Não se recandidate, senhora deputada

por João Mendes 0

Diz-se por aí, o que vale sempre o que vale, que a ex-autarca Joana Lima é uma forte possibilidade para representar o PS Trofa na corrida autárquica deste ano. Uma aspiração que, a confirmar-se, é absolutamente legítima. Não obstante, penso que seria também um enorme tiro no pé, não só no de Joana Lima como no da concelhia do PS Trofa.

Joana Lima, ao contrário daquilo que parece ser regra neste país, não conseguiu ser reeleita para um segundo mandato à frente do município. Poder-se-á argumentar que tal só foi possível porque PSD e CDS-PP surgiram coligados, mas importa recordar que, em 2009, os dois partidos somavam, ainda que com candidaturas separadas, 11.690 votos, ao passo que a coligação vencedora de 2013 não foi além dos 10.092. Menos 1.598. Já o PS perdeu 1.699 votos. E não, não foi o impacto da abstenção. A abstenção cresceu ainda menos do que o número de votos perdidos pelos partidos do bloco central local: 1.398. Porque haveria de ser diferente agora? Que trunfos tem Joana Lima para apresentar aos trofenses e reforçar a sua votação?

Podemos fazer diferentes leituras destes resultados, mas não me parece muito coerente argumentar que o PS perdeu porque a coligação lhe roubou votos. Para onde foram, então, os votos perdidos pelo PS de Joana Lima? Uma forte hipótese reside nos resultados das restantes candidaturas. Em 2009, o PCP obteve 560 votos. BE e MIT não apresentaram candidaturas. Quatro anos depois, a soma dos três ascendeu a 1.716 votos, um pouco acima do número de votos perdidos pelo PS. Quanto a mim, parece-me pouco provável que partidos de esquerda tenham ido buscar votos ao PSD e ao CDS-PP. A base eleitoral é muito diferente. A isto acrescem os resultados destes partidos nas Legislativas de 2015. Sim, eu sei que são escrutínios diferentes e que incorro num erro ao estabelecer paralelismos com a realidade local. Mas, uma vez mais, os partidos do bloco central perderam muitos votos (2.284) ao passo que BE mais que duplicou a sua votação (2.052) e o PCP reforçou a sua posição (1.058). É mais que evidente o afastamento do eleitorado de esquerda do PS Trofa.

Importa também recordar, apesar da diferença abismal para o seu sucessor no capítulo dos polémicos ajustes directos, que o mandato de Joana Lima mostrou aos trofenses muito do que de pior tem a política autárquica: as obras eleitoralistas feitas à pressa para apresentar em véspera de eleições, nomeações políticas de apoiantes de campanha para lugares na estrutura da autarquia ou a encenação do metro são alguns exemplos. E não me parece que a Trofa se tenha esquecido disso.

Assim, e porque considero que não tem condições para fazer frente à poderosa máquina do actual regime, quero aqui deixar um apelo à deputada Joana Lima: se é sua intenção, por favor não se recandidate. Permita a renovação no seio do seu partido, que tem pessoas de muito valor, e, se pretende lutar pelos interesses da Trofa, faça-o em Lisboa, onde ocupa uma influente e importantíssima posição. Uma sugestão: pressione os seus colegas do PS, cujo governo irá permitir novos alargamentos nos metros de Lisboa e Porto, e reivindique, em sede própria, o alargamento da linha verde até á Trofa. Ajude-nos a vencer essa luta, que não ganhamos ainda por falta de vontade política e não por falta de verbas. Se elas existem para outras linhas e construções milionárias de estações em Lisboa, com certeza que existirão também para o nosso concelho. Se tal se exigir, tenha a coragem de virar as costas ao partido para servir o interesse dos seus conterrâneos. Lembra-se de Daniel Campelo? Faça como ele e mostre de que lado está. Cá estarei, na fila da frente, para lhe agradecer e a aguardar a sua recandidatura em 2021.

Foto: O Notícias da Trofa

(originalmente publicado na edição de 27 de Janeiro de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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