E que tal não fazer campanha com o nosso dinheiro, senhor presidente?

por João Mendes 0

Ao longo dos quatro anos de mandato, os casos sucederam-se. Destacarei cinco, que me parecem dar substância ao argumento de que as pessoas no poder vêm fazendo campanha e promovendo a sua imagem à custa de recursos públicos que são de todos, com grande destaque para o presidente Sérgio Humberto. Poderiam ser mais.

O primeiro é o caso Correio da Trofa, “jornal” criado pela campanha eleitoral da coligação em 2013, onde, com excepção das páginas de desporto, as únicas assinadas por um jornalista (ou pelo menos assinadas), os conteúdos praticamente se resumem à glorificação do executivo e a ataques ad hominem a quem o contesta. Desde a sua criação, para o “jornal” que ocupou como primeira sede, aqui na Trofa, a antiga sede de campanha da coligação Unidos pela Trofa de 2013, se é que alguma vez de lá saiu, voaram já cerca de 100 mil euros dos cofres da autarquia para ex-colaboradores e proprietários, em formato de ajustes directos nebulosos. E não estou a contabilizar da publicidade constantemente feita pela autarquia e pelas juntas PSD/CDS-PP, ou os ajustes directos de valores inferior, fora do radar da plataforma Base. E é bom recordar, ou informar quem não está a par, que a Entidade Reguladora da Comunicação Social confirmou por escrito, no final de Novembro de 2016, que o “jornal” estava oficiosamente cancelado desde Janeiro de 2014, por incumprimento das normas a que qualquer órgão de comunicação social está sujeito, apesar de nunca ter saído das bancas. Um “jornal” que, durante vários meses, tinha na ficha técnica um director que, a julgar verdadeira a informação prestada pelo “jornal”, acumulou funções com a assessoria do PSD de Santo Tirso, ilegal à luz da legislação que tutela o sector.

O segundo é o caso do vídeo da inauguração da obra dos parques, uma vez mais pago pelos cofres da autarquia, que Sérgio Humberto usou como seu e publicou na sua conta pessoal de Facebook, na noite de 20 de Novembro de 2015 (um dia após uma inauguração que custou 120 mil euros e que ganhou o prémio do conhecido blogue Má Despesa Pública na categoria Festa do Ano), a partir da qual, e apenas na manhã seguinte, a conta oficial da autarquia o partilhou, quando devia ter sido ao contrário. Os conteúdos pagos pela autarquia são da autarquia, para ser usados em primeira instância pela autarquia, não para uso pessoal do seu presidente, não lhe parece, caro leitor?

O terceiro caso é a inauguração da Alameda da Estação, sem que a obra estivesse concluída, que proporcionou um gigantesco comício às forças no poder, a escassos dias do pontapé de saída da sua pré-campanha, a fazer lembrar a inauguração do Parque das Azenhas. Não está em causa a importância da obra, que me parece inquestionável, mas os timings de uma inauguração cuja prioridade, manifestamente, foi calendário da campanha eleitoral da coligação. O custo, uma vez mais, ficou a nosso cargo.

O quarto caso é um clássico, e diz respeito ao sem-número de intervenções na rede viária a que temos assistido nas últimas semanas, não raras vezes em troços que estavam num estado lastimável desde que este executivo entrou em funções, apesar da ausência de cartazes ilegais da JSD nessas estradas, que os buracos só parecem preocupar os políticos quando estão na oposição. Algumas destas intervenções eram de simples execução e não se percebe porque motivo foram adiadas para as semanas que antecedem as eleições. Ou será que se percebe?

Porém, a meu ver, nenhum destes casos é tão denunciado como aquele que veio a público na passada semana. Um caso que ilustra, a meu ver, o mais vergonhoso eleitoralismo que grassa neste país. Desde que este executivo chegou ao poder, manteve-se uma prática que vinha de trás, e a meu ver bem: o passeio anual sénior. E se em 2014 não é possível descortinar o valor gasto neste evento, por estar diluído num ajuste directo mais amplo, note bem, caro leitor, os valores que se seguiram: em 2015, o passeio custou 5.524,53€Já em 2016, subiu para quase o dobro: 9.900,00€! Mas, repare bem neste fenómeno, em 2017, a um mês das eleições, o valor da mesma actividade disparou 610% face a 2015 e 296% face a 2016. Sim, leu bem, são mesmo esses valores. Este ano, o executivo decidiu gastar a módica quantia de 39.228,00€. E porquê? Porque ao invés de assumir apenas o custo do transporte, ficando o farnel ao cuidado dos participantes como era habitual, o executivo PSD/CDS-PP decidiu pagar uma grande almoçarada na famosa Quinta da Malafaia.

Se isto não é eleitoralismo em todo o seu esplendor, não sei o que será. É eleitoralismo, é usar os idosos para obter vantagem eleitoral, que, é bom ter em conta, representam cerca de 25% dos eleitores do nosso concelho, e tudo feito com o dinheiro dos nossos impostos. Uma festa onde, aos idosos em convívio, se juntaram o presidente da junta de Bougado, Luís Paulo, a presidente da Assembleia Municipal, Isabel Cruz, o vereador da Cultura, Renato Pinto Ribeiro, a vereadora da Acção Social (a única cuja presença, a meu ver, que fazia ali sentido), Lina Ramos, o presidente da CM da Trofa, Sérgio Humberto e a sua chefe de gabinete, Zita Formoso. Para quê? Que faziam eles lá? Não haveria trabalho a fazer na CM da Trofa naquele dia? Ou estariam a fazer campanha paga pelos cofres públicos? A julgar pelas fotos publicadas na página da autarquia, onde Sérgio Humberto, não os idosos, é a estrela do evento, é o que parece. Presidente a cantar com os idosos, a dançar com os idosos, aos abracinhos com os idosos… E que tal fotografar os idosos e deixar a campanha eleitoral para a página da coligação Unidos pela Trofa? Já agora, que tal deixarem o nosso dinheiro de fora das vossas manobras eleitorais?

Fotografia: Facebook Câmara Municipal da Trofa

(originalmente publicado na edição de 14 de Setembro do jornal O Notícias da Trofa)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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