Negócios em família

por João Mendes 0

Em Julho de 2015, escrevi sobre a absolvição de Joana Lima face às acusações de participação económica em negócio e abuso de poder, relativas a negócios entre a autarquia e familiares da deputada do PS. Naquele tempo, a tribuna laranja foi implacável. Apesar dos telhados de vidro, apesar de uma série de notáveis da administração Bernardino Vasconcelos que estavam também prestes a ir a tribunal, e que, tal como Joana Lima, acabariam absolvidos, relativamente a acusações de falsificação agravada e abuso de poder, que visavam um conjunto de obras públicas cujos concursos tinham sido abertos já com as obras concluídas ou em fase de conclusão, o caso foi politicamente explorado nos diferentes meios de comunicação, inclusive por figuras de primeira linha do PSD Trofa.

Passados quase dois anos, repete-se esta semana uma cena que, fosse Joana Lima a protagonista, e o frenesim à direita, estou convicto, seria ensurdecedor. Escrevi sobre ela no ano passado, a ela regresso novamente por dois motivos. O primeiro tem a ver com as ligações entre os protagonistas. Se no caso de Joana Lima tivemos adjudicações de serviços à sua irmã, no caso da organização da Feira Anual da Trofa temos a associação Equestrian Events, que tendo sido criada a poucas semanas da edição anterior, foi imediatamente escolhida pelo poder local para se ocupar das actividades equestres do certame. Acontece que um dos três outorgantes na constituição pública da dita associação é irmão de um dos membros do executivo da Junta da União de Freguesias de Bougado, entidade que tem nas mãos a organização do evento. E por aqui me fico, ainda que muito mais pudesse ser dito.

Não vou discutir se a nova associação é mais ou menos competente que a anterior para a tarefa em questão. Tampouco vou aqui levantar suspeitas de tráfico de influências. Da mesma forma, nada me garante que a irmã da anterior autarca não oferecesse a melhor relação qualidade-preço no fornecimento de flores à autarquia. Pretendo antes focar-me na dualidade de critérios de quem não hesita em crucificar a irmã da autarca que recebe uns ajustes directos para um determinado serviço mas que se remete ao silêncio ensurdecedor de nem uma palavra dizer acerca do irmão do autarca que, tendo participado na criação de uma associação em Novembro de 2015, conseguiu em poucas semanas a organização de um dos eventos mais importantes do concelho, sobre o qual decide o executivo que o irmão integra.

O segundo motivo prende-se com outro péssimo exemplo de dualidade de critérios, desta feita da responsabilidade directa do executivo municipal. Como é possível que o mesmo executivo que permite que a uma associação recém-criada lhe seja imediatamente atribuída a organização de uma importante parte da Feira Anual ignore durante um ano a candidatura do Clube Slotcar da Trofa ao Programa de Apoio ao Associativismo da Câmara Municipal da Trofa? É que nem está em causa se a candidatura é aceite ou não, apesar do papel a que o presidente da câmara se prestou quando, na inauguração da actual sede do Clube, se desfez em elogios e promessas de cooperação com a associação. O que está em causa é a forma como uma associação pode ser criada e em poucas semanas ter a bênção da autarquia para tão importante tarefa quando uma outra, com mais de uma década de provas dadas, é desrespeitada a ponto de esperar um ano por uma simples resposta que não chega. Apesar das várias insistências em sede própria. Será incompetência? Será que nos falta um familiar no poder? Será uma questão de cartão partidário? Ou terá sido a forma de retaliar contra as vozes incómodas?

Imagem via Facebook Feira Anual da Trofa

(originalmente publicado na edição de 2 de Março de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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