Sobre a demolição da ponte da Peça Má

por João Mendes 0

Consumado mais um atentado contra a história e o património comum do concelho da Trofa, as redes sociais incendiaram-se de forma rara por estas bandas. A página do …e a Trofa é minha, bem como as páginas d’O Notícias da Trofa e da Trofa – uma história em fotografias foram palco de acesos debates, protagonizados por quatro “facções”: aqueles que se opuseram à demolição, aqueles que defenderam a demolição, aqueles que nem sequer sabiam muito bem do que estavam a falar, muitos deles sequer são trofenses para poder perceber o sentimento de pertença, nomeadamente da população de Alvarelhos e Muro, mais próximos da ponte da Peça Má e, por fim, os habituais tropas de choque do actual executivo que, achando que a defesa da ponte era um ataque ao sacrossanto Sérgio Humberto, decidiram reagir de forma agressiva e contraditória. Quanto a estes últimos, encontram-se entre eles muitos daqueles que, de igual forma, se indignaram contra a demolição dos coretos e o abate de árvores no parque. Ou aqueles que fizeram da requalificação do Lavadouro das Aldeias do Nascente, em Alvarelhos, uma grande intervenção de protecção do património local. Alguns desses falsos moralistas estão mesmo a gozar com a situação. Tirem as vossas próprias conclusões.

Importa aqui deixar bem claro, para memória futura daqueles que se esquecem selectivamente de algumas coisas, que o que aconteceu ontem é o resultado de 18 anos de políticas de defesa do património insuficientes, medíocres e irresponsáveis, bem visíveis em questões tão simples como o acesso ao Castro de Alvarelhos, um absoluto degredo, que até à bem pouco tempo não tinha sequer placas de sinalização que indicassem o seu caminho. Adivinhem lá quem é que interpelou o executivo sobre este problema. Se a vossa resposta é blogue …e a Trofa é minha, parabéns, acertaram na mouche.

Regressando aos responsáveis, importa dizer que, ao longo de todos estes anos, nenhum executivo teve a preocupação de tomar medidas para proteger a estrutura, nomeadamente através da classificação como património. Nada foi feito por Bernardino Vasconcelos, nada foi feito por Joana Lima – e, convém ter em conta, é o PS quem actualmente “manda” na Metro do Porto – e nada foi feito pelo actual executivo, isto apesar de podermos ler, no programa da coligação Unidos pela Trofa, o seguinte:

2.3 Cultura e Turismo

(…)

Valorizar o património cultural do concelho, apostando em centros de documentação especializados nas vertentes da arqueologia (tendo como ponto de partida o Castro de Alvarelhos); arte sacra e contemporânea (para a área do Vale do Coronado); etnografia e arquitectura tradicional (potenciando os sistemas moageiros, artefactos e saberes, associados à cultura popular do concelho).”

Quanto ao Castro, em estado de quase abandono e com acessos ao nível de país terceiro-mundista, pouco haverá a dizer. A realidade fala por si. Mas quando leio, neste parágrafo que parece aqui estar para encher chouriços, a intenção do actual executivo em apostar na etnografia e arquitectura tradicional associada à cultura popular do concelho, questiono-me sobre em que medida é que a ponte da Peça Má não se inclui neste pressuposto. Uma ponte que era uma autêntica porta de entrada na freguesia do Muro, nascida, se não estou em erro, no ano de 1937, que fez parte da vida de tantos trofenses, que tantas memórias encerra, nomeadamente para as populações mais próximas, de um estilo arquitectónico em desaparecimento e que nos remete para a história do verdadeiro progresso na Trofa, que gravitou, durante décadas, em torno do transporte ferroviário, não será ela, no mínimo, uma peça de “arquitectura tradicional” “associada à cultura popular do concelho”? E o que fez a coligação no poder para impedir a sua demolição? Nada. Nem a prometida comissão, nem o referendo, nada. Nem uma palavra. Só um comunicado ao melhor estilo de Pôncio Pilatos. 

Claro que, e usando as palavras outrora usadas por elementos afectos aos partidos actualmente no poder, Sérgio Humberto estava mais ocupado a fazer campanha no Passeio Sénior da Trofa. Não vá o senhor ter que levar com o Photoshop outra vez para parecer mais velho nos cartazes da campanha. Mas, é minha opinião, independentemente do desfecho de ontem, o presidente da CM da Trofa podia e devia ter tomado uma posição pública, ao invés de se esconder atrás de um comunicado escrito por uma qualquer assessora. Podia ter estado presente como fez por altura da inauguração da remodelação do Lavadouro das Aldeias do Nascente. Mas Sérgio Humberto não esteve presente. Nem proferiu, que seja do meu conhecimento, uma palavra de consideração pela indignação popular gerada por esta decisão. Nest caso, e para quem assumiu como missão devolver o orgulho aos trofenses, o autarca não podia estar mais afastado daquilo com que se comprometeu, em 2013, no seu programa eleitoral:
 

O meu desejo, a minha determinação é uma só: devolver o orgulho a todos os trofenses. O orgulho de sermos independentes. O orgulho de sermos nós, povo da Trofa, a comandar o nosso destino. Sem deixar ninguém para trás. Sem perder grande tempo a olhar para os erros do passado e, isso sim, estarmos todos focados no futuro.

Parabéns senhor presidente! Milhares de trofenses, em especial as populações mais próximas da ponte da Peça Má, foram impedidos de comandar o seu destino. Foram deixados para trás. E se tivesse perdido algum tempo a olhar para os erros do passado nesta matéria, como tem feito noutras mais convenientes para a sua estratégia política, contrariando o que estava escrito no seu programa, talvez se tivesse encontrado uma solução. 

Finalmente, existe um “pequeno detalhe” a ter em consideração: segundo o estudo encomendado pelo comendador Eurico Ferreira, o custo da obra para corrigir o problema de espaço, nomeadamente no que diz respeito à circulação de camiões, seria, alegadamente, a rondar os 30 mil euros. Alguém me explica como é possível não dispormos de tal verba para essa obra quando se têm gasto centenas de milhares de euros em publicidade nos últimos anos? Quando se gastam 120 mil euros para inaugurar a obra dos parquesQuando se gastam perto de 60 mil euros em publicidade para o embargado Parque das Azenhas? Quando se gastam 24 mil euros num ajuste directo aos antigos proprietários do Correio da Trofa para um concurso de fotografia e uma revista que ninguém viu? Pois, se calhar sou eu que sou do contra, enfim. 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

Comentários

  1. Pedro Araujo

    Foi um erro nada terem feito para evitar a demolição da ponte da Peça Má, poderia ser aproveitada para ser utilizada numa futura ciclovia, aproximando freguesias e fomentando a pratica de atividade física, utilizando o ramal da antiga linha de comboio, várias vezes passei lá de bicicleta. É sempre muito mau a destruição de património do nosso concelho.

  1. Amadeu Jose Bento Machado

    A julgar pelo que se vê na foto publicada, ou a revolta das populações não é a que querem fazer crer, ou houve cerco policial que impediu a população de ocorrer ao local para manifestar a sua insatisfação… Os tais interesses políticos de que são acusados os outros, acho que são os mesmos que desacatam o autor destas linhas. A estratégia de misturar lutas MUITO JUSTAS, como o Castro de Alvarelhos, etc. com este assunto, é atitude que, para alguém menos avisado pode resultar, mas comigo não pega. Estou a chegar aos 70 anos e já tenho “calo de macaco” suficiente para não entrar por esses caminhos, caro amigo. Vamos tratar de um assunto de cada vez, ok??? Diga-me lá em que é que a ponte da Peça Má faz parte da vida dos trofenses do Muro e Alvarelhos… costumam ir fazer pic-nics para lá, tirar fotos debaixo dela, ou qualquer outro tipo de actividade do género, ou limitam-se a passar sob ela como os restantes trofenses, portugueses e estrangeiros que por aquela Estrada passam??? O estilo arquitetónico é inglês, uma mera imitação feita na altura por quem a construiu, vamos valorizar as imitações chinesas que por aí proliferam ao preço da chuva??? A construção é um ABORTO, pois foi construída na maior ignorância obliquamente em relação à Estrada sobre a qual passa. “Uma peça de “arquitectura tradicional” “associada à cultura popular do concelho”?” Pois se é uma imitação da arquitectura inglesa do tempo da revolução industrial? Que tem isso a ver com a CULTURA POPULAR DO CONCELHO??? Não vejo esses milhares de pessoas a manifestar a sua revolta, na foto que publica nem acredito que lá tenham estado. A sua necessidade de preencher este espaço está a transformá-lo num maldizente crónico. Preocupe-se com esse sintoma Sr. João Mendes, ainda é tão novinho… é uma lástima. Passe bem

    1. Fernando Almeida

      Sr. Amadeu José Bento Machado, Queira aceitar as minhas felicitações, pelo comentário de V. Exa. Foi o que de mais coerente já li, sobre esse malfadado viaduto, desde que o conheço. Realmente: 1.- Onde residem a originalidade e o valor da arquitectura em assunto ? 2.- Aquilo sempre foi uma "RATOEIRA", à espera de algum condutor de automóvel ligeiro ou de pesado camião, que não estivesse ao corrente do perigo eminente. 3.- Numa data, situada entre 1972 e 1974 (não sei precisar), estava eu a descer de automóvel, a caminho de Famalicão, naquele lugar. Poucos metros antes de chegar ao tal precioso viaduto parei, porque havia interrupção de trânsito, no local. À minha direita, num pequeno talude que existia por ali (agora está um pouco diferente), havia um automóvel, esmagado por um contentor que se desprendera de um camião, quando este, vindo em direcção ao Porto, bateu no arco do tal viaduto e foi tombar em cima do automóvel, onde esmagou o infeliz condutor. O acidente havia ocorrido minutos antes da minha chegada, segundo alguém ali me informou. 4.- Tinha passado por ali "MILHÕES DE VEZES". O cenário habitual era observar os camiões a ocupar todo o centro da EN14, para evitar choques nas pedras do arco, obrigando toda a gente a esperar que a referida EN14 voltasse a ficar transitável, sob o "VALIOSÍSSIMO VIADUTO". 5.- Nunca vi, a "montante" nem a "jusante" desse viaduto, qualquer sinalização prevista na "ENGENHARIA DE TRÂNSITO", para avisar que havia por ali um "ESTREITAMENTO DA VIA". De resto, "ENGENHARIA DE TRÂNSITO" apenas tem, de "pomposo", o nome. 6.- Ninguém conseguiu chegar à solução, mais simples e imediata, qual seria a de rebaixar o pavimento da EN14, um ou dois metros, a fim de que todos os perigos acima referidos fossem abolidos, de uma vez. 7.- Agora, apenas temos gente a protestar contra a remoção do viaduto. Ninguém apareceu antes, a referir qualquer coisa parecida com o que acima deixei exposto, protestando contra a continuada e absoluta falta de segurança, nesse local, que é chamado de PEÇA MÁ.

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