Obras, eleições e o nosso dinheiro

por João Mendes 0

Durante anos, a Rua Padrão, que é aquela rua que liga a EN104 ao Mercado, foi uma rua assassina, no que a suspensões de automóveis diz respeito. Apesar dos ocasionais remendos, era uma rua desnivelada, esburacada e tortuosa. Não sendo uma das principais artérias trofenses, a Rua Padrão confronta-se com um movimento particularmente intenso em dias de feira, todos os Sábados, feira essa que é, desde sempre, um dos principais coutos onde políticos de todas as cores tendem a surgir em força nos meses que antecedem as eleições, para o nobre acto da propaganda política com beijinhos, promessas e mentiras.

Não é de estranhar, portanto, que esta rua seja a mais recente abençoada pela magia pré-eleitoral da multiplicação das obras. E ainda bem que a estão a arranjar, que já era tempo e é para isso que lhes pagamos. Mas a questão que entendo que deve ser colocada é esta: porquê só agora? Porque é que uma rua tão movimentada, que dá acesso a um espaço da importância do Mercado, demorou tanto tempo a ser arranjada? Não poderia ela ter sido intervencionada em 2014? Em 2015? Porque esperou o actual poder político quase quatro anos para fazer esta obra? E reparem que não estamos a falar de uma obra de milhões de euros, mas de algo relativamente simples e barato de executar. Foi preciso esperar tanto tempo para a arranjar?

Bem sei que a claque ficará enfurecida, que tipos como eu deviam era estar calados, ou a arranjar estradas do seu próprio bolso para terem o direito a opinar, que é mais ou menos a forma como alguns hooligans mais fanáticos vêm a liberdade de expressão: queres ter uma visão crítica sobre um problema? Tens que fazer melhor. Tens que, sozinho, fazer o trabalho que um executivo com um orçamento de milhões faz. Sim, eu sei, isto é estúpido que dói. Mas para alguns faz todo o sentido. A menos que a crítica seja direccionada para o outro clube, para a outra claque. Aí já vale tudo. Vale insultar, vale mentir e manipular, vale inventar Audis Q7 que não existem, vale encurralar, bater e mentir aos trofenses e até vale criar jornais de propaganda para servir o chefe e difamar as vozes incómodas. Com o alto patrocínio dos nossos impostos. Mas aí de quem tenha uma opinião que contrarie o chefe. Fogueira com eles!

Como me estou nas tintas para instrumentalizações sem nexo, ajustes directos, tachos e balidos, vou inclusive cometer a heresia – também é para isso que cá estamos – de ir mais longe e apresentar uma possível hipótese para o súbito aparecimento desta obra. É que, com o aproximar do acto eleitoral, é expectável que as comitivas partidárias se lembrem do caminho para o Mercado, bem como de todas aquelas pessoas a quem querem entregar os seus beijinhos, autocolantes e canetas. E haverá melhor trunfo para os clientes e frequentadores da feira semanal, e principalmente para os comerciantes, do que chegar lá e poder apontar para a rua e colher os louros da obra, mesmo em cima do acto eleitoral? Ou, visto por outra perspectiva, não ter que lidar com as queixas das massas de que aquele acesso é uma vergonha? Não ter que levar aquela tampa do "só se lembram de nós quando há eleições"?

Nada é por acaso, principalmente em época de eleições. Não é por acaso que esta obra surge como não é por acaso que só agora se arranjou a Rua António Sá Couto de Araújo, que dá acesso ao Aquaplace e ao Hospital Privado da Trofa, e que estava uma vergonha há bastante tempo. O mesmo se aplica a Rua Manuel da Silva Pinheiro, uma estreita perpendicular à EN104 que dá acesso ao Trofa Shopping, que até há dias parecia ter sido alvo de um bombardeamento, e que só agora, depois de anos em péssimo estado, apesar da sua reduzida dimensão, começa a ser intervencionada. E estes são apenas alguns exemplos de obras que há muito podiam estar feitas, mas que só agora, mesmo em cima do acto eleitoral, dão o ar da sua graça. 

A estratégia do executivo camarário tem sido extremamente inteligente na forma como está a gerir o seu calendário pré-eleitoral. A obra da Alameda, executada com uma celeridade sem paralelo, mas ainda assim inaugurada antes de estar concluída, é um bom exemplo. As várias obras cirúrgicas, que parecem agora surgir por todo o lado, configuram outros exemplos que ajudam a explicar como o poder político acumula pontos para a sua campanha, recorrendo a uma gestão de recursos que dá prioridade à sua própria agenda político-partidária, apesar dos recursos não lhes pertencerem. Mas existem muitos exemplos, que vão do dinheiro gasto em outdoors e bandeirolas sem utilidade, ainda que altamente glorificadores do actual executivo, até ao culto da personalidade do presidente, não raras vezes alimentado pelo Facebook oficial da CM da Trofa ou até por recursos públicos colocados ao serviço do autarca, como foram os casos do vídeo da dispendiosa inauguração dos Parques Nossa Senhora das Dores e Lima Carneiro ou da demolição dos pontilhões junto à E.B. 2/3 Napoleão Sousa Marques. Fazer campanha com o dinheiro dos outros é fácil, não é?

 

Leituras Recomendadas

Coligação Unidos pela Trofa apropria-se da comunicação da Câmara Municipal em benefício próprio (26.08.2015 - link)

Presidente Sérgio Humberto apropria-se de recursos públicos para promover a sua imagem (02.12.2015 - link)

Ver também

Vídeo da inauguração da obra dos Parques, publicado originalmente na página pessoal de Facebook de Sérgio Humberto, financiado com recursos públicos e propriedade da autarquia (20.11.2015 - link)

Vídeo da inauguração da obra dos Parques, partilhado pelo Facebook da CM da Trofa a partir da conta pessoal de Sérgio Humberto, 12 horas depois (21.11.2015 - link

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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