O grunho e os criminosos – uma história de corrupção e paus mandados

por João Mendes 0

Há muito, muito tempo atrás, numa terra governada por pessoas que tiravam a todos para dar aos amigos, havia um grupo de plebeus que decidiram insurgir-se contra a pouca vergonha. Naquela terra, quem fazia a lei era um grupo de criminosos, que disfarçado com os seus colarinhos brancos, enganava muitos com as suas mentiras e ilusões, comprando uns quantos com empregos, avenças e contratos-fantasma, que por sua vez passavam a alinhar no esquema corrupto, protegendo e ocultando os crimes e atacando que ousava denunciá-los.

Contudo, e apesar dos rios de dinheiro público que gastavam para tentar abafar os insurgentes, com os seus folhetos e esquemas rasteiros, cada vez mais plebeus iam percebendo que algo não estava certo e começavam a questionar o que se estava a passar. A arrogância e a altivez dos criminosos era tal que não se davam sequer ao trabalho de esconder os seus crimes, o que, perante a crescente consciencialização da maioria, espoliada e oprimida, se ia tornando cada vez mais óbvio.

Um a um, os corruptos ilusionistas deixaram de ter argumentos. Restava-lhes uma cassete riscada que para pouco ou nada servia. E cada vez mais pessoas começaram a desconfiar que algo de muito estranho se passava ali. Preocupados em não desgastar mais a sua imagem, porque as eleições se aproximavam e a imagem de alguns destes criminosos estava já na lama, precisavam de alguém idiota o suficiente para se queimar por eles. E nem precisava de ser um idiota muito inteligente, apenas um idiota útil. Um idiota capaz de ser um mero testa-de-ferro, disposto a ser um pau mandado que, desta forma, sairia da sua caverna, ganharia bom dinheiro, do tal que era sacado a todos, e conseguiria o tão desejado protagonismo. Um idiota corrupto, portanto. 

E é então que surge o grunho. O grunho era o idiota perfeito: desbocado, mal-educado, sem conteúdo ou escrúpulos, burro como uma porta e com a espinha dorsal de um caracol. Estava disposto a tudo por algum protagonismo e pelo preço certo em euros. Como de costume, os criminosos perceberam a utilidade do grunho, e usando algum dinheiro que tinham guardado num saco de cor azul, ofereceram-lhe um megafone para gritar o seu amor ao crime e o seu ódio a quem o contestasse, usando a mentira e a difamação como argumentos centrais na gritaria. As contradições eram gritantes, acertavam em cheio no grunho, mas ele era idiota demais para perceber isso. E mesmo que não fosse, era para dar a cara que lhe pagavam, não para pensar.

Como o grunho era mesmo muito idiota e praticamente analfabeto, os criminosos escreviam as suas palavras de ordem, sendo que o grunho se limitava a berrá-las ao megafone. Talvez por esse motivo, ou porque o dinheiro era tanto que ele era capaz de tudo, entrava permanentemente em contradição, transformando-se, aos poucos, na anedota da corte dos criminosos, que nunca apareciam às suas manifestações, tal era a vergonha alheia que causava. O único apoio que recebia era o de outros que, não sendo idiotas como ele, eram também bem pagos com dinheiro do tal saco de cor azul para servirem os criminosos.

Ainda assim, achando-se o maior grunho de todos os tempos, o nosso simpático idiota lá ia grunhindo o que lhe mandavam grunhir, com a assertividade e a objectividade de um paralelo, até que um dia, apanhado na sua própria esparrela, foi exposto e condenado à vergonha e à humilhação em praça pública. Nesse dia, coitado, nenhum dos criminosos lhe deitou a mão. Nem mesmo um dos chefes do gangue, que apesar dos abraços e das palmadas nas costas, deixou o grunho cair desamparado, como de resto havia feito com outros grunhos que tinham vindo antes dele. Porque o grunho, achando-se um deles, era na verdade um mero instrumento. Um pau mandado sem voto na matéria. Um idiota útil com uma cassete encravada, telecomandado, servil e descartável. E nunca mais se ouviu falar do grunho.

Reza a lenda que, humilhado e deprimido, consciente de ter sido uma marioneta nas mãos dos criminosos, o grunho lá voltou à sua caverna, podendo ser ouvido, em noites de lua cheia, a grunhir desesperadamente à procura da atenção que nunca mais teve. Os criminosos lá arranjaram outros grunhos, que, tal como o nosso grunho, foram sendo descartados, um a um, até ao dia em que a lei chegou à terra e os levou a todos para a prisão. E a plebe viveu feliz para sempre.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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