A abertura pública-privada do Parque das Azenhas

por João Mendes 0

O Parque das Azenhas nasceu de parto complicado. Idealizada e projectada pelo executivo Bernardino Vasconcelos, trata-se de uma obra fabulosa, daquelas que efectivamente contribuem para o bem-estar e qualidade de vida de milhares de trofenses, mas foi tão maltratada, tão politicamente instrumentalizada, que a sua construção acabou por se prolongar durante dez anos. Tanto tempo que serviu objectivos eleitoralistas de dois executivos, sendo aquele que a projectou o único que dela não se serviu. Ironias desta vida.

Iniciada em 2013, a obra do Parque das Azenhas foi um dos grandes trunfos do executivo Joana Lima para as últimas Autárquicas. Porém, o tiro saiu pela culatra, não só pela inauguração eleitoralista e precoce, que muitos votos terá custado ao anterior executivo, mas também porque, poucos dias após essa inauguração para inglês ver, a obra acabou por ser novamente interditada ao público. E o público, o povo, por muito que alguns o tomem por estúpido, não o é.

Vieram as cheias, que levaram parte do novo parque consigo, veio outro executivo, hábil na utilização do problema criado em favor das suas aspirações políticas, vieram novamente as cheias, e a obra foi-se perpetuando, o orçamento derrapando e o falatório subindo de tom. O actual executivo, extremamente capacitado no que à caça ao voto diz respeito, como se tem visto pela avalanche de novas obras que têm surgido a poucos meses das eleições, soube esperar e deu novo impulso às obras de maneira a ter o projecto pronto antes do Outono. Foi oportunista? Talvez. Mas os seus adversários socialistas não teriam feito de outra maneira, pelo menos a julgar pelo histórico.

Mas eis que algo surpreendente acontece. No passado Sábado, 25 de Março, sem que nada o fizesse esperar, o executivo aproveitou a apresentação do livro “Parque das Azenhas – um ecossistema”, e uma placa surgiu, junto ao Posto de Apoio à Visitação do Parque das Azenhas, a poucos metros do edifício do Aquaplace e da sede do Clube Slotcar da Trofa, onde se pode ler “Abertura oficial ao público – 25 de Março de 2017”. Executivo em peso, oficiais graduados da CM da Trofa, chefias das forças de segurança locais e até o presidente do partido do senhor presidente, todos juntos para uma abertura ao público em versão privada. Entre amigos.

Qual terá sido o motivo de tanto secretismo em torno deste acto público, que a comunicação social local não noticiou, que os meios de comunicação da câmara municipal não anunciaram e para o qual a população não foi convidada? Exactamente como é que se abre uma obra ao público quando só após o término do evento é que o público ficou a saber da existência do mesmo? E, já agora, como é que uma página de Facebook de amigos, militantes e jotas dos partidos no poder, que dedicam grande parte da sua actividade à propaganda política, a plágios e a outros comportamentos fraudulentos teve acesso a essa informação e da mesma deu conta, em primeira mão? Que estatuto especial tem esta página, onde abundam mentiras e difamações, e que dá pelo nome de Trofa Digital, para receber tratamento diferenciado e preferencial por parte da comunicação da Câmara Municipal da Trofa? Terá sido fuga de informação? Será gratificação pelo árduo trabalho feito em prol da coligação? Ou haverá aqui algum tipo de ligação mais profunda, desconhecida do grande público, que lhe confere este estatuto especial? São perguntas para as quais não temos resposta. Por enquanto. Para a história fica a abertura pública-privada do Parque das Azenhas e a esperança de que, desta vez, a obra seja mesmo devolvida aos trofenses.

Foto: Facebook Câmara Municipal da Trofa

(originalmente publicado na edição de 30 de Março de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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