Os murenses não papam grupos

por João Mendes 0

Fez no passado Sábado, dia 2 de Setembro, um ano desde que a ponte da Peça Má foi demolida. O tema dividiu os trofenses, serviu de arma de arremesso político, na antecâmara da campanha para as Autárquicas 2017, e deixou bem claro que a palavra dada pelo presidente da câmara municipal da Trofa, na Assembleia Municipal de 28 de Dezembro de 2015, não foi honrada. Uma vez mais.

Podemos discutir se gostamos mais ou menos da ponte, se ela tem ou não importância cultural e histórica para o nosso concelho, existem argumentos válidos de um lado e de outro, mas há aspectos neste caso que são factuais e que, a meu ver, não têm refutação possível. Um deles é o facto de existir um estudo, pago do bolso de um histórico social-democrata trofense, o comendador Eurico Ferreira, que representava uma alternativa viável e exequível para alargar a estrada e tornar a passagem por baixo da ponte absolutamente segura, sem necessidade de a demolir. Outro é que Sérgio Humberto enganou os seus munícipes quando afirmou que nada seria feito sem que a população fosse consultada. O teatro foi tal que o autarca chegou mesmo ao cúmulo de sugerir a possibilidade de um referendo.

Estes dois factos – não confundir com especulações feitas por jotas que imaginam perseguições que nunca aconteceram ou fanáticos de extrema-direita que se escondem por trás de alcoólicos impedidos de beber pelo médico – ilustram na perfeição algo que me parece muito claro: Sérgio Humberto não respeitou a população. Por esse motivo simulou, na minha opinião, uma preocupação que nunca existiu, mostrou-se disponível para ouvir a proposta do comendador, porque ignorar uma personalidade com o peso político e social de Eurico Ferreira poderia custar-lhe caro, e prometeu ouvir a população, acabando por permitir a demolição sem cumprir o prometido.

Não deixa de ser digno de registo que, muitos daqueles que usaram a destruição dos coretos do Parque Nossa Senhora das Dores para atacar o anterior executivo, tratando-os como um grande monumento, sejam os mesmos que agora, por mero partidarismo, muitos porque há tachos para manter, outros tantos na esperança de conseguir um, se referem à ponte da Peça Má como um pedaço de entulho. Pessoalmente, acho que ambos deviam ter sido mantidos, ponte e coretos, não porque tal agrada ao político ou ao partido A ou B, mas porque defendo que a nossa história deve ser conservada e mantida tanto quanto possível. E num como noutro caso era possível mantê-la. Em ambos foi destruída por vontade política, nada mais.

Exactamente um ano depois de ter demonstrado que a sua palavra afinal não tinha valor, Sérgio Humberto trouxe as tropas do centro do concelho, um porco no espeto e umas colunas de som, e surgiu no largo da estação do Muro para fazer propaganda política. A velha política dos comes e bebes será sempre um clássico entre os políticos da velha escola: como a malta tem pouca paciência para ouvir barretes eleitorais, oferecem-se umas bifanas e um copo de tinto e sempre aparecem mais alguns para comer e beber. Mas, a julgar pelas fotos, nem com porco no espeto a coisa foi lá grande sucesso. Talvez porque os murenses não tenham memória curta, talvez por terem uma forte tradição de candidaturas independentes que fazem política com o seu suor e não com os milhares que lhes chegam de Lisboa. Talvez porque não estejam à venda, como tantos mercenários aqui da capital. Quer dizer, alguns até estão, e o preço nem é nada que não se possa pagar. Mas há ali um saudável hábito de não se deixarem fazer de parvos pela politiquice convencional. Um dos muitos motivos pelos quais admiro aquela gente. Os murenses não papam grupos. A ver vamos, como responderão nas urnas.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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