Os postes e os andores: um caso de mau planeamento e custos desnecessários

por João Mendes 0

Com as festividades em honra a Nossa Senhora das Dores a decorrer, estalou uma nova polémica no concelho, directamente relacionada com o evento e com a obra bandeira do executivo Sérgio Humberto, a Alameda da Estação. Nos dias que antecederam a famosa procissão, ponto alto das festas, os postes de iluminação da Rua Camilo Castelo Branco foram removidos da via pública, deixando aquela artéria literalmente às escuras. Motivo? O facto de não permitirem a passagem dos famosos andores, que todos os anos atraem milhares de fiéis e curiosos ao centro da Trofa.

A questão dividiu os trofenses e gerou acesas discussões nas redes sociais, tendo, por motivos óbvios, sido imediatamente absorvida pelas partes em confronto na corrida à CM da Trofa, com a oposição a desferir duras críticas ao remendo em curso. Por seu lado, poder local e apoiantes desvalorizaram, alegando que a solução encontrada era adequada. Ironicamente, são mais ou menos as mesmas pessoas que criticaram, de forma vincada, a condução da obra dos parques, que, alegavam, criaria constrangimentos à procissão e à passagem dos andores.

Parece-me algo bizarro que tal não tenha sido acautelado no planeamento da obra da Alameda da Estação. A procissão dos andores é um dos grandes marcos do concelho, um dos seus ex-libris, motivo pelo qual não se percebe que uma obra desta envergadura não tenha dado a devida importância e atenção aos condicionalismos relacionados com esta importante tradição.

Alegaram os indefectíveis defensores da coligação no poder, que esta ginástica de retirar e recolocar os postes todos os anos não representa um problema. Mas mesmo que não represente, algo que é muito relativo e discutível, tem custos, custos suportados pelo erário público, que serão uma constante, ano após ano. A menos que os postes se retirem e recoloquem sozinhos, claro. Qual o custo desta intervenção? Poderiam ter sido evitados? Quem assume responsabilidades pelos custos? São questões que, por muito que custem aos mais empenhados elementos da claque humbertista, devem ser respondidas. A menos que os ditos custos sejam assumidos, ad eternum, por alguma entidade privada, o que me parece pouco provável.

Sendo uma operação de fácil execução, a remoção e posterior recolocação dos postes de iluminação é desnecessária e representa um custo que seria perfeitamente evitável caso tivesse recebido a devida atenção, algo que se verifica agora que não aconteceu. Há quatro anos teria dado pano para mangas para muitas indignações à direita e manchetes no jornal do regime. Por muito menos, vi os propagandistas ao serviço da candidatura de Sérgio Humberto a escrever os saudosos postais do Toninho. Mas como o presidente é Sérgio Humberto e não Joana Lima, os críticos de outrora ficaram em silêncio. Ruidoso, cobarde e constrangedor. O costume.

É, aliás, motivo de chacota, que se compreende: não faz sentido que uma obra com dois meses seja já sujeita a este tipo de intervenções, que revelam mau planeamento e alguma negligência à mistura. Que geram custos para a autarquia, para todos nós. Que deixam uma artéria central da cidade às escuras. Que criam constrangimentos naquele que será o momento de maior afluência de turistas ao concelho, a par da Feira Anual da Trofa. Lamento, caros políticos, mas alguém tem que vos dizer umas verdades, e pelos vistos estou longe de ser o único ou sequer o primeiro: tudo isto é pura e simplesmente ridículo.

Este caso é mais uma prova factual, a juntar a outras tantas, que dá força e substância às críticas legítimas que foram feitas à condução de uma obra que se processou a uma estranha velocidade, nunca antes vista, com este ou com qualquer um dos anteriores executivos trofenses. O piso, as zonas ajardinadas e alguns elementos decorativos e desportivos foram concluídos e colocados mesmo a tempo do grande comício do presidente, pago com dinheiros públicos e a poucos dias do arranque oficial da sua campanha eleitoral, mas a obra foi inaugurada com o recinto desportivo por concluir, com os edifícios tapados e cuja remodelação começou vários dias após a pomposa inauguração, com a via que passa por trás da antiga estação em direcção à E.B. 2/3 Napoleão Sousa Marques fechada e, descobrimos agora, com postes que impedem a normal circulação dos majestosos andores das festas em honra de Nossa Senhora das Dores. Não é a repetição da história da inauguração do Parque das Azenhas mas é tão parecido que deveria corar de vergonha aqueles que avaliam casos semelhantes de forma diametralmente oposta, apenas para fazer fretes político-partidários. 

Foto: O Notícias da Trofa

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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