Do desrespeito pelo associativismo

por João Mendes 0

Como vem sendo habitual, e dentro dos prazos estabelecidos pela autarquia, o Clube Slotcar da Trofa (CST) entregou o seu plano de actividades e respectiva candidatura ao apoio financeiro ao associativismo para o ano de 2016, no âmbito do Programa de Apoio ao Associativismo da Câmara Municipal da Trofa.

Desde então, Setembro de 2015, não só não obtivemos qualquer financiamento por parte da autarquia, como, mais grave, não nos foi dada qualquer resposta. Com o passar dos meses, em sede de Conselho Municipal de Juventude, no qual represento a associação, questionei, por duas vezes, o vereador do Desporto e da Juventude, Renato Pinto Ribeiro, sobre o ponto de situação, fosse ele qual fosse, sem que, em momento algum, tenha recebido uma resposta conclusiva. O ano chegou ao fim, o financiamento não apareceu e nem uma simples resposta, em linha com as mais elementares regras do respeito institucional e da boa educação nos foi dada. Vergonhoso.

O actual executivo, que fez do associativismo uma bandeira na campanha eleitoral de 2013, é encabeçado pela pessoa que, por ocasião da inauguração da sede do Clube, teceu rasgados elogios ao trabalho desenvolvido por esta colectividade. Afirmou mesmo o “enorme prazer e enorme orgulho” que era para ele ser presidente de uma autarquia que tinha “uma associação de cariz juvenil com esta dinâmica e com esta propensão a ser arrojada nos dias de hoje”, e, entre inúmeros elogios, rematou da seguinte forma:

A Trofa é isto mesmo. A Trofa é um concelho novo, recente, o mais recente a par de Odivelas, tem uma enorme potencialidade e o exemplo é esta associação, que consegue se impor naquilo que entra e consegue vencer. E a Trofa é isso que vai fazer. Vai fazer, tem que fazer, através das suas freguesias, através das suas associações, das suas colectividades, dos seus empresários, dos seus comerciantes, mas também nós temos que ajudar enquanto entidades públicas, gerindo muito bem o dinheiro. E é isso que temos que fazer. É apostar em colectividades que realmente (…), e apostar e apoiar porque é uma obrigação. E eu dou aqui um pequeno exemplo: das poucas reuniões que tivemos com algumas colectividades, muitas delas, e este é um grande exemplo, onde estava presente acompanhando o presidente do Slotcar, foi “Nós não queremos saber de dinheiro. Nós queremos falar de projectos e perceber o que é que a câmara municipal está disponível a apoiar estes projectos do Slotcar”. E portanto, quando isto acontece, é muito fácil e obviamente o Slotcar terá sempre um parceiro na câmara municipal e obrigado pelo trabalho que desenvolvem, dia-a-dia, em prol da nossa comunidade. Muito obrigado a todos.”

Passados mais de dois anos, da parte que nos toca, nada mudou. Apesar da ausência de apoio e dos duros condicionalismos que nos foram impostos pelo poder político, o Clube continuou a promover uma série de actividades, do desporto à acção social, passando pela música ou pela fotografia, provando, de forma clara e inequívoca, aquilo que Sérgio Humberto referiu no discurso citado: que não queremos saber de dinheiro mas de projectos. Claro que, com o dinheiro que poderíamos ter recebido da autarquia, mais projectos teriam avançado. Mais oportunidades poderiam ter sido dadas, nas mais variadas áreas, aos jovens da Trofa. Mas, aparentemente, as palavras do autarca, naquela inauguração de 2014, não valiam nada. Onde está o “orgulho” e a “obrigação” de apostar e apoiar uma associação como o CST? Em lado nenhum. Tal como a resposta à nossa candidatura, que voltamos a apresentar para 2017. Fica o registo e a experiência para a campanha eleitoral que se avizinha: o melhor mesmo é não confiar.

(originalmente publicado na edição de 12 de Janeiro de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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