Muito talento, poucas oportunidades

por João Mendes 0

Chegado a casa depois de mais um excelente concerto no Clube Slotcar da Trofa, no passado Sábado, dei por mim a pensar na quantidade e na qualidade dos músicos que temos no nosso concelho. A pensar naquilo que vou ouvindo e vendo, no talento que abunda no território diamante e nas poucas oportunidades que os nossos músicos vão tendo. Nas conversas que com eles tenho, durante as quais recorrentemente vou ouvindo as mesmas queixas. Que encontram mais oportunidades em Famalicão ou Santo Tirso e que se sentem mais valorizados e acarinhados nos concelhos vizinhos. Que a Trofa é um deserto cultural, pelo menos no que toca à música e a julgar pelos números do estudo da Smart Cities, que colocam o nosso concelho na última posição no que a investimento em cultura diz respeito. A tal parte dos rankings da qual o poder não fala e que não dá origem a outdoors de propaganda política, sustentada com o dinheiro dos nossos impostos, que não param de crescer.

É duro e difícil lutar contra o eterno estigma. A velha história do concelho onde não se passa nada, onde a receptividade para fazer é diminuta e onde apenas quem tem amigos bem colocados acaba por conseguir alguma coisa. Onde a semana da juventude aumenta o orçamento para artistas da moda e reduz para os talentos locais, pelo menos a julgar por aquilo que se passa no palco principal. Em 2014 foi uma salgalhada, com um primeiro cartaz a sair sem qualquer referência às bandas locais. Na altura, pedi neste espaço mais respeito pelos nossos músicos, nomeadamente um pagamento justo pelo seu trabalho, tendo imediatamente sido alvo de ataques de toda a espécie por mais do que um dirigente local do PSD, isto para não falar na resposta espantosa que recebi do Facebook da CM da Trofa e que pode ser vista neste link.

Curiosamente, ou talvez não, em 2015 tudo muda. Afinal era possível pagar aos músicos trofenses. Era possível ter um dos nossos em cada dia do Be Live e, pasmem-se, os nomes deles cabiam no cartaz, sem necessidade de sacar um segundo cartaz em cima do joelho onde, apesar de terem nome, eram anunciados como “bandas de garagem da Trofa”. Isto de ser do contra e depois ver as nossas ideias do contra serem adoptadas pelos nossos críticos é sempre de saudar. Infelizmente, neste capítulo em específico, 2016 registou um retrocesso, com as vagas para as bandas da Trofa a diminuírem de três para duas, vaga que foi entregue a um artista “forasteiro”, mais caro e sem grande impacto. Em 2017, o mesmo cenário se repete, mantendo-se apenas duas bandas locais.

Compreendia esta decisão do executivo caso o Be Live fosse um negócio orientado para o lucro, que não é o caso. O Be Live tem um orçamento alocado, maioritariamente sustentado (como tudo o resto~9 pelo dinheiro dos nossos impostos, e como tal ao serviço da Trofa e dos trofenses. Assim, entendo eu (e muitos outros trofenses) que pode e deve haver mais espaço para os artistas locais. Aliás, estes devem mesmo ser vistos como uma das prioridades num dos poucos certames onde existe espaço para eles. E é num misto de tristeza e orgulho que afirmo, sem rodeios, que nenhuma estrutura do concelho tem dado tantas oportunidades aos músicos locais como o Clube Slotcar da Trofa. Curiosamente, ou talvez não, o momento em que as pessoas hoje no poder mais oportunidades deram aos artistas locais foi precisamente no fecho da sua campanha eleitoral de 2013. Palavras para quê?

Claro que o talento não se esgota nem circunscreve apenas às bandas de rock e hip hop que têm marcado presença no Be Live. Existe muito talento nesta terra, da música clássica à dança, da electrónica ao jazz, do fado ao música ligeira, mas o problema é sempre o mesmo: faltam oportunidades. E não faltam por falta de dinheiro. São opções conscientes feitas por quem tem poder de decisão. Porque o dinheiro, esse, não parece ser o problema. Basta olhar para o cartaz deste ano do Be Live para perceber isso mesmo. Mas hey, estamos em ano de eleições, não é mesmo?

Imagem via Facebook Câmara Municipal da Trofa

Leituras Recomendadas:

Sobre o Be Live 2014

Respeitem os Artistas da Trofa (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=180) 

E agora, JSD Trofa? (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=179)

Uma antevisão da semana da juventude da Trofa (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=178)

A linha que separa as críticas construtivas do fundamentalismo partidário (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=176)

Precedente, resultado e legitimidade: estaremos prontos para dar o salto? (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=185)

Sobre o Be Live 2015

Apetece-me falar sobre o Be Live. Será que posso? (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=340)

Be Live 2015: a crónica possível tentando não incomodar ninguém (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=349)

O Be Live não é para todos (http://www.onoticiasdatrofa.pt/index.php/edicao-papel1/169-edicao-531/13415-o-be-live-nao-e-para-todos)

Sobre o Be Live 2016

Um ano depois, o Be Live continua a não ser para todos (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=645)

Sobre o Be Live 2016 (http://www.eatrofaeminha.pt/post.php?id=653)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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