Belive: estarão os músicos trofenses a ser preteridos em função do lucro?

por João Mendes 0

Tenho vindo a ser contactado por vários músicos do nosso concelho, algo que de resto já não é de agora, sobre a concentração de praticamente todos os eventos que envolvam concertos ou outro tipo de espectáculos nas mãos de uma única empresa, a Gabba Produções. Com a chegada do Belive, a Gabba foi a escolhida em 3 das 4 edições para contratar as bandas que alguém decide, a cada ano, que são os melhores artistas nacionais. Quem não estiver de acordo, como vem sendo habitual, é do contra.

Sobre a Gabba, e sobre o facto de, desde 2015, se terem reduzido o número de bandas locais na semana da juventude, algumas das pessoas que me contactaram referem que, um dos motivos pelos quais se reduziu o espaço para artistas trofenses no alinhamento do evento, e isto inclui os DJs que nunca são locais, apesar dos excelentes valores que por cá temos, tem a ver com pressões exercidas pela própria Gabba Produções, que não tem interesse em ter no alinhamento artistas que não lhe trarão qualquer tipo de comissão. A ser verdade, ajuda a explicar o porquê de, nas duas últimas edições do Belive, tenha havido menos uma banda trofense e mais um artista “estrangeiro” da terceira divisão nacional, bem mais caro mas sem grande impacto.

Entre CM da Trofa e Junta de Freguesia de Bougado, a Gabba Produções já levou para casa, só em ajustes directos contabilizados pela plataforma Base.gov, mais de 158 mil euros, valor que sobe para perto de 195 mil euros quando lhes acrescentamos o valor do IVA. O grosso do valor diz respeito a organização de três edições do Belive, mas a tendência tem sido para a empresa entrar noutros eventos como o Bougado em Festa e a Feira Anual da Trofa. Talvez seja a melhor empresa da área, talvez seja compadrio, é difícil de perceber e nem sequer pretendo entrar por aí, até porque vejo sempre com bons olhos que se entreguem o máximo de serviços possíveis a empresas locais, algo que Sérgio Humberto prometeu fazer na campanha de 2013, quando tudo servia para falar na “empresa de construção de Braga”. Isto apesar da construtora de Braga ter sido substituída, no corrente mandato, pela construtora de Penafiel, a Edilages (Alameda da Estação, requalificação dos edifícios da Alameda da Estação e algumas obras pontuais), que desde que o actual executivo chegou ao poder já encaixou mais de 3,6 milhões de euros dos cofres públicos da Trofa.

No entanto, a confirmar-se o cenário denunciado, é legítimo concluir que o espaço dado aos artistas locais na sua semana da juventude lhes está a ser subtraído em detrimento de operações mais rentáveis para a entidade organizadora, algo que acontece com a cumplicidade e a anuência do executivo camarário, nomeadamente do vereador Renato Pinto Ribeiro, responsável máximo pelo evento. E a publicação feita pelo proprietário da Gabba Produções (em cima), no rescaldo do Belive, onde Humberto Carneiro agradece a todos os artistas, excepto aos Platform (não confundir com “Plantform”, banda imaginária criada pelos propagandistas da fraude digital) e aos Bocazaparte, as duas únicas bandas trofenses em palco, não abona em favor destes intervenientes. 

O Belive, já tive oportunidade de o referir várias vezes, é, na minha opinião, um dos melhores projectos que nasceram com este executivo. Entendo que a oferta musical poderia ser mais abrangente, é um facto, mas tal não ofusca o sucesso desta iniciativa. No entanto, e porque se trata de uma semana da juventude, não de um festival de Verão como alguns tentam vender, importa que a juventude esteja em primeiro lugar. E isso não se pode resumir a trazer um artista da moda por ano. É preciso servir mais e melhor os jovens trofenses. É preciso, por exemplo, criar condições de acessibilidade para que mais jovens possam participar nesta grande celebração. E não me canso de repetir que a autarquia tem autocarros que podem e devem ser colocados à disposição dos jovens das restantes freguesias. Mas, acima de tudo, é preciso haver mais oportunidades para que os jovens e menos jovens músicos do concelho possam apresentar o seu fruto do seu suor à comunidade. Existe tempo mais que suficiente para que mais projectos actuem no Belive, basta haver vontade política e verdadeiro empenho em criar oportunidades. Se este exceutivo conseguiu enfiar quase duas dezenas de bandas e DJs locais num único comício em 2013 (campanha eleitoral, a quanto obrigas), estou certo que conseguirá colocar 3 ou 4 em cada dia do Belive. Afinal de contas, quem manda são os nossos eleitos, não uma produtora contratada e paga para prestar um serviço. E o Belive, como qualquer projecto municipal, existe em primeiro lugar para servir os trofenses, não para gerar lucros.  

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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