Falsa indignação e tiques autoritários

por João Mendes 0

A indignação dos políticos, especialmente em período pré-eleitoral, tende a ser tudo menos genuína, salvo raras excepções. No geral, é uma indignação ordenada por alguém e vincula uma série de pessoas, mesmo aquelas que não estão indignadas, transformando-se numa imposição da cúpula partidária à restante hierarquia. Uma imposição que não reflecte qualquer tipo de preocupação pelo bem-estar da população. Reflecte, apenas e só, de forma inequívoca, a imposição da vontade e do poder da pequena elite dirigente, capaz de (quase) tudo para manter e reforçar esse poder.

O facto acima ajuda a explicar os múltiplos casos em que um partido, um dirigente partidário ou um destacado militante conseguem ter opiniões diametralmente opostas sobre temas exactamente iguais, demonstrando, desta forma, que estão dispostos a sacrificar a sua credibilidade por meia-dúzia de patacos. Um excelente exemplo daquilo que refiro está presente na forma como, no seio dos dois principais partidos locais, PSD e PS, se reagiu aos processos em tribunal que envolveram Bernardino Vasconcelos (e vários dos seus vereadores, entre eles o candidato da coligação PSD/CDS-PP à freguesia do Coronado) e Joana Lima. No primeiro caso, assistimos à generalidade dos socialistas a disparar chumbo grosso perante o silêncio cúmplice e cobarde das hostes social-democratas. No segundo, porém, inverteram-se as posições dos intervenientes, com os social-democratas aos comandos da artilharia, ao passo que o silêncio cúmplice e cobarde ficou a cargo dos socialistas.

Perante este exemplo, que a meu ver não tem refutação possível, de tão gritante e descarado que é, uma conclusão salta imediatamente à vista: a indignação político-partidária, regra geral, é uma valente treta e não passa de uma ferramenta ocasional de propaganda e manipulação das massas. Caso contrário, tratar-se-ia de forma igual aquilo que é igual, algo que não acontece, excepto no caso daqueles hereges que, no interior dos partidos, ousam ter uma opinião desviante, acabando, em muitos casos, por ser silenciados ou saneados.

No passado, no ido ano de 2013, quando a indignação estava na moda para os lados do PSD e do CDS-PP, muito se falou de liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Houve quem acusasse o executivo socialista de destruir o extinto Jornal da Trofa – e estamos a falar de “altos oficiais” da coligação, não de fantoches contratados para assassinatos de carácter – apesar de não haver registo de qualquer boicote do executivo Joana Lima ao jornal, ao contrário daquilo que acontece hoje com O Notícias da Trofa e com o executivo Sérgio Humberto, que neste capítulo em específico se comporta como um desses aspirantes a ditadores que têm surgido em países como a Hungria ou a Polónia, ou até como Donald Trump, que se tem esforçado arduamente para silenciar a imprensa incómoda, ao passo que promove e protege a imprensa seguidista norte-americana, um pouco como o executivo Sérgio Humberto e o jornal criado pela sua campanha eleitoral de 2013, o Correio da Trofa. 

Ora, como se não bastasse este vergonhoso sistema de dois pesos e duas medidas, o executivo Sérgio Humberto deu recentemente o salto para uma nova forma de opressão das liberdades fundamentais, desta feita a liberdade de expressão. De acordo com declarações do vereador Renato Pinto Ribeiro, na última reunião do Conselho Municipal de Juventude, a CM da Trofa não celebra protocolos com associações “cujos membros da direcção colocam constantemente em causa a gestão municipal”. Quer isto dizer que qualquer membro da direcção de qualquer associação, sob o actual regime, está impossibilitado de ter uma opinião crítica sobre a condução dos destinos do município. Caso contrário é a associação a arcar com as consequências, ainda que ditas opiniões nada tenham que ver com o exercício das funções associativas desempenhadas por quem as emite. É a lei da rolha em todo o seu esplendor! É a opressão declarada de um executivo liderado por alguém que disse um dia, em plena Assembleia Municipal, que a ditadura na Trofa tinha acabado no dia em que foi eleito. Claro que, convenhamos, é pura e simplesmente ridículo acusar este ou o anterior executivo de protagonizar algo que se aproxime sequer a uma ditadura. Chega a ser insultuoso para a memória comum de um país que viveu uma ditadura. Mas a forma como este executivo tem atropelado a liberdade de imprensa d’O Notícias da Trofa, ao mesmo tempo que pactua com uma espécie de imprensa que tão bem serve os seus interesses, e a que se junta agora esta vendeta contra o Clube Slotcar da Trofa, em que o executivo camarário decidiu punir uma associação com mais de duas centenas de associados e inúmeras provas dadas do seu valor para se vingar das opiniões emitidas por mim e pelo João Pedro Costa é revelador de alguém que não percebe a essência da democracia. Revelador de tiques autoritários e de abuso de poder. Mas não chegará para nos calar. Muito pelo contrário.

Foto via Ler Eduardo Lourenço                                                                                                                                                                                                                                                                                            

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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