Quatro anos depois, fiel ao meu propósito

por João Mendes 0

Quatro anos depois, continuamos de pedra e cal. Somos mais, autores e amigos, e chegamos a cada vez mais pessoas, recebendo, em alguns meses, tantas visitas quantas recebemos na totalidade do nosso primeiro ano de vida (aproximadamente 52 mil). Cobrimos e analisamos mais áreas e temas, da original heresia de esmiuçar a realidade política e social da nossa terra até à poesia ou às raízes históricas da Trofa, e tais conteúdos – pasmem-se – são escritos pelos autores e não por uma qualquer víbora manipuladora sem espinha dorsal. Por estranho que possa parecer, a foto que aparece no final de cada publicação corresponde, efectivamente, ao autor do texto em questão. Porque nesta casa não há lugar para fantoches ou testas-de-ferro. Este blogue é um blogue sério, não um grémio de corruptos ou um posto de combustível para alcoólicos sem noção do ridículo.

Continuamos a ser atacados por políticos, boys e outros elementos de claques partidárias sem capacidade de encaixe, ainda que, agora como antes, sem grande substância ou base argumentativa. O “porque sim” e o “és do contra” continuam a ser os melhores argumentos dos medíocres e dos mentecaptos. A cartilha será sempre a cartilha, e não convém ser muito rebuscada, não vá o Tico entrar em choque com o Teco. Claro que tal não nos impede de continuar a fazer o nosso trabalho de forma independente, sem agendas de poder, financiamentos ilegais por baixo da mesa ou cartilhas impostas por barões e baronesas sem carácter ou vergonha na cara. Como é bom ser livre, e que triste que é ser um desses paus mandados. Tão triste quanto cómico é ver alguns palermas descartáveis dispostos a tudo a troco de quase nada.

Por vezes perguntam-me o que me move. A resposta é muito simples. O gosto pela escrita é movido pela mesma energia que move outros a correr maratonas, jogar videojogos, colorir telas ou produzir música. O gosto pela escrita e o prazer que ela me proporciona são o meu escape, o meu passatempo e uma das minhas paixões. Por isso contribuo para diferentes plataformas e publicações, como o blogue Aventar, as magazines BIRD e Irreversível e o jornal O Notícias da Trofa, entre outros projectos ocasionais, entre os quais destaco a enriquecedora experiência de prefaciar a obra A história do concelho da Trofa – Contributos, do meu amigo e professor Moreira da Silva, ou o texto escrito a quatro mãos, com o meu brother in arms Francisco Sousa Barros, para a grandiosa Orquestra Urbana da Trofa. Prazeres indescritíveis.

Escrever sobre a Trofa, contudo, é diferente de tudo o resto. Aqui nasci, cresci, vivo e continuarei a viver, porque escolhi ficar, ao contrário de tantos amigos e familiares que desistiram de viver numa cidade onde o compadrio ainda impera. Aqui tenho família, amigos e conhecidos, aqui gosto de estar, aqui tenho o sossego de uma cidade periférica a dois passos do centro urbano do Porto, da praia e da montanha e a gastronomia de excelência que caracteriza o nosso concelho. Vi o bom velho Trofismo, vi a trofada, fui a Lisboa buscar o concelho e, quando dei por mim, tinha a Trofa entranhada nas profundezas do meu ADN.

Gosto disto, porra! Gosto desta cidade, deste concelho, destas pessoas e destes lugares. Reconheço as suas lacunas, reconheço os seus méritos e sou livre de lutar por aquilo em que acredito. E eu acredito que temos sido mal conduzidos. Acredito que o compadrio continua a ser quem mais ordena, acredito que parte dos recursos que são de todos têm sido geridos em proveito de meia-dúzia, acredito que o sector público local continua a ser usado por membros da elite política para compensar fretes e lealdade com tachos e acredito que muitos negócios públicos são usados para pagar favores de campanha. Passados e futuros. Acredito nisto e em muito mais, mas estes quatro pontos são, por si só, suficientes para justificar a minha luta contra o estado a que isto chegou. Quatro pontos que já por aqui deram muito pano para muitas mangas e que nunca foram desmentidos. Nunca. Mau grado as tentativas falhadas de um ou outro boy.

E o que ganho eu com isto? Na verdade, ganho muito. Mesmo muito. Porque não há dinheiro que pague a paz de espírito de dormir todos os dias de consciência tranquila. A sensação de liberdade que resulta de lutar por aquilo que é justo, por aquilo que é ético e transparente, não tem preço. Pare um minuto e reflicta nisto, caro leitor. Prefere estar do lado mais poderoso, ainda que tal implique o abandono total dos mais elementares valores éticos e morais? Ou prefere estar ao lado da verdade e da justiça, por mais pedras que surjam nesse caminho? Acredito que alguns se sentirão forçados a escolher a primeira opção. Desafiar o poder tem consequências e traz à tona o pequeno ditador que vive no interior dos falsos democratas. E a cegueira destes tiranetes pode ser tal que estão dispostos a vingar-se de forma desproporcional, atingindo quem está à volta dos hereges com o intuito de criar cisões e tensão. Estão dispostos a comprar pessoas, e algumas vendem-se por pequenos ajustes directos, mas, no final do dia, é pela verdade e pela justiça que a maioria suspira.

Por vezes fico perplexo com certas reacções. Por exemplo, ver um adulto que em tempos elogiou e partilhou a tua opinião reduzir-te a um tipo escondido atrás de um computador faz-me arregalar os olhos e ficar sem palavras. Será que estas pessoas têm noção do ridículo? Será atraso mental? Será que as pessoas que, acusando terceiros de serem mal-intencionados e insultuosos, têm noção das figuras degradantes a que se submetem quando não são capazes de mais do que mentir, insultar e desempenhar o papel de idiotas úteis, tão manipuláveis como uma criança em idade pré-escolar? Será que estas pessoas não se questionam e aceitam tudo o que lhes ordenam os seus Messias, com a reverência de um fanático religioso? Pior: será que estas pessoas aceitam a negociata, o compadrio e o tráfico de influências apenas por imperativo político-partidário? Se o fazem, são tão corruptos como quem corrompe.

Houve um tempo em que algumas reacções me entristeciam, me causavam dor, causavam dor aos meus. Águas passadas. Porque raio haveria eu de me preocupar com a opinião encomendada de um anormal que mais não sabe que mentir? Que motivos tenho eu para me ralar quando nunca, em momento algum, fui desmentido pelos cães raivosos do regime, por trás dos quais se escondem caciques fracos e cobardes? Nem um.

Hoje limito-me a ter pena. E digo-o genuinamente, sem figuras de estilo, porque a tralha oportunista não hesita em manipular os mais vulneráveis e susceptíveis à sua manipulação. Tenho tido a felicidade de, em diversas ocasiões, confrontar e desmentir algumas dessas pessoas e, na maioria dos casos, o resultado é extremamente gratificante. Poucas coisas são para mim tão belas quanto reduzir a nada os mitos e os boatos que os canalhas difundem. E quando tal acontece, a revolta do manipulado é furiosa. Porque foi manipulado e porque tal manipulação resultou da ambição e da ganância de pessoas sem escrúpulos. Quando a máscara cai, aquilo que se segue é indescritível. E belo.

Quatro anos depois, fiel ao meu propósito, aprendi algo que é tão importante quanto elementar. Ensinou-me a vida, ensinaram-me pessoas com quem me venho cruzando e trocando ideias, e, sobretudo, ensinou-me a minha mulher, namorada, esposa, companheira e melhor amiga. Focar-me no essencial. Focar-me naquilo que é importante, naquilo que realmente tem impacto na vida das pessoas, naquilo que faz a diferença. É inútil perder tempo com manobras de diversão do poder, porque elas estão lá para nos retirar o foco. E, se elas acontecem, sejam elas um troglodita a dar a cara pelas provocações canalhas de uma cobra fascista, sejam mentecaptos que engolem tudo o que o sôtor lhes diz, isso só poder significar uma coisa: que estamos no caminho certo. Que estamos a tocar onde dói, que o regime não tem capacidade de resposta e que o seu silêncio equivale à velha máxima de “quem cala consente”. E porque estamos no bom caminho, contem connosco, por muitos e bons anos. Vai ser preciso muito mais que uns quantos cobardes escondidos atrás de meia-dúzia de cães a salivar.

Para finalizar, uma palavra muito especial para aqueles que nos seguem. Muito obrigado pelo carinho que vêm demonstrando por este projecto. Muito obrigado pelas dicas, pelas sugestões e pelas informações que partilham. Muito obrigado pela coragem de assumir partilhas de conteúdos, sabendo que o radar do regime não deixa passar nada em branco. Muito obrigado pelas palavras de motivação e pela força que nos transmitem. Muito obrigado por tudo! Tudo farei, e estou certo que o resto da equipa também, para estar sempre à vossa altura. À altura da Trofa, das nossas raízes, deste sentimento único de pertença e desse grande sonho de uma Trofa livre e independente. À altura do grande desafio que é lutar por mais justiça e transparência e enfrentar, sempre que necessário, as grandes máquinas do poder. Não tenho nem nunca tive medo. E tenho todo o tempo do mundo, porque a minha luta não é um mandato para quatro anos: é uma missão para a vida. Doa a quem doer.

Foto: Silvano Lopes/Weshoot Agency

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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