A Trofa não precisa de Metro, já tem o Metro de Lisboa

por José Maria Moreira da Silva 0

Um país que desculpabiliza pedófilos que a justiça condenou, um país que rejubila com péssimos governantes que hipotecaram as finanças públicas, um país que não se revolta com o facto de políticos corruptos, banqueiros fraudulentos e outros trapaceiros e criminosos de colarinho branco terem sido condenados pela justiça, mas continuarem em plena liberdade a gozar com a cara dos cidadãos, um país que consente tudo isto e muito mais é capaz de tudo.

Não é por acaso que os portugueses não ficaram nada espantados com a opção do poder centralista da capital em candidatar apenas Lisboa para acolher a Agência Europeia do Medicamento (EMA). Mesmo que, já perto do final do prazo da apresentação de candidaturas, o governo tenha recuado e reaberto o processo, que já tinha sido encerrado em Concelho de ministros, para que o Porto, e apenas o Porto, possa disputar com Lisboa a candidatura.

A primeira opção governamental foi uma opção política coerente com a postura centralista que o governo tem tido e que comprovou, quando candidatou apenas Lisboa, mesmo sem ainda conhecer os critérios específicos para a eleição da cidade que irá herdar a instituição sediada em Londres há 20 anos, de onde irá sair na sequência do Brexit. A desculpa nada esfarrapada, bastante consistente, muito inteligente e nada impregnada de incontinência mental foi a de que a “conveniência de proximidade” com outros organismos e entidades oficiais, assim o justificava.

Para o poder centralista lisboeta, os outros países bem mais evoluídos que o nosso, como a Espanha, Itália, Alemanha, Holanda, Inglaterra, não tomaram a opção inteligente de não concentrar na capital as agências europeias e optaram por diversificar, e com isso incentivaram a descentralização do investimento, do emprego e do conhecimento. O caso da nossa vizinha Espanha é paradigmático, pois tem cinco agências europeias e nenhuma está sediada na capital, ao contrário da opinião que tinha a governação portuguesa, que se diz amante da descentralização e da desconcentração, mas na prática não quer dar nenhuma lição de coesão territorial. Assim se pode aplicar, muito a propósito, o aforismo popular: “bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”.

Para o primeiro-ministro, ainda há outro argumento de peso, para a sua primeira decisão pouco arrogante e com muita sapiência. “Um dos critérios para a escolha de quem receberá a EMA é a dispersão geográfica e a candidatura de Lisboa não o faz”, disse António Costa, antes da celeuma levantada e a pouco mais de um mês do prazo para a entrega de candidaturas, que tem a data-limite de 31 de Julho, do corrente ano.

O primeiro-ministro ao ser questionado sobre  a opção do governo em só candidatar Lisboa para receber a Agência Europeia do Medicamento afirmou que o país é pequeno e que Lisboa está perto de tudo. Metaforicamente falando pode dizer-se que a Trofa não precisa de edifício para a câmara municipal, pois pode utilizar o da capital, que está ali ao virar da esquina, assim como não precisa de Metro de Superfície, pois já tem o Metro de Lisboa, que está tão perto da Trofa.

Só agora é que se entende o raciocínio lógico e linear do primeiro-ministro, ao não mandar construir o prolongamento da linha do Metro de Superfície, do ISMAI até à Trofa, uma obra economicamente viável, em virtude do aproveitamento do canal existente do comboio que foi surripiado aos trofenses há quase duas décadas, pois em alternativa o governo sediado em Lisboa vai investir quase mil milhões de euros, no Metropolitano da capital, em apenas quatro quilómetros e seis novas estações.

Os trofenses ainda não tinham descoberto a vantagem de terem o Metropolitano de Lisboa tão perto das suas casas e dos seus locais de trabalho. Provavelmente andam distraídos com outras coisas menores e desnecessárias, como a variante à EN14, a estrada circular à cidade e até a rotunda da Carriça.

 

(originalmente publicado na edição de 29 de Junho do jornal O Notícias da Trofa)

José Maria Moreira da Silva

A liberdade é muito mais que uma simples escolha; ela alimenta os sonhos dos que não têm medo ou preguiça de sonhar. É a possibilidade de usar a razão, em concordância com o nosso pensamento.

Quero aproveitar este espaço de liberdade, para ser livremente livre naquilo que penso e escrevo, sem qualquer tipo de medos ou amarras.

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.