Sobre o Belive 2017

por João Mendes 0

Terminou no passado Domingo a edição deste ano da semana da juventude da Trofa. Durante quatro dias, o Belive 2017 abriu as suas portas e ali se concentraram várias associações e instituições do concelho, bares e empresas do sector da restauração, grupos de dança e bandas trofenses e um conjunto de artistas de renome nacional que atraíram milhares de miúdos e graúdos ao recinto na zona adjacente à estação ferroviária da Trofa.

Aquele que é um dos mais bem-sucedidos projectos do actual executivo voltou a ser um grande sucesso, notando-se inclusive algumas melhorias no recinto do evento, entre as quais destaco e saúdo a remoção da área vip, uma inutilidade que em 2016 estava colocada muito perto do palco, condicionando significativamente o espaço dedicado aos comuns mortais, sobre a qual não me alongarei, remetendo para o texto que aqui publiquei à cerca de um ano atrás.

Quanto à escolha dos cabeças-de-cartaz, e porque gostos não se discutem, abster-me-ei de tecer comentários. Contudo, quero aqui sublinhar dois aspectos: em primeiro lugar, as excelentes prestações dos trofenses Platform e Bocazaparte, que abriram o palco no Sábado e no Domingo, respectivamente, e que demonstraram, em linha com o que vem acontecendo em anos anteriores, que temos no concelho excelentes artistas, absolutamente competentes para actuar em qualquer palco e muito bem aceites pelo público presente, lamentando-se apenas que, desde a edição de 2015, o número de representantes locais no cartaz tenha sido reduzido de três para dois, quando deveria estar a aumentar, não só dada a abundância e qualidade dos nossos artistas, mas principalmente porque o foco de uma semana da juventude deve ser a juventude e é fundamental que as oportunidades surjam nos contextos adequados. E este é o contexto adequado. Há espaço para mais artistas locais e esta grande festa também é deles.

O segundo aspecto tem a ver com a diversidade do cartaz. Os organizadores do Belive optaram, desde 2016, por um alinhamento que privilegia a música pop, em detrimento de quase tudo o resto. Nada contra a música pop, até porque os meus gostos pessoais não são para aqui chamados, mas continuo a defender que é preciso diversificar e abrir este evento a outros estilos, nomeadamente o rock, que tem forte tradição na nossa terra. Reparem por exemplo no mais bem-sucedido projecto musical da nossa terra, a Orquestra Urbana, onde o genial André NO consegue fundir as sonoridades mais tradicionais com guitarras, baixos e baterias. Reparem na maioria da música que é produzida neste concelho. Olhem para o concelho vizinho, onde nomes do mais pesado metal têm enchido recintos. E não se preocupem com as audiências: num concelho que durante tantos anos não teve rigorosamente nada, quaisquer quatro artistas de renome nacional, independentemente do estilo, vão encher o recinto junto à estação.

Infelizmente, ainda não foi este ano que o executivo acolheu a sugestão, apresentada em sede de Conselho Municipal de Juventude pelo terceiro ano consecutivo, de proporcionar aos jovens de todas as freguesias um transporte que permita aos residentes de Covelas, Muro, Alvarelhos e Guidões aceder ao espaço do evento em condições de igualdade com os seus pares das restantes freguesias. Uma opção deste executivo que, apesar de ter novamente aumentado a verba alocada aos espectáculos, insiste em não desbloquear uma pequena verba, bem como os autocarros de que dispõe, para servir estes jovens. Numa terra em que a esmagadora maioria dos eventos culturais organizados pela câmara municipal se concentram em Bougado, parece-me essencial que se criem condições para que ninguém fique para trás por falta de um serviço de transporte cujo custo representaria uma migalha de um orçamento total a rondar os 60 mil euros.

Finalizo, nestes dias que antecedem o quarto aniversário desta casa, com uma curta retrospectiva do que fui aqui escrevendo sobre o Belive ao longo destes quatro anos. Em 2014 critiquei a desvalorização do trabalho dos nossos artistas, tendo inclusivamente sido atacado por um dirigente partidário cá da terra. No ano seguinte, a autarquia passou a remunerar o trabalho dos nossos artistas. Ainda no mesmo ano, critiquei a forma como o evento foi comunicado, ignorando os projectos locais e posteriormente remendando o erro em cima do joelho. Desde então, como por magia, passou a haver espaço para todos, incluindo os nossos, no cartaz do Belive. No ano passado insurgi-me contra a absurda área vip, que retirava espaço e visibilidade aos comuns mortais. Este ano, a tal área vip desapareceu e o recinto ficou mais espaçoso, mais amplo e de mais fácil circulação. Entre outras coisas, pelo que deixarem no final destas linhas algum espaço para “hiperligar” todos os textos que aqui escrevi no passado sobre o Belive.

Parabéns a todos os envolvidos, não tenham medo de inovar, arriscar e diversificar e, se querem mesmo fazer disto um festival, de tantas vezes que se ouvem responsáveis eleitos pela coligação a falar nisso, então tenham o arrojo de trilhar um caminho que outras localidades, algumas bem mais pequenas do que a nossa, têm trilhado para construir projectos de grande sucesso como o festival de Paredes de Coura ou as Festas Sebastianas em Freamunde. Não vai agradar a todos, vai fazer muito barulho e trazer algum caos às estradas do nosso concelho – nada a que não estejamos já habituados – mas vai colocar a Trofa no mapa deste género de eventos. E o recinto junto à estação tornar-se-á pequeno demais para receber todos aqueles que cá vão querer vir. O Belive é um excelente projecto, na minha opinião e a par do OPJ o melhor projecto na área da juventude que alguma vez foi criado no nosso concelho, mas ainda está longe daquilo que é um festival de Verão. E a Trofa tem todas as condições para chegar lá.

 

Leituras recomendadas:

Belive 2014:

Respeitem os artistas da Trofa (12.07.2014 - hiperligação)

E agora, JSD Trofa? (13.07.2014 - hiperligação)

Uma antevisão da semana da juventude da Trofa (14.07.2014 - hiperligação)

A linha que separa as críticas construtivas do fundamentalismo partidário (21.07.2014 - hiperligação)

Precendente, resultado e legitimidade: estaremos prontos para dar o salto? (28.07.2014 - hiperligação)

Belive 2015

Apetece-me falar sobre o Belive. Será que posso? (16.07.2015 - hiperligação

Um ano depois, o Belive continua a não ser para todos (15.07.2015 - hiperligação)

Belive 2015: a crónica possível tentando não incomodar ninguém (22.07.2015 - hiperligação)

Belive 2016

Sobre o Belive 2016 (26.07.2016 - hiperligação)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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