pergunta Jerónimo Setúbal.

- O Adélio. Ele é colher para toda a massa do partido.

- Boa, bem visto! – Apoia José Inseguro, e prossegue: – A caminho da praia, podemos parar para tomar o pequeno-almoço?

Põem-se a caminho da casa de Adélio, de onde o carregam e o levam para a mesa de voto e onde lhe explicam que vai representar o partido. Chegam à Escola Primária de Campanhã às 08:30, deixam o Adélio e arrancam para a praia de Moreiró, em Labruge.

Adélio entra na sala onde vai decorrer a votação e reconhece os representantes dos outros partidos. Todos eles são jovens com quem Adélio já se tinha travado de razões durante a campanha eleitoral. Todos eles eram coladores de cartazes…sem cão! Adélio toma o seu lugar na mesa de voto e o tempo passa sem que ninguém entre… e a temperatura a aumentar….O tempo não parava de passar e em vez de entrarem votantes, os outros responsáveis partidários foram abandonando a mesa de voto, para irem para a praia. Às dez horas, Adélio estava só!

Sem boleia para ir à praia e sem nada que fazer, Dália decide ir votar. Na Areosa, Augusto acorda, olha para o lado e dá um berro, assustado com as feições da senhora de meia-idade deitada a seu lado. Com o berro a senhora acorda e Augusto para escapar o mais depressa possível, diz-lhe a primeira coisa que lhe vem à cabeça: – Vou votar, até logo! – Ao que a senhora pergunta: - Logo à noite apareces para me coçar o pézinho?

Sem responder, Augusto sai a pensar: “Tenho que ser mais selectivo…mas esta era a melhorzinha!”

Dália e Augusto, vindos de lados opostos aproximam-se da escola primária de Campanhã. Dália chega primeiro, entra na sala de voto, olha para a mesa e vê o seu filho.

- Adélio! Vieste votar? Podias ter dito, que vinha contigo.

- Não mãezinha querida, vim como representante de um partido, mas toda a gente foi-se embora e agora também sou o Presidente da mesa de voto! – Explica Adélio.

Dália, ao ouvir estas palavras que soaram melhor que mel para os ouvidos, desmaia atropelada por este “veículo pesado” de emoção…é o sonho de mãe de muitos anos que vê concretizado, quando pensava que já não havia salvação, após o esgotamento de Adélio aos cinco anos e meio!

Após o tombo de Dália, Augusto entra na sala de voto e avista Adélio que não vê há anos mas não o reconhece!

- Paiiiiii! – Exclama Adélio quando vê Augusto.

- Adélio???!!!!!! – Pergunta Augusto, com espanto.

- Sim pai, sou eu! A mãe caiu!

Augusto olha para baixo e vê uma mulher desmaiada, que lhe parece a sua mulher Dália.

- Não te preocupes Adélio, vou dar um beijo de príncipe à tua mãe!

- Pai, é melhor fazeres-lhe uma respiração boca a boca! – Propõe Adélio.

- Então faço um “dois em um”!

Augusto baixa-se, e encosta os seus lábios nos lábios de Dália. Ao primeiro toque, Dália abre os olhos, vê Augusto e pensa: “Finalmente vou comer bacalhau!”. Ao ver aquela imagem terna dos progenitores, Adélio debruça-se e abraça os pais, feliz por Dália recuperar a consciência e continuar a ter quem cozinhe lá em casa e pelo pai voltar ao mundo dos vivos, depois de se libertar da “colcha rendada espiritual”!

Ao fim de tantos anos, Adélio finalmente vê a família reunida e solta um berro de felicidade, semelhante ao de um Panda, quando escapa aos caçadores furtivos!

 

Devido à sua incompetência, Adélio faz uma careira brilhante no partido, tendo chegado a Primeiro-ministro com quinze cursos superiores acumulados, algumas engenharias tiradas ao domingo e outros cursos tirados em três semanas, por equivalências!

Adélio fica bem na vida, assim como seus pais, que ficam ricos depois de deixarem de trabalhar!

 

                                            FIM

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