A grande questão Trofense

por João Mendes 0

O T na rotunda é de todos e não é de ninguém. É de Bernardino Vasconcelos que fez nascer o projecto, é de Joana Lima porque pôs o projecto em marcha, é de Sérgio Humberto porque o concluiu. É da Trofa, de trofense, de trofada e de trofismo. Mas não o insultem, só porque não gostam dele, com alusões a Trump. Apesar do que se tem visto por aí, ainda não chegamos a esse ponto.

É feio? É bonito? Gostos não se discutem. Ainda que haja quem opte por apelidar peças escultóricas de “sucata” para arrancar aplausos e sorrisos em comícios. Se eu morasse por cima do quiosque do Pedro, lá no topo do edifício, na volta até gostava de ver a peça de cima, a borrifar água-vapor. Como não moro, e só vejo aquela coisa ali especada, qual estrutura aracnídea, não lhe acho grande piada. Mas isso sou eu que não percebo patavina de arte.

A Silvéria já aqui falou sobre a falta de personalidade das nossas rotundas. Faço minhas as suas palavras. O décor ferroviário dizia mais sobre a nossa identidade que uma consoante gigante que expele H2O. Mesmo sendo a inicial do nome da nossa terra. Mas alguém lá se lembrou daquilo e aqui estamos nós, a discutir um T de 75 mil euros.

O T é perigoso? Há quem diga que sim. Uma estrutura irregular, que bloqueia parcialmente a visibilidade dos milhares de condutores que ali passam todos os dias, a que acresce aquela espécie de sistema de rega futurista acoplada, que proporciona momentos fugazes de neblina. Vai gerar acidentes? Talvez. Se um condutor se despistar e subir a rotunda, enfaixando-se no T, pode ficar mal tratado? Pode. A estrutura é perfeita para acolher e integrar frentes de viaturas desgovernadas e o airbag pode não ser suficiente. Se correr mal, terá o mesmo destino da ponte da Peça Má? Ser destruído da noite para o dia e alvo de piadas maldosas e provocatórias? Seria coerente da parte de certas pessoas. Por muito menos saneou a peça que em tempos residia na Rotunda do Professor, junto à Mototrofa e ao Continente.

Como alguém me disse estes dias, o polémico T já cumpriu um dos desígnios a que a arte se propõe: fez a população falar, questionar e discutir. Uma discussão que ultrapassou os limites estéticos da peça e que levou a questões de ordem financeira e administrativa. Um tema não-tema que está na ordem do dia e que, aparentemente, inunda como poucos as redes sociais. Um viajante de outras paragens que por ali passe pode não fazer a mínima ideia do que é aquela estrutura metálica que cospe água. Mas aqui ninguém ficou indiferente. E isto diz muito mais do que parece sobre muitos de nós. Perdemos horas a discutir o acessório e quase nada a reflectir o essencial. E assim termino, fazendo o meu mea culpa por contribuir para este peditório. 

Foto: Manuel Veloso@Clicks do Veloso

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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