Melita

por Alexandra Santos 0

     Melita espreitava por entre a porta entreaberta e não entendia muito bem o que via. Ele gritava bem alto e gesticulava os seus braços, de forma agressiva, em direção a ela, a sua mamã, que, aninhada, chorava e dizia: “Nunca mais! Nunca mais!”

     Melita, de olhos bem arregalados, absorvia tudo aquilo a que assistia, mas nada entendia, só sabia que aquilo lhe causava dor, que aquilo era mau e que a sua mamã sofria.

     Teria a mamã arreliado o papá? Ele era tão bom para as duas quando elas se portavam bem. Ria com elas, brincava, levava-as a passear e comprava-lhes muitas, muitas coisas. Melita gostava do seu pai, gostava quando ele lhe dava carinho e atenção, mas bem sabia como de repente o seu humor podia mudar. Para evitar que se zangasse tentava ser a menina mais bem comportada que podia ser, mas nem sempre conseguia, havia sempre algo que levava o papá a chatear-se, a levantar a voz ou a erguer a mão. De dia para dia, ele parecia zangar-se com mais frequência e tinha cada vez menos paciência para a mamã e para ela. Também já tinha notado que de dia para dia consumia mais uma bebida de cheiro estranho de uma garrafa com um rótulo que Melita ainda não conseguia ler.

      Lembrou-se de repente que tinha deixado a sua boneca no chão da cozinha. O papá detestava ver brinquedos espalhados. Oh, não! A culpa era dela! A mamã sofria por causa dela! Com este pensamento, Melita correu para os braços de sua mãe e, também ela a chorar, olhou para o seu pai e pediu-lhe para parar. O rogo desesperado daquela criança inocente não o fez travar e levantou mais uma vez a sua mão para punir as duas que, na sua mente, mereciam um corretivo. A mamã afastou Melita e, com um golpe, caiu no chão a sangrar.

     - Mamã! Mamã! – gritava a menina, a chorar compulsivamente, ao lado do corpo tombado de sua mãe.

     Depois da sua mulher seria a vez da sua filha para aprender a estar calada e quieta no seu quarto. Ergueu mais uma vez a sua mão, mas a progenitora, munida de uma força incompreensível para muitos, mas que apenas as mães parecem ter, conseguiu levantar-se, pegar na garrafa tão querida do seu esposo, que se encontrava mesmo ao seu lado, e deixá-lo inanimado com apenas uma pancada.

     Dias depois, já noutra casa, e com o papá muito distante, Melita sentia-se protegida, mas um medo ainda a perseguia. Perguntou então à sua mãe se ele as poderia encontrar e magoar novamente. A mamã abraçou-a, acalmou-a e com um grande sorriso respondeu-lhe: “Nunca mais! Nunca mais!”

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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