Selfie

por Alexandra Santos 0

    (texto ficcional)

     Catarina era apaixonada pela sua imagem e pelo poder que esta lhe trazia. Selfie atrás de selfie revelava todo o seu esplendor, toda a sua beleza e todos os amigos que possuía nas redes sociais. Menos de trezentos “gostos” era completamente impensável e ela esmerava-se para ser aquela que todos queriam ver, todos queriam admirar, todos queriam ser.

     Um dia, todo o seu glamour se extinguiu. Um dia, todo o seu mundo colidiu com as suas prioridades, porque um dia o seu carro capotou, porque um dia decidiu tirar outra selfie enquanto conduzia.

     Todos comentaram nas redes sociais, todos aqueles que a adoravam, agora a criticavam. Como podia ela ser tão irresponsável? Como podia ela não pensar nas consequências dos seus atos? Como podia ela, a rapariga mais bonita da faculdade, ter agora rosto de monstro?

     Catarina viu-se num mundo desconhecido. Aquela com cicatrizes horríveis que lhe olhava no espelho não era ela. Aquela que mal conseguia pronunciar qualquer palavra não era ela. Aquela a quem ninguém visitava não era ela. Aquela a quem todos criticavam não era ela.

     Mas quem era ela afinal? Quem era a Catarina? Uma jovem lindíssima, inteligente, mas fútil, que tinha passado metade da sua existência a preocupar-se apenas com a sua imagem e a beleza exterior. O culto da beleza efémera era demasiado intoxicante. E agora? O que tinha? Nada… E agora o que ia ser da sua vida, do seu futuro? Estudava Comunicação Social porque tinha planos para trabalhar na televisão. Tinha planos para ser uma grande apresentadora. Tinha planos para ser o próximo rosto de Portugal. Catarina chorou e depois riu-se dos seus sonhos que agora lhe pareciam ridículos e insignificantes. Olhou-se novamente ao espelho e lembrou-se dos seus pais, as pessoas que sempre a amaram e não se assustaram quando a viram depois do acidente. Pessoas fortes e carinhosas que sempre lhe disseram que a beleza mais importante era a interior, embora durante muitos anos preferisse não acreditar. Pessoas sensíveis e inteligentes que sempre a levaram a crer que poderia ser tudo aquilo que quisesse se lutasse por isso.

    Outros sonhos precisariam de nascer, mas, pelos seus pais e por si, ela encontraria a força necessária para vencer. Por eles e por si, ela não desistiria de viver. Por eles e por si, ela encontraria o seu lugar no mundo e o seu verdadeiro ser.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.