Estará a nossa terra doente?

por João Mendes 0

Em Julho de 2010, ainda o anterior executivo não levava um ano à frente dos destinos do concelho, chegava ao fim uma histórica publicação local, o Jornal da Trofa. Tratava-se de um jornal, digamos, mais inclinado para a direita, é certo, mas ainda assim um jornal sério, que, estou certo, cumpria com as estipulações e legislação a que estava submetido. Contudo, a forma como o falecido blogue da JSD apresentava o sucedido, bem como os testemunhos citados, pareciam dar a entender que o fecho da dita publicação era fruto de manobras do poder. Vejamos:

"Jornal da Trofa suspenso"

Assim se lê na capa do nº 1385 do Jornal da Trofa, uma publicação local com quase meio século de vida!

A Trofa ficou mais pobre com a perca deste meio que acompanhou o desenvolvimento das nossas terras nas ultimas 5 décadas.

A JSD não pode deixar de lamentar este inesperado e estranho fim de vida deste Jornal.

Não podemos também deixar de congratular todos quantos contribuíram para que durante muitos e muitos anos a realidade da Trofa chegasse a muitos Trofenses.

Na capa lê-se ainda:

"Podem, a partir de hoje, fazer o que bem entenderem, prometerem o que quiserem, construírem no Parque, edificarem os Paços do Concelho no local que melhor serve os seus interesses, entregarem os negócios aos amigos e familiares, empregarem os amigalhaços, pagarem fortunas a assessores, andarem em campanha eleitoral constante para ver se o futuro fica garantido, gastar os dinheiros públicos em viagens, jantaradas e almoçaradas, infiltrarem-se em tudo o que é associação desportiva, de moradores, de condomínios, da religião, do ensino, de pais... enfim, podem pôr e dispor a seu bel-prazer pois a Trofa, pela primeira vez, desde que me conheço como gente, está a uma só voz: a do poder.
Como eu dizia no jantar de despedida do Jornal: a minha terra está doente!"

Maria Emília Cardoso

"A "máfia" fechou o jornal interventivo e incómodo. Neste momento, resta à Trofa o "jornal do sistema" que anda atrás de factos ocorridos mas é incapaz da menor crítica ao poder, mesmo no caso de erros muito graves, o que se compreende perfeitamente."

Luís Pinheiro

Desconheço os motivos que levaram o Jornal da Trofa a fechar portas. Será que Joana Lima enviou um esquadrão da morte para encerrar o jornal à bruta? Será que se tornou economicamente inviável e sem capacidade para manter uma actividade sustentada? Não sei. Mas, a julgar pelos testemunhos transcritos, a Trofa estava “a uma só voz: a do poder” e o Jornal da Trofa havia sido encerrado pela “máfia”. Se assim foi, teria sido interessante perceber quem e como operava essa “máfia”. Mas ficamos pelo campo da especulação.

Passados sete anos, é interessante regressar a estas palavras. É interessante verificar que o alegado “jornal do sistema” afinal permite colunas de opinião que criticam a esquerda, os partidos de esquerda e o anterior executivo, tendo como cronista-estrela um homem de direita que dispensa apresentações e que não se cansa de criticar a esquerda, o meu bom amigo José Maria Moreira da Silva.

É também interessante verificar que existe um novo jornal, o Correio da Trofa, criado pela campanha da coligação no poder e que, recorrendo às palavras do Eng. Luís Pinheiro, “é incapaz da menor crítica ao poder, mesmo no caso de erros muito graves, o que se compreende perfeitamente”, onde não existe espaço para um único cronista de esquerda, onde se insultam pessoas gratuitamente com base em boatos, especulações e mentiras e onde não existe uma peça assinada por um jornalista que seja, apesar de vários dos seus ex-colaboradores terem recebido ajustes directos do poder local, num valor que ronda os 90 mil euros. E isto é apenas aquilo que sabemos e que a lei nos permite monitorizar.

De notar ainda que esse jornal, pelo menos até há pouco tempo, estava ilegal e cancelado pela ERC, sendo, portanto, uma fraude. Um jornal cujo director era simultaneamente assessor do PSD de Santo Tirso, funções legalmente incompatíveis. Um jornal que, dias depois das últimas autárquicas, se mudou de armas e bagagens para uma nova sede, até então sede de campanha da coligação no poder. Um jornal que anda de mãos dadas com o poder desde que nasceu e que, não raras vezes, se assemelha mais a um folhetim partidário do que a um jornal.

Este jornal, o Correio da Trofa, apesar da absoluta falta de isenção que o caracteriza, encaixa-se na perfeição nas críticas elaboradas em 2010 por Maria Emília Cardoso e Luís Pinheiro. Não obstante, ambos colaboram ou já colaboraram com ele. Por outro lado, o tal “jornal do sistema” é hoje censurado, atacado e difamado pelo poder político, o que já rendeu algumas humilhações às forças no poder e, em particular, ao autarca Sérgio Humberto.

Perante tudo isto, e com a pré-campanha a todo o gás, sendo o Correio da Trofa um dos meios mais úteis e simpáticos para as aspirações da coligação PSD/CDS, questiono-me, à semelhança daquilo que fez a presidente do MMSD em 2010, se a nossa terra estará novamente doente, com um jornal directamente afecto ao poder local, que o criou, e um outro, outrora o “jornal do sistema”, hoje perseguido, censurado e atacado pelos mais altos responsáveis políticos locais, que mundos e fundos têm movido para condicionar a sua actividade. Serão as tais máfias que o Eng. Luís Pinheiro referia em tempos? Ou será que a ditadura afinal começou a 28 de Setembro de 2013?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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