A reboque da Geringonça

por João Mendes 0

Disseram-nos que o fim só não estava próximo porque a experiência não duraria um mês, depois dois, meio ano, um Orçamento de Estado, mas o tempo passou e a profecia não se cumpriu. Afinal o fim estava mesmo próximo e o destino que nos esperava estava algures entre a Venezuela e a Coreia do Norte, controlado por perigosos comunistas e bloquistas que afugentariam todo e qualquer investidor. Que fariam o desemprego disparar. Que fariam o défice disparar. Que deixariam a economia de tal forma arrasada que o único cenário possível seria um novo resgate.

Um ano e meio após o início das profecias cataclísmicas, a Geringonça mantém-se de pé. Devolveram-se rendimentos, aumentou-se o salário mínimo, criaram-se postos de trabalho, reduziu-se a carga fiscal, o crescimento económico é uma realidade (o resultado do primeiro trimestre de 2017, face ao período homólogo, é o melhor em 10 anos) e até o défice está hoje controlado, apesar das projecções da deputada Maria Luís Albuquerque, que considerava “aritmeticamente” impossível que o governo conseguisse cumprir as exigências de Bruxelas. Apesar das sanções que nunca vieram, do resgate que se ficou a vestir e do Diabo que continua em parte incerta.

De cabeça perdida, a oposição agarra-se a fábulas de leviatãs que se alimentam de crianças inocentes. De bestas totalitárias que aprisionaram a democracia e que projectam um reino de terror e censura, onde a imprensa será capturada, a propriedade privada será suprimida e toda a liberdade será obliterada da face do rectângulo. Não admiram os sucessivos trambolhões em tudo o que é sondagem. A narrativa não tem qualquer aderência à realidade.

Entretanto, escrevo-vos estas palavras após ter lido as surpreendentes declarações de Wolfgang Schaüble, o poderoso ministro das Finanças alemão, que hoje afirmou que Mário Centeno é o Cristiano Ronaldo do Ecofin. Vindo de um político que foi umas das vozes mais críticas do caminho escolhido pelo executivo António Costa, nomeadamente no que toca à devolução de rendimentos e ao aumento do salário mínimo, tem um sabor especial. Não me lembro de um elogio destes, endereçado a qualquer membro do anterior governo, apesar da vassalagem e do beija-mão.

Começa a ser difícil arranjar desculpas. Quando chegamos ao ponto em que é o próprio ministro das Finanças alemão a elogiar o trabalho de Mário Centeno, comparando-o ao astro maior do futebol mundial, quer me parecer que estamos perante um caso sério de sucesso, que nem os mais radicais adeptos da austeridade conseguem negar.

E a Trofa? Onde fica o nosso concelho no meio de tudo isto?

A Trofa não parece ter sido esquecida, como de resto aconteceu durante a governação de Pedro Passos Coelho. Novo Centro de Saúde de Bougado? Foi a Geringonça quem pôs a obra em marcha. Variante EN14, mais conhecida por Circular à Trofa? Pelos vistos vai arrancar também. Isto depois da encenação e das promessas que o anterior governo fez, quando cá veio anunciar uma obra com uma calendarização que não respeitou, empurrando o problema com a barriga para quem viesse a seguir, não sem antes lucrar eleitoralmente com o embuste. Claro que, considerando o histórico, estou como São Tomé e só acredito quando as máquinas estiverem no terreno. Mas seria irónico, muito irónico mesmo, se tanto esta obra como a nova rotunda da Carriça, um dos vários compromissos eleitorais que o executivo Sérgio Humberto não cumpriu, viesse também a reboque da Geringonça. Os sapos não vão chegar para a procura.

Imagem via Expresso

(originalmente publicado na edição de 25 de Maio de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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