Uma Trofense na Galiza

por Alexandra Santos 0

Este ano letivo foi passado em Santiago de Compostela a trabalhar como auxiliar de conversa de português. Trata-se de algo que não existe no nosso país e, antes de relatar a minha maravilhosa experiência nesta parte de Espanha tão nossa vizinha, convém explicar em que consiste este trabalho.

Devido à dificuldade que os espanhóis, de uma forma geral, sentem na aprendizagem de línguas, o ministério da educação contrata estudantes nativos para que possam trabalhar, principalmente, a oralidade com os alunos, tendo como intuito o desenvolvimento da sua capacidade comunicativa. Portanto, um auxiliar de conversa não é o professor, não tem a função de preparar testes nem avaliar os alunos, é alguém que ajuda o docente e trabalha com os estudantes os vários temas do currículo, transmitindo também alguma informação cultural do seu próprio país.

Como me encontrava a fazer mestrado em ensino de Espanhol, na altura, aproveitei, concorri e lá fiquei colocada na Galiza, mais propriamente em Santiago de Compostela, numa Escola Oficial de Idiomas. Em Espanha, as línguas podem ser aprendidas no percurso escolar normal, mas também em escolas de idiomas que pertencem ao estado. A partir dos dezasseis anos, qualquer pessoa tem a possibilidade de aprender uma nova língua ou melhorar o seu desempenho em alguma que já conheçam nas Escolas Oficiais de Idiomas. Estas, como pertencem ao estado, têm uma anuidade extremamente barata, por isso são muito acessíveis. No entanto, infelizmente, nem todos usufruem desta oportunidade única de aprenderem uma língua a um custo muito reduzido e nem têm consciência de que nos outros países, Portugal incluído, é necessário pagar bastante para aprender num centro de línguas.

Independentemente de tudo isso, a verdade é que nós, portugueses, devido à nossa riqueza fonética e ao facto de estarmos constantemente em contacto com línguas estrangeiras, quer seja através do ecrã ou dos turistas que nos visitam, temos uma grande facilidade para aprender e falar um grande número de línguas e somos invejados por isso, principalmente pelos nossos hermanos.

Apesar da dificuldade que muitos espanhóis sentem em aprender uma língua, principalmente quando muitas vezes apenas a ouvem na sala de aula, visto ser tudo dobrado, quer na televisão, quer no cinema, existe uma grande quantidade de pessoas que quer aprender e que se esforça para isso. Nas comunidades próximas da fronteira, a língua portuguesa, a par do inglês, francês, alemão e italiano, é ensinada e, principalmente na Galiza, há uma grande quantidade de pessoas que frequentam as aulas da nossa língua materna.

Ao chegar a Santiago, fiquei extremamente surpreendida com o amor que grande parte da população tinha por Portugal, pela língua portuguesa e por tudo aquilo que tivesse a ver com o nosso país. O 25 de abril é lá bastante comemorado em vários locais, têm um parque com o nome de Zeca Afonso e comemoraram a vitória de Portugal na Eurovisão como se tivesse sido a sua. Todos com quem eu falava, quando dizia que era portuguesa, referiam as mil e uma maravilhas deste nosso cantinho e mencionavam uma ou outra cidade que consideravam mais especial. Quando me perguntavam de onde era exatamente, se dizia “Trofa”, ninguém conhecia, se dizia “perto da Maia”, já alguns tinham uma noção geográfica, mas se respondia “distrito do Porto”, recebia a frase “adoro o Porto” acompanhada sempre com um dos sorrisos mais efusivos. No entanto, também eu, lá a viver, embora perto, se encontrasse algum português ia logo falar com ele, como se estivesse muito longe e não visse alguém da minha nacionalidade há muito tempo. (Viver noutro país cria um elo ainda maior ao nosso, como se um orgulho exacerbado tomasse conta!)

A verdade é que este amor por Portugal por parte dos galegos não é apenas devido à proximidade geográfica, mas também à proximidade linguística. Como devem saber, na Galiza, fala-se duas línguas, o castelhano (que corresponde ao espanhol) e o galego, sendo que esta é a mais predominante e muito semelhante ao português. Muitos defendem, inclusive, que se trata de uma variante da língua portuguesa, tal como o português do Brasil. Como também devem saber, o galego e o português têm a mesma origem, o galaico-português, que surgiu na Galiza e no norte de Portugal, por isso também há quem diga que o português é que devia ser considerado uma variante do galego.

Tendo vivido lá oito meses, verifiquei que, de facto, o galego é muito parecido com a nossa língua materna. Qualquer português que nunca tenha estudado galego nem espanhol percebe perfeitamente um texto escrito e é capaz de entender um falante galego numa conversa se esta for realizada de forma devagar e sem uso de muitas expressões populares. No entanto, mesmo assim, eu deparo-me com muitas diferenças tanto na pronúncia, como na escrita, como no próprio léxico, e custa-me um pouco encarar o galego como uma variante, principalmente porque na oralidade são usadas imensas palavras e expressões castelhanas. Disseram-me que antigamente o galego era muito mais parecido com o português. De facto, se ouvirmos um galego idoso a falar, temos mais dificuldade em perceber se está a falar galego ou português. E quanto mais perto da fronteira estivermos, mais difícil é delimitar uma diferença.

Contaram-me que durante a ditadura franquista, apenas o castelhano era permitido. Tanto o galego, como o basco ou o catalão foram proibidos e deixaram de ser ensinados nas escolas. Portanto, apesar de alguns ainda a falarem às escondidas durante este período, muito do galego se perdeu e muito do castelhano ficou enraizado.

No período franquista, os galegos sentiram que parte da sua cultura, da sua identidade estava a ser destruída. Por isso, muitos consideram-se agora apenas galegos e não espanhóis ao ponto de se sentirem ofendidos se dissermos que pertencem a Espanha. Para além disso, existem pessoas que apenas falam em galego, recusando-se a falar em espanhol. Muitos sentem que precisam de defender a sua língua e as suas tradições que se estão a perder para a língua e cultura espanhola. Daí se entende que os galegos se sintam mais próximos de Portugal, principalmente do norte, do que propriamente de Espanha, e a aprendizagem da língua portuguesa é muitas vezes encarada não como a aprendizagem de uma língua estrangeira, mas da sua própria língua, um regresso às suas próprias raízes. Uma grande amiga minha, galega e professora de português, disse-me que a aprendizagem do português pelos galegos é a garantia de que a língua galega não morre.

Contudo, como o galego deve ser escrito e falado não é algo consensual. Apenas há pouco mais de trinta anos foi estabelecida uma ortografia e um sistema de ensino para esta língua que ainda levanta muitas dúvidas e questões. Daqui surgiu então um grupo de pessoas que vai contra a forma como o galego é atualmente escrito e defende o galego reintegracionista, que é a escrita em português apenas com algumas pequenas diferenças. Como exemplo, vou contar o que aconteceu no início do ano letivo. Quando comecei a ler o programa de língua portuguesa na escola, pensava que estava em ler em português, mas reparei em erros que iam aparecendo de forma consistente. Achei muito estranho e perguntei a uma professora de português, que me explicou que aquilo que eu estava a ler era, afinal, galego reintegracionista, o que me causou grande surpresa. No entanto, este galego reintegracionista é apenas escrito, quase ninguém o fala, se bem que, quando sabem que estão a falar com um português, demonstram todo o seu conhecimento e fazem um esforço para o usar, mantendo a sua própria pronúncia que, apesar de tudo, é igual ao espanhol.

Aliás, um dos grandes objetivos que um galego tem é chegar a Portugal e não lhe responderem em espanhol ou “portunhol”. Os sons do galego são os sons castelhanos, por mais que a nível lexical seja igual ao português. Por isso, um dos grandes desafios que tinha com os meus alunos era ajudá-los a melhorar a sonoridade, a pronúncia. E era de facto uma vitória pessoal para eles conseguirem que alguém em Portugal lhes respondesse em português.

E poderão agora perguntar: “Mas que língua falavas tu na Galiza? Português, espanhol ou galego?”. Um dos meus objetivos principais ao candidatar-me para trabalhar em Espanha era melhorar o meu castelhano. No entanto, como poderão já calcular, na Galiza isso foi um pouco difícil. Mas a verdade é que mesmo no último mês, depois de vários meses lá a viver, tinha a tendência de falar em espanhol ao entrar num café ou numa loja, porque se falasse em português com a mesma velocidade com que falava aqui, muitas vezes não entendiam. Conheci galegos que me pediam para falar em português, porque recusavam o uso do espanhol e conheci galegos que me pediam para falar em espanhol porque não entendiam aquilo que eu dizia. Por isso, como é compreensível, às vezes ficava confusa, sem saber muito bem que língua usar. No entanto, fiz muitos amigos de várias nacionalidades e com eles, sim, pratiquei bastante o castelhano.

Conheci vários locais da Galiza e devo confessar que fiquei deslumbrada por toda a sua natureza e beleza. Contudo, Santiago de Compostela, para mim, é um lugar mágico, repleto de cultura, de alegria, mas ao mesmo tempo de tranquilidade e paz, com múltiplos espaços verdes. Um local extremamente seguro, com muita qualidade de vida e pessoas acolhedoras que nos fazem sentir em casa.

A Galiza é um local com as suas próprias características, as suas próprias tradições, música e dança e é incrível verificar a quantidade de galegos de todas as idades, inclusive jovens, que lutam para manter estas tradições, a sua própria cultura e identidade. Por isso, não digam que estive em Espanha. Eu estive na Galiza!

Foi uma experiência bastante enriquecedora, a nível pessoal, cultural e profissional. E agora, roubando as palavras ao Malato, posso dizer: Em Santiago fui muito feliz!

 

Fotos: Alexandra Santos

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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