Orquestra Urbana da Trofa: a prova viva de que vale a pena investir no talento trofense

por João Mendes 0

O registo foi diferente daquele com que nos brindaram em ocasiões anteriores. Confinada a um palco mais pequeno, a grande Orquestra Urbana da Trofa apresentou-se ontem à noite no encerramento do Encontro Lusófono, reduzida a cerca de 20 unidades, mas nem por isso perdeu encanto. As vozes estão afinadas, as guitarras, as baterias, os bombos e o baixo da Margarida estão em sincronia, o maestro assume o teclado e a parafernália de instrumentos alternativos do Leandro e do Pedro, em toda a sua singularidade, acrescentam aquele toque de originalidade genial, que no fundo está na base do projecto. São mais que as mães, reinventam-se a cada espectáculo e naturalmente encheram o recinto do concerto. Outra coisa não seria de esperar.

Sentado no palco, de guitarra em punho, estava o convidado especial da noite, o cabo-verdiano Bilan, que encaixou nesta versão adaptada da orquestra como uma luva, resultando num arranjo onde os ritmos do Mindelo se fundiram com ADN da Orquestra, ora mais “guitarrado”, ora mais “morn(a)o”, ora com cheirinho a bossa nova, e o registo parece tornar-se mais “dançável” e suave, afastando-se do espírito rockeiro em que a temos visto em ocasiões anteriores. Bilan toca, canta e convida o público a juntar-se a ele, que não hesita, e ainda tem tempo para um encore com Cesária Évora. A sintonia com a Orquestra é absoluta. Ainda bem que fiquei de pé.

E assim terminou, com chave de ouro, a edição deste ano do Encontro Lusófono, que coexistiu com a XVII Feira do Livro da Trofa e que durante uma semana encheu o Parque Nossa Senhora das Dores/Dr. Lima Carneiro de música, dança e literatura. Tive oportunidade de estar em alguns eventos, tenho uma opinião muito positiva sobre esta iniciativa, e só tenho pena que a mesma não se tenha realizado na Casa da Cultura, a meu ver o local indicado para um evento com estas características, não só pela sua própria natureza (a da Casa e a do evento) mas também porque é preciso descentralizar e porque a Casa da Cultura tem excelentes condições para acolher o evento. Não obstante, iniciativas que celebram a arte e as raízes comuns da lusofonia são sempre de saudar. O pelouro da Cultura da CM da Trofa está de parabéns.

A Orquestra Urbana da Trofa, entendo eu, é um projecto que deve ser estimado e acarinhado pela população trofense. Um projecto arrojado, que fundiu gerações e estilos de música diferentes, feito de artistas, memórias e raízes trofenses, conduzida por um dos maiores génios musicais, senão mesmo o maior que a Trofa viu nascer, e que já arrasta pequenas multidões. Como trofense e aficionado da boa música, tenho o maior orgulho neste projecto. O futuro passa pela Orquestra Urbana da Trofa e, se dúvidas restassem, ela é a prova viva de que vale a pena investir no talento dos trofenses. As oportunidades, essas, continuam a escassear.

A lamentar apenas um facto. Desculpem-me mas é mais forte que eu, que tenho uma tolerância muito reduzida à politização de tudo e mais alguma coisa em época de pré-campanha. A casa encheu para ver a Orquestra Urbana da Trofa, não para minicomícios eleitorais. Era a meu ver escusado, desnecessário, que o senhor vereador Renato Pinto Ribeiro se tenha apressado a subir ao palco no final do concerto, sujeitando os presentes a um discurso aborrecido, mesmo à político, chegando ao ponto de se aproveitar do anúncio da próxima actuação da Orquestra para informar que o executivo fez uma obra – a sua obrigação, para a qual lhes pagamos, e bem – no São Pantaleão. As eleições são tramadas e político que é político não perde uma oportunidade para vender o seu peixe. Mesmo quando não tem rigorosamente nada a ver com o contexto. 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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